O Clássico dos Milhões

por Kayo Moura da Silva

      No último domingo as brasileiras e os brasileiros foram às urnas para decidir sobre o futuro do país. A grande festa da democracia – nome que injustiça nosso carnaval de rua – assemelhou-se a um Fla-Flu em um Maracanã repleto com mais de 100 milhões de torcedores. Quase todos os componentes desse clássico do futebol estavam ali presentes. A diversidade de classes e opiniões, os cantos que vocalizam a participação popular nesse processo, a paixão por aquilo que seu time representa, a admiração pelos craques e também pela história do seu clube, além da emoção e incerteza que marcaram fortemente essas eleições.

     Quem imaginaria o triste fim que teria a candidatura de Eduardo Campos (PSB)? Quem imaginaria o quanto a substituição de sua candidatura pela de Marina Silva acirraria a disputa presidencial? Quem imaginaria que mesmo após ser apontada como favorita pelas pesquisas sua candidatura sofreria tal queda, não lhe garantindo sequer um lugar no segundo turno? Quem imaginaria que a candidatura de Aécio Neves (PSDB) se “popularizaria” tanto? Quem imaginaria que essa seria a eleição mais disputada da história política brasileira desde a redemocratização?

     Contudo, mesmo sendo um amante do clássico das massas, tenho de reconhecer que seus aspectos mais infelizes também contagiaram essa disputa eleitoral. A briga entre torcidas, embora não manifestada fisicamente, esteve presente nas palavras e gestos de diversos eleitores. Os preconceitos de classe, a discriminação com os nordestinos e principalmente a falta de diálogo foram marcas desse momento. Nunca antes na história de vida desse jovem que lhes escreve, viveu-se um momento de tamanha polarização, que inclusive dificultou um debate ponderado e construtivo sobre que projeto de país gostaríamos de traçar.

      Entretanto, assim foi feito, dois turnos se sucederam e uma presidenta reelegemos. Segundo minha perspectiva – e aqui não faço a mínima questão de ser apartidário – reelegemos uma concepção de Estado e de governo que embora já há muito tenha se afastado do que um dia fora, agregava na conjuntura a repulsa ao retrocesso de um governo tucano. Além disso, devemos ser honestos e reconhecer que reelegemos um governo que duplicou o número de universitários no país, que consolidou o maior programa de transferência de renda do mundo, que retirou o país do mapa da fome, que realizou o maior programa habitacional do mundo, que diante da maior crise internacional dos últimos 70 anos manteve emprego e gerou aumento real do salário mínimo.

      No que se refere à área internacional, assunto que geralmente é ausente no período eleitoral brasileiro, foi espantosamente curioso perceber que o clássico também ocorria nesta arena. A política externa havia espantosamente se politizado! Contrariou-se a noção que política externa se trata de uma esfera da política, “técnica”, ausente de influência ideológica e, portanto, neutra. Apontou-se que existem visões diferentes sobre o que e como o Brasil deve se comportar internacionalmente. E mais importante, como afirma a professora Deisy Ventura, a política externa não é feita exclusivamente por uma elite poliglota, embora seja isso muitas vezes o que parece. Pelo contrário, ela pode ser feita por todos nós a começar com o voto, sem nunca se ater somente a ele.

     Assim sendo, no último domingo escolhemos um governo que internacionalmente, seguindo seus interesses, deu prioridade à cooperação sul-sul e à integração regional, entendendo-a não só como projeto econômico, mas também como projeto político. Reelegemos um governo questionador da Ordem internacional que luta pela reforma do FMI, do Banco Mundial e do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Escolhemos um projeto de fortalecimento dos BRICS (agrupamento formado por Brasil, Rússia, Índia e China), um projeto que argumenta a favor de uma maior representatividade internacional dos países emergentes e que age multilateralmente com esse fim, fortalecendo assim as instituições internacionais.

      Apesar de tudo isso, para não dizer que só falei de flores, o governo Dilma deixou muito a desejar, principalmente no que se refere à história do Partido dos Trabalhadores (PT).Em doze anos de governo do PT, sendo quatro da Dilma, nada foi substancialmente articulado para a realização de uma reforma agrária. Isso graças ao afetuoso relacionamento entre o agronegócio e o governo. O que também explica a medíocre preocupação com as populações indígenas nesse governo.

      Nas grandes cidades do país não se consegue mais transitar, tamanho o número de automóveis, barateados através de incentivos fiscais. Enquanto isso, o transporte público segue caro e precário. Processo esse que faz parte de uma política econômica, também já falida, baseada no consumo interno mediante a oferta de crédito. Esse neodesenvolvimentismo que persistiu no governo Dilma já não tem nada de novo e apresenta pouco em termos de desenvolvimento e crescimento econômico atualmente.

      Além disso, pouco caminhou-se para a solução dos problema de infraestrutura do país. Não se buscou a modernização e diversificação das exportações. Pelo contrário, reprimarizou-se a economia, exportando basicamente soja, aço, carne, etc. Também não se realizou uma reforma tributária que ao invés de taxar o consumidor taxasse as grandes fortunas e heranças. E ainda contanto com uma das maiores arrecadações de impostos do mundo, seguimos com serviços públicos extremamente precários. No que se refere à segurança, o governo Dilma não enfrentou nossos problemas de segurança pública da forma mais adequada. O governo utilizou-se quase exclusivamente da mentalidade militarizada de segurança que auxiliou a invasão e ocupação das favelas cariocas, sem levar consigo uma rede de serviços do Estados.

       Embora tenhamos caminhado, estou longe de estar acomodado. Não queremos somente os “Mais Médicos”, o PROUNI, o FIES, o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, etc. Queremos um sistema único de saúde (SUS) universal e de qualidade! Queremos a universalização do ensino universitário, inclusive quem sabe com o fim do vestibular! Queremos igualdade total de direitos para @s cidad@es brasileir@s independente de raça, credo e orientação sexual! Queremos a igualdade social plena, que não se refere somente à igualdade econômica, mas trata prioritariamente da igualdade e garantia de direitos, independente da sua condição social! Queremos uma democracia radical, onde a participação política não se resuma a um Fla-Flu (entre PT e PSDB). Mas sim que a participação política da população ocorra como em um ambiente de “pelada”, isso é, fazendo parte da sua rotina, incluindo os mais diversos atores, acontecendo todos os dias e tendo como principal palco a Rua.

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7 comentários sobre “O Clássico dos Milhões

  1. Gostei da iniciativa e do nome. – o furor (ofurô?)
    Kayo, certa vez, comentei q podemos fazer escolhas diferentes partindo das mesmas razões. Poucos me entenderam. Seu texto comprovou minha tese. Concordo com todos os progressos e com td o q o PT deixou de fazer. Só q um lado pesou mais p vc e o outro p mim, rssss
    Tb fizemos algumas reflexões parecidas sobre a “festa da democracia”.
    http://universo-em-palavras.blogspot.com.br/2014/10/o-brasileiro-as-festas-e-os-sentimentos.html?m=0

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    • Olá, Marisa. Muito obrigado pelo comentário!

      Marisa, sem dúvida podemos seguir caminhos completamente diferentes mesmo partindo dos mesmos princípios. Muitos exemplos nos mostram isso: a Kun Klux Klan e Martin Lutherking tinha matrizes protestantes; O Estado islâmica e a Muslim Aid (ONG muçulmana que trabalha com ajuda humanitária) ambos alegam estar partindo dos preceitos islâmicos. E em um caso menos drástico o meu texto e o seu! Aliás parabéns pelo seu trabalho também, interessante ver que mesmo em novembro o Carnaval já esta tomando a cabeça das pessoas hahahah.

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  2. Parabéns pela iniciativa!!! Sobre o clássico dos milhões, como bem colocado por você foi um FLA-FLU, não foi um Sampaio Correa X Moto Clube ou Paysandu x Remo. Por que lembro disso? Porque assim como no futebol, os grandes têm a vez e a voz, isso também acontece nas demais esferas de interação social, entre elas a participação política através da votação. Quando alguns apoiadores da oposição chegam pra dizer que o Norte-Nordeste reelegeu a presidente, há essa certa dose de rancor representada pela concepção de “meu Brasil” que certas pessoas das regiões mais abastadas do país possuem. Ainda que sejam abertos novos canais de participação social, será que aqueles às margens dos grandes centros terão seus interesses representados? O que se viu nas manifestações de junho de 2013 foram pedidos por direitos que não eram a causa dos movimentos sociais organizados mais fortes, por isso a sensação de euforia e perplexidade foi tão grande. Mudanças tendem a ser vistas como boas, por isso tantos lutaram pela queda do governo atual como se fosse uma “necessidade”, mas elas também representam riscos que merecem ser levados em conta. Pra resolver isso? Só refletindo, como vocês estão fazendo!!

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    • Antonio, obrigado pelo comentário!

      Concordo com você, realmente a exclusão tem sido a marca da política nesse país, mesmo que o voto seja “universal”. Essa contradição é o que na minha visão aponta a necessidade de uma democracia (muito mais) participativa em nosso país. Como você bem disse, nosso desafio é pensar como fazemos isso. Felizmente vivemos um momento político propício, a discussão sobre os conselhos populares (barrada pelo congresso mais conservador desde 64) e sobre a reforma política (ainda em aberto) são espaços de disputa muito importantes para incidirmos sobre isso. Cabe a nós nos organizarmos e lutarmos para mais e mais vozes vejam ouvidas!!

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  3. Olá Kaio!

    Muito interessante seu texto, com um tema da mais alta importância; cabe á nós, Sociedade Civil Organizada entendermos a real necessidade de mudança e como efetivamente colocá-la em prática. Nossa situação atual, uma dita “democracia”, precisa ainda ser vivenciada pelo povo. Hoje temos um governo de poderosos, que através da distribuição de programas sociais, destrói o mesmo povo que os elege,encurralando-os e espalhando na íntegra o medo da perda material caso ocorresse uma mudança de governo. Calando as vozes que deveriam bradar por uma mudança digna, participativa, e inclusiva socialmente.

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  4. Olá Kayo, antes de mais nada venho aqui parabenizar o seu texto, que por sinal possui um título bastante adequado. Porém que legal vivermos numa democracia (mesmo que não seja “A DEMOCRACIA”), pois como já disseram no primeiro comentário (da Marisa): “podemos fazer escolhas diferentes partindo das mesmas razões” eu entendo que tudo que você disse tem seus pontos positivos e negativos, assim como suas verdade e meia verdade (haha), eu entendo que todos os programas do governo citado demonstram eficiência, mas no segundo parágrafo do seu apropriado texto, me demonstra uma certa excitação ao comentar tais programas, pois na minha posição como estudante de arquitetura e um leigo em assuntos relacionados a relações internacionais, enxergo e vivo tais realidade (mesmo que não seja por mim, porém de pessoas muito próximas) e puxando brasa para a minha sardinha (tenho minhas fortes dúvidas e críticas a esse chamado “maior programa de habitação social do mundo), pois como diria o sábio professor e arquiteto Ernani Freire “Muitas das vezes nós queremos surpreender fazendo algo monumental que seja notável, porém as vezes é muito melhor fazer o simples, porém bem feito”. Fazendo uma continuação e uma breve conclusão sobre como podemos muitas das vezes modificar uma determinada situação agindo em seus detalhes, citarei para encerrar o meu comentário duas frases do arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, são elas: “É preciso que as pessoas exijam as coisas certas. Se você, por exemplo, perguntar a uma criança o que ela quer de natal, ela vai responder uma lista de coisas que já conhece. Uma criança nunca pediria algo de que nunca ouviu falar. O mesmo vale para as demandas das pessoas em relação às cidades. É fundamental que haja informação sobre como uma cidade pode ser melhor para que a sociedade exija as coisas certas”

    “Planejamento urbano não garante a felicidade. Mas mau planejamento urbano definitivamente impede a felicidade”
    Entendo que o assunto majoritário aqui são as relações internacionais, porém nada impede opiniões interdisciplinares. Abraços.

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