Ecos da Colonização

por Marina Sertã

            Esse post é resultado de algumas reflexões, às quais eu agradeço à professora Paula Sandrin, acerca de uma pergunta na avaliação da matéria de Conflitos Indenitários deste semestre:

A história do imperialismo ocidental é relevante para compreender as relações internacionais contemporâneas?

Para mim? Sim! Claro! Para mim, o imperialismo ocidental fixou suas raízes tão profundas nas colônias a ponto de não só explorar seus recursos ou promover práticas violentas, mas ao ponto de colonizar as mentes dos povos dominados em níveis inimagináveis. E, nesse processo, afetou tanto quem os objetos da colonização quanto seus executores! Vamos discutir esses processos?

Colonialismo

            Ok! Primeiro, o que é colonialismo? Ou melhor, o que eu entendo por colonialismo? (toda definição será contestada!) O colonialismo é uma dinâmica simultânea de práticas e discursos de exploração e imposição envolvendo colonizadores e colonizados permeada do início ao fim por violência. Um processo intrinsecamente político. Eu estou olhando para esse processo no contexto da Modernidade. Entendo que a colonização foi praticada em diferentes outros pontos da história, mas é um corte que eu escolho fazer. A Modernidade, (de novo) eu entendo pela combinação de fatores como o Iluminismo, valorização do indivíduo, laicização e descentralização da política e economia e avanço do conhecimento científico e atividade industrial1. A modernidade, muito mais que um momento na história, é uma máquina de produção de indivíduos que internalizam suas características.

em violências e profundidade

            A colonização é sobretudo, para mim, um processo firmação e reafirmação do poder do Ocidente sobre o Oriente não só nas práticas de dominação, de reformulação de comunidades, “troca, pilhagem, negociação, guerra, genocídio, escravidão e rebeliões”.2 e verdadeiras chacinas, mas na construção discursiva deste outro dominado. Olho o imperialismo ocidental, com as lentes do Said, de Orientalismo, como um processo de produção do oriente, por parte do ocidente, “em termos políticos, sociológicos, militares, ideológicos, científicos e imaginários”. 3 São discursos que inferiorizam, subjugam e até mesmo infantilizam o outro para legitimar as práticas de assimilação dele dentro dos sistemas coloniais.

            Um exemplo muito claro para mim do poder que a colonização tem na construção subjetividade humana é a TED talk da Chimamanda Ngozi Adichie, The danger of a single story.4 A Chimamanda é uma escritora, sempre foi desde muito pequena. E ela conta que algumas das primeiras histórias dela eram sobre princesas que brincavam na neve, em reinos cheios de maçãs. Mas a Chimamanda é nigeriana. E conta que, na época que escreveu essas história, não tinha contato com a neve e que ela comia mangas ao invés de maçãs. As histórias da pequena escritora nigeriana tinha sido colonizadas pelos contos de fadas europeus que ela lia. E isso, pra mim, é muito ilustrativo do poder da narrativa colonial de se impor sobre a narrativa local de modo que os indivíduos acreditem que estão produzindo essa cultura imposta, não só meramente a reproduzindo. É a expressão do poder que o discurso colonial tem de se impor sobre os indivíduos de modo que não precise de mecanismos de imposição ou exploração da metrópole, esses processos já foram automatizados em um nível tão profundo, que nós mesmos o reproduzimos.5 e 6

em ambos os lados,

            E o mais interessante desse processo é que ele é, guardadas as devidas diferenças e proporções, simultâneo nos dois lados. Ou você acha que a riqueza harmônica e rítmica que dos Beatles não é muita influência de música negra? Ou de onde você acha que veio uma das principais influências para o impressionismo que não o Japão? Ou de onde veio o estilo de estampa que conhecemos como paisley senão da Índia? E é claro que aqui eu estou sendo extremamente reducionista, porque não existe uma “música negra”,  uma “arte japonesa” ou  uma “moda indiana”. Não! É claro que não! Mas é inegável a influência de alguns aspectos dessas culturas no ocidente.

            Pera! Então somos todos, colonizadores e colonizados, meros fantoches da colonização? Bonequinhos de pano que muito mais que não controlar o que falam e fazem, não controlam o próprio ato de falar ou se movimentar? Porque, hoje, com um fluxo nunca antes visto de sons, imagens, línguas, histórias, dinheiro, pessoas e culturas, não tem como não ser influenciado! Não tem como não ser produto dessas constantes trocas que acontecem no mundo! Não tem como manter a própria cultura! Só que, pra mim, essa concepção folclórica de cultura é uma coisa meio antropólogo do séc XIX. Nada no mundo está assim, isolado, intocado, imaculado. O mundo vive das constantes trocas, mudanças e interações. Estamos em um processo constante e dinâmico de construção de nós mesmos e dos outros. Estamos numa constante dança em que, ao mudarmos de parceiro, adequamo-nos aos passos do outro, adequamos o outro aos nossos passos, aprendemos passos novos, viramos, pulamos, rodopiamos e pisamos nos pés uns dos outros.

exercendo poder.

            O que me incomoda nessa dança é que nada é por acaso! Nem música que está tocando, ou a maior parte dos nossos passos, nem os parceiros disponíveis no salão. Por que, mesmo com todos os incríveis fluxos da globalização, eu não conheço histórias nigerianas, músicas estonianas, danças equatorianas, moda nepalesa, arquitetura neozelandesa, culinária guatemala ou qualquer estrutura de pensamento que não a ocidental? Porque existem assimetrias de poder. Porque, existe uma capacidade maior de certas culturas de se propagarem pelo mundo, seja capacidade disseminação ou aceitação, que por si já é altamente influenciada pela colonização. Porque estrutura de pensamento não é algo que se conhece e se muda do dia pra noite, porque elementos da colonização como este estão enraizados de uma maneira quase imperceptível e muito difícil de mudar.

E agora?

             Meu primeiro passo está sendo a tomada de consciência desses diferentes tipos de colonização que me perpassam. O que puxa uma tentativa exponencialmente crescente de me abrir o máximo a modos diferentes dos meus. Dessa forma, estou rejeitando qualquer frase que contenha algo parecido com “o ser humano naturalmente”. Naturalmente? Será? Ou o “ser humano ocidental”? Ou “a imagem construída do ser humano ocidental”? Estou em um momento de testar os limites da colonização em mim. E está sendo simultaneamente desesperador e divertido!

            E vocês? O que acham? Como ouvem esse ecos da colonização em vocês? Como vocês encaram nesse processo? É natural? Benéfico? Violento de alguma forma? Gostaria de ouvir muitas perspectivas!! Me concedem essa dança?

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  1. Sankaran Krishna. Intellectual and historical background. The story of unequal development from 1500 to 1900. In: ___. Globalization and Postcolonialism: Hegemony and Resistance in the Twenty-First Century. Lanham: Plymouth, Rowman & Littlefield, 2009. p. 7-30.
  2. Ania Loomba. Colonial and Postcolonial Identities: constructing racial and cultural difference. In: ___. Colonialism/Postcolonialism. London: Routledge, 2005. p. 91-106.
  3. Edward Said. Orientalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2004/1978.
  4. https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story
  5. Edward Said. Imperialismo e Cultura. São Paulo: Cia das Letras, 1993.
  6. David Chandler. Empire in Denial: The Politics of State-building. London: Pluto Press, 2006.
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4 comentários sobre “Ecos da Colonização

  1. Let’s dance, baby.

    Primeiramente, parabéns pelo texto! Aplaudo toda iniciativa de compartilhar ideias, pensamentos e trabalhar a conscientização 🙂

    E sobre seus questionamentos, Marina, sou um eterno observador do comportamento humano e não vejo nada de natural nisso. Vejo a soma de diferentes culturas construindo, destruindo e reconstruindo comportamentos. E como você bem disse, nada é por acaso.

    Tenho encarado esse processo com a mente bem aberta, gosto de ter contato com hábitos diferentes dos meus, com bandas alternativas que ninguém nunca ouviu falar, livros que não são best-sellers e coisas do tipo. Com isso, aprendo mais sobre mim mesmo e exercito a prática do respeitar a diferença.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Walace! Muito obrigada pelo comentário! ♥
      Agora, fiquei curiosa com os livros e música (filmes e algo mais?) que você está tendo contato. Muita coisa fora do eixo Europa-EUA? Se sim, você repara alguma diferença no estilo? Como as culturas diferentes influenciam essas produções?
      Outra curiosidade: como você entrou em contato com essas produções mais… underground? É difícil de achar? De onde elas vêm? São mais comuns de que países?

      Obrigada!

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