ISIS e as Negociações entre o P5+1 e o Irã

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão

12345Duas semanas atrás, dia 14 de outubro, o Secretário de Estado norte-americano John Kerry, a Chefe de Política Externa da UE Catherine Ashton e o Ministro das Relações Exteriores do Irã Mohammad Javad Zarif, se reuniram em Viena para mais um rodada de negociações para se conseguir chegar ao Acordo Nuclear Compreensivo (Comprehensive Nuclear Agreement) sobre o programa nuclear iraniano. Esse acordo deveria ter sido firmado em julho, mas foi adiado para novembro porque as partes não chegaram a um consenso sobre o seu conteúdo e a sua dimensão. De acordo com o The Washington Post[1], essa reunião foi muito importante, mas muitas questões e problemas ainda precisam ser resolvidos até o deadline, 24 de novembro de 2014. Um oficial do Departamento de Estado afirmou que os EUA acreditam que tal acordo possa ser atingido até o final do ano.

12345Em novembro do ano passado, esses países aceitaram o Plano de Ação Conjunta (Joint Plan of Action), um acordo provisório e limitado, mas que possibilita uma solução de longo prazo e que atenda a ambas as partes nas negociações. Desde então, tanto o P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) quanto o Irã estão cumprindo com a sua parte no acordo, em momentos diferentes, mas estão cumprindo. Mesmo assim, isso não é o suficiente. Teerã quer que as sanções diminuam e o seu dinheiro no exterior devolvido, enquanto que o Ocidente quer se certificar de que o programa nuclear do país não seja, nem possa em nenhum momento do futuro, se transformar em um programa militar e que uma bomba atômica seja desenvolvida. Por isso, o Comprehensive Nuclear Agreement é tão importante para a manutenção da cooperação na região.

12345A reunião do último dia 14 é só um exemplo do diálogo crescente entre o Irã e o P5+1. Por outro lado, a questão do Estado Islâmico (ISIS, do inglês Islamic State of Iraq and Syria) aparece como algo paralelo às negociações nucleares. Esse grupo extremista sunita está lutando tanto contra os governos do Iraque (aliado dos EUA) quanto da Síria (aliada do Irã). Fazia parte da Al-Qaeda, mas se separou por ser considerado muito radical. Sua principal ideia é acabar com a influência ocidental e xiita na região e formar um califado sunita (país muçulmano regido pela sharia, lei islâmica baseada no Alcorão). Ele tem se beneficiado da instabilidade política de ambos os países (principalmente Síria) para crescer e oferece, cada vez mais, uma ameaça para os seus inimigos, como mostra o seu envolvimento na guerra civil contra o governo Assad e o sequestro e assassinato de ocidentais e curdos nessas últimas semanas. Por conta desse quadro, os EUA iniciaram ataques contra esse grupo e eles tiveram apoio de países como: a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Reino Unido, a França e a Bélgica. O Irã, por apoiar o governo de Damasco e ser contra um novo extremismo sunita, também se mobilizou e mandou oficiais da Guarda Revolucionária para Iraque para combater o ISIS[2]. Talvez a luta contra uma ameaça comum faça com que o Ocidente e o Irã se aproximem diplomaticamente, o que poderá facilitar com que o Comprehensive Nuclear Agreement seja feito até o dia 24 de novembro.

12345Mesmo parecendo um pouco idealista, é preciso lembrar que algo semelhante já ocorreu. Em 2001, logo após os ataques de 11/09, Irã e os EUA se aliaram contra o governo do Talibã no Afeganistão, o que foi considerado por alguns como o momento de maior cooperação entre os países desde antes da Revolução Islâmica Iraniana em 1979[3]. Porém, infelizmente, isso não durou muito e no ano seguinte o Presidente George W. Bush colocou o Irã no “Eixo do Mal,” junto com Iraque (do Saddan Hussein) e Coréia do Norte. Agora, isso talvez possa ser diferente. Em 2002, havia o medo e a apreensão de um Irã nuclear, hoje já existe uma cooperação entre os países, que estão fazendo a sua parte no Plano de Ação Conjunta. É verdade que existe muito medo de ambas as partes de que o outro traia, se aproveite da situação para conseguir um acordo melhor para si e que terceiros possam interferir de maneira negativa no processo, por isso é preciso manter o foco nas negociações e no que elas querem evitar, porém sem esquecer a importância de uma relação fortificada entre Irã e o Ocidente para ajudar ambos a combater a ameaça comum, o ISIS. Caso isso se realize, poderemos ter um Irã mais integrado no sistema internacional e uma possível maior estabilidade e cooperação na região, pelo menos com relação às ações norte-americanas e europeias.

[1] MORELLO, Carol. U.S., E.U. hold grueling talks with Iran about its nuclear program. The Washington Post, 15 out. 2014. Disponível em: <http://www.washingtonpost.com/world/middle_east/us-eu-talk-with-iran-about-its-nuclear-program/2014/10/15/c7a423ed-7c74-4065-9d52-9af51c52c125_story.html?tid=hpModule_04941f10-8a79-11e2-98d9-3012c1cd8d1e>. Acesso em: 19 out. 2014.

[2] KREVER, Mick. Iran’s President calls airstrikes on ISIS ‘theater,’ says broader campaign needed. CNN, 1 out. 2014. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2014/09/26/world/meast/iran-president-amanpour-interview/index.html>. Acesso em: 20 out. 2014.

[3] MILANI, Mohsen. Iran and Afghanistan. The Iran Primer, s.d. Disponível em: <http://iranprimer.usip.org/resource/iran-and-afghanistan>. Acesso em: 19 out. 2014.

Anúncios

Um comentário sobre “ISIS e as Negociações entre o P5+1 e o Irã

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s