O Choque (The Clash)

por Carol Grinsztajn

 

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     Em 1982 a banda The Clash lançou o que viria a se tornar um dos seus singles mais famosos: Rock the Casbah. A letra da música conta a história de um levante popular espontâneo contra a proibição de escutar rock imposta por um Shareef (uma autoridade muçulmana) à sua comunidade local e como as tentativas de repressão do Shareef foram frustradas diante do efeito que as músicas de rock tinham na população.

     O clipe da música mostrava um homem caracterizado como “tipicamente” árabe andando pelas montanhas arenosas do Texas com um rádio. Mais tarde descobrimos que ele está indo para um show do The Clash. Na estrada, ao pedir carona, se depara com um homem caracterizado “tipicamente” como judeu ortodoxo. Após uma breve troca de olhares e estranhamentos, o árabe entra no carro do judeu e os dois passeiam dançando ao som do rádio até chegarem ao show da banda.

     Onze anos depois, Samuel Huntington lançou o que viria a se tornar um de seus artigos mais famosos: The Clash of Civilizations?. Sua hipótese era que a nova principal fonte de conflitos no mundo não seria ideológica ou econômica, mas cultural: o choque (clash) de civilizações.

            Essas obras (a música, o clipe e o artigo) possuem algo em comum: todas buscam contar uma versão sobre como se dá o encontro entre diferenças. Entretanto, essas versões se diferenciam (entre outras coisas) em termos de escala: enquanto Huntington trata do choque entre as grandes civilizações, The Clash trata das relações cotidianas da pessoa comum com a diferença. Na maioria das vezes o encontro entre as diferenças se dá nessa segunda escala, e frequentemente os resultados são muito distintos do “desastre” previsto por Huntington. Os indivíduos parecem ter soluções muito criativas e pragmáticas para lidar com o choque (clash) de diferenças as diferenças no dia-a-dia do que as “grandes civilizações” de Huntington. É claro que existem tensões, preconceitos e conflitos, mas o encontro de diferenças pode gerar muitos resultados distintos. De fato, a palavra clash em inglês, se buscada nos dicionários, pode ter vários significados: um confronto violento, uma “discrepância” de cores ou um forte barulho.

Um confronto violento- Rocking the Casbah

            Em 1991, os EUA iniciaram a invasão do Iraque durante a Guerra do Golfo com a operação Desert Storm.  A primeira música transmitida pelas Forças Armadas Norte-Americanas na rádio local foi Rock The Casbah. O nome da música também foi pintado em uma das bombas a serem jogadas em solo (para desgosto do compositor Joe Strummer). Aparentemente, os soldados interpretaram a letra música como uma provocação a um certo estilo de vida “árabe”, em oposição ao rock ocidental.

            Huntington afirma que por causa das distinções de língua, história, religião, costumes, etc., as fronteiras entre as civilizações são reais e naturais. Essas diferenças levariam inevitavelmente a um clash, usado aqui no sentido de confronto. A equação de  Huntington é: quanto mais diferença e quanto mais interação, maior o confronto.

             Um dos críticos diretos do Clash of Civilizations é Edward Said. Ele propôs uma espécie de paródia, o The Clash of Ignorance (o choque de ignorâncias). Para Said, Huntington ignora as dinâmicas internas e a pluralidade de toda “civilização”.  Ao falar sobre o encontro das diferenças como algo perigoso e violento, Huntington está contribuindo para que se construa a identidade das “civilizações” dessa forma e manter a ignorância que constrói estereótipos. A ordem dos fatores é, portanto, invertida: não é a diferença e o encontro que por si só causam o perigo, mas é a própria interpretação do perigo que constrói a ideia de diferença e identificação.

            Huntington busca criar uma ideia de civilização como algo imutável e bem definido, ao mesmo tempo em que ignora todos os exemplos de trocas culturais positivas ao longo da História, deixando do lado o fato de que os contatos entre as diferenças fizeram com que toda cultura deva muito das suas próprias características a outras culturas.

Uma “discrepância” de cores- Rock BaCasbah

            Em 2012, o diretor israelense Yariv Horowitz lançou o seu primeiro filme, chamado Rock BaCasbah. O filme conta a história de um grupo de soldados israelenses durante a primeira Intifada, e se desenrola através das relações desenvolvidas entre os soldados e dos soldados com a população local, demonstrando os momentos de tensão e identificação.

        O filme é um retrato interessante de como muitas vezes ignora-se nos estudos de política internacional, especialmente de guerras, as relações pessoais envolvidas. Essas análises ignoram que o conflito não ocorre entre dois blocos fechados e uniformes, mas envolve uma “discrepância” de uma grande quantidade de cores e tons envolvidos nas partes de um conflito, as discordâncias internas da política doméstica, as relações pessoais desenvolvidas por partes “rivais”, e o envolvimento de indivíduos em campo- seja no sentido de aceitar ou resistir- para que ocorram os movimentos de política internacional. A própria letra de Rock The Casbah nos traz o exemplo da resistência de indivíduos em aceitarem o julgo de uma identidade imposta de cima para baixo do Shareef, que coloca o rock ocidental como ameaça às leis do profeta.

         Podemos ir ainda mais longe e afirmar que o encontro da pluralidade não se dá somente entre indivíduos de partes rivais de um conflito ou nas fronteiras das civilizações, mas nos vários tipos de diferença existentes: de gênero, de gosto musical, torcida de time de futebol, personalidades, formas de se vestir, diferentes etiquetas. As várias cores, portanto, aparecem dentro de um mesmo grupo e até mesmo dentro de um mesmo indivíduo.

Um forte barulho – Rock El Casbah

            Em 2004, o cantor algeriano Rachid Taha lançou um cover da música de sua banda preferida, The Clash, chamado Rock El Casbah. A música era a tradução literal da letra original para o árabe, com o acréscimo de alguns arranjos “arabescos”, por assim dizer. A música foi eleita pelo The Guardian um dos 50 melhor covers de todos os tempos. Segundo o jornal, “um algeriano rebelde recuperando o potshot do The Clash nas nações árabes que baniram a música ocidental é irresistível.”. Se o cover pode ser entendido como provocação, também pode ser entendido de uma forma bem mais simples: um cantor que escolheu gravar uma de suas músicas preferidas na sua língua materna.

             O cotidiano está cheio de situações de encontros entre diferenças, mas as pessoas frequentemente vão além das fronteiras do eu e o outro. O encontro com o diferente não precisa ser um clash no sentido de confronto e nem mesmo uma “discrepância” de cores- o choque pode produzir barulho. O barulho, entretanto, não necessariamente é áspero ou rude, mas se conduzido no ritmo certo pode gerar um novo som completamente harmônico, como a música de Rachid Taha. Podemos perceber esse tipo de encontro também no clipe de Rock The Casbah: o estranhamento inicial entre os personagens dá lugar a uma transformação que possibilita a convivência. A interação funciona no sentido de encontrar o outro dentro de si, não só através daquilo que se tem em comum, mas do reconhecimento do valor das diferenças e daquilo que devemos uns aos outros.

Mustapha Dance

            O lançamento do single Rock the Casbah foi acompanhado de uma outra música no lado B do disco, chamada Mustapha Dance. Ela nada mais é do que uma versão mais dançante de Rock the Casbah, mas a letra é cortada apresentando somente os trechos que parecem especificar que as atitudes contra o rock ocidental vinham do Shareef, mas também que as próprias autoridades utilizavam artigos ocidentais, como o Cadillac. Somamos a isso um último dado: o nome da banda The Clash foi cunhado após os integrantes perceberem o grande número de vezes que a palavra Clash aparecia nos jornais britânicos.

        A mídia frequentemente reporta o encontro como um clash, no sentido de um confronto violento. Entretanto, os jogos dos governantes como analisados por Hungington são apenas o lado B do encontro intercultural, a Mustapha Dance. O lado A são as interações, as pessoas, é o Rock the Casbah, o Rock BaCasbah, o Rock El Casbah. Ele inclui as ações individuais, as reações de pessoas que frequentemente não sentem sua identidade ameaçada ao entrarem em contato com outras e que resolvem o “problema” da diferença, produzindo novas realidades e dando espaço a novas formas de interação.

 Agradeço ao meu querido professor Paulo Chamon por me incentivar a fazer as reflexões que apresentei nesse ensaio.

Referências Bibliográficas

HUNTINGTON, Samuel. The Clash of Civilziations? Foreign Affairs, Vol. 72 n.3, Summer 1993.

SAID, E. W. The Clash of Ignorance. The Nation, October 22, 2001.

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