Política(s)(?)

O abismo

por Franco Alencastro

     As eleições são um período que nos une e nos divide – como na Copa do Mundo, da noite pro dia esquecemos os regionalismos e começamos a falar como Brasileiros. Ela nos divide, porém, em linhas político-partidárias, e não há nada mais natural – todos, pelo menos eu acho, querem o melhor para o país da forma como eles vêem, embora discordem sobre o meio de se alcançar isso.

     Mas existem outras divisões, divisões invisíveis para alguns de nós, e que nos afetam seja qual for o seu posicionamento político.

     No dia das eleições, saí de casa para trabalhar como mesário. Minha zona: O Country Clube do Rio de Janeiro. Uma instituição que reúne, por falta de palavra melhor, a tal da ‘elite’ da Zona Sul do Rio de Janeiro, e local do qual, yep, sou sócio.

    Cheguei um pouco cedo demais, na verdade – quando entrei, as portas da grande cabana onde ficavam as diferentes seções estava trancada ainda. Com meu livro sobre Julio César em mãos, decidi esperar até que os outros mesários chegassem e a porta fosse aberta. Assim, caminhei até o gramado do clube, onde algumas cadeiras ficam espalhadas para que os sócios possam ler. Acho que é válido eu dizer nesse momento que eu já estava com o crachá de mesário.

     Me sentei em uma das cadeiras e começei a ler. Alguns poucos minutos depois, um rapaz com o uniforme dos garçons do clube veio até mim e disse:

     -Psiu! Você não pode ficar aqui não.

     Eu me virei e ele estava lá, claramente desconfortável com aquela situação.

     -Porque não? – perguntei.

     -A sua gente não pode ficar aqui.

     -Olha, eu sou sócio daqui – eu disse.

     -Ah… tá certo… Ele disse, com um sorriso amarelo.

     -É sério. Pode checar meu número.

     -Olha, mas é melhor você sair daqui, que daqui a pouco vai ter gente querendo sentar.

     Eu olhei à minha volta pras várias cadeiras vazias, sem dúvida tão aptas a receber nádegas quanto aquela em que eu estava. Mas dei meu número para ele, e ele logo saiu para checar.

     Minutos depois, ele retorna, parecendo um tanto envergonhado.

     -Mil desculpas – ele disse. – Mas eu achei que você não fosse sócio.

     Disse que tudo bem, mas logo pensei: Isso tudo aconteceu comigo sendo branco e relativamente bem-vestido (apesar da barba zoada), tendo a única diferenciação entre o pessoal de serviço daquele dia (os mesários) e os sócios sendo um simples crachá. E se eu fosse diferente? Ele teria sido tão compreensivo? Teria checado meu número? Gosto de acreditar que sim, mas sinto que essa pequena interação me disse mais sobre o Brasil do que as infindáveis horas de propaganda eleitoral de ambos os partidos.

     Essa divisão do Brasil – essa divisão invisível entre Cozinha e Sala de Jantar, entre “Elevador de serviço” e “Elevador social”, tem raízes antigas e continuará entre nós independente de quem ganhou ou deixou de ganhar as eleições. As reformas para que isso aconteça não se darão somente no plenário do Congresso Nacional – muitas delas passam por atitudes pequenas sobre as quais é impossível legislar, e portanto devem partir de nós mesmos. É nosso papel lutar para que o Brasil deixe de ser, como dizia Roberto DaMatta, o país do “Você sabe com quem está falando?”. Conquistamos, à duras penas, a democracia. Falta democratizar o dia-à-dia.


 

O (Des)Encontro Político

por Louise Marie Hurel

     Em todos os lugares que vou, nas minhas conversas, no meu feed de notícias, na minha faculdade. O discurso, o material e o comportamento se vêem fervorosamente contaminados pelo duelo político que estamos passando. A velha luta entre PT e PSDB, e a forma como essa se revela ferozmente no meu dia a dia, refletem características que nem sequer podemos datar. A maior delas seria a polarização.

     Depois do debate político que presenciei na minha faculdade, fiquei extremamente incomodada com alguns pontos e esse breve desabafo é um retrato disso.
Me intrigo e até admiro aqueles que adotam, ou melhor, “vestem a camisa” de um “lado”. Contudo, o que mais me questiono são as reações dos que estão no suposto meio (se é que podemos traçar linhas entre os lados) e os discursos enraivecidos dos que abraçaram a causa partidária (não que abraçar seja o problema). Tenho visto que este “encontro de lados” tem levado pessoas que previamente transitavam entre afinidade(s) e discordância(s), tanto dentro de um partido quanto no outro, a uma posição quase que de polarização automática. Discursos de “eu sou melhor que você”, testes de paternidade em projetos e programas nacionais, sessões elaboradas unicamente para apontar o dedo, insultos. O encontro do seu posicionamento, antes com ressalvas e muitas aspas, com o “outro” faz da arena política um espaço que instiga e fermenta a escolha de um lado, de uma esquerda/direita, de um sim/não, de um PT/PSDB. As afinidades com uma pitada política ressaltam as tensões polarizadas (por vezes infundadas) que, por sua vez, alimentam um binarismo ocamente inflado.

     Ambos os lados tem propostas.

     Ambos tem uma visão que os permite abordar uma certa gama de interesses e atores.

     Ambos possuem fraquezas.

       Minha proposta aqui não é de afirmar e comprovar que PT/PSDB é melhor por causa de x+y+z, mas acho que devemos sim, avaliar a nós mesmos e a como temos respondido a esse momento de extrema tensão política. Como temos agido/reagido? Será que vale a pena manter as risadas debochadas e os insultos?Posso até ter uma visão romantizada, mas mesmo assim vejo que o pensar e fazer política são um reflexo de como olhamos e lidamos com ela. Estamos respondendo de forma que cria/reforça uma disparidade cada vez mais alarmante entre as diferentes abordagens partidárias.
     Votar é um exercício do cidadão brasileiro. Votemos sem medo de assumir ressalvas.

Política, Politização, Politicagem

por ANÔNIMO
     Deve haver um motivo pelo qual a palavra política frequentemente toma uma conotação negativa. “É tudo política”, “é um absurdo essa politização”, “quanta politicagem”. O uso social das palavras pode dizer mais do que seu verbete no dicionário.

política, Política, políticas, πολιτικός, politikos, …Descobrindo o meu lugar

por Marina Sertã

     Esse é um post de recalque! Mas um recalque bonzinho. Vou tentar explicar.

     Antes de entrar na faculdade, eu super imaginava, e essa era a visão que algumas pessoas muitos próximas de mim tinham, que me tornaria uma pessoal super politizada, ativa em movimentos estudantis e sociais, engajada em várias causas, super vermelha, a uma barba do próprio Marx. É… antes de entrar na faculdade, eu pensava que eu seria o Kayo.

     Mas, quando eu finalmente entrei na faculdade, não foi isso que aconteceu. Eu me tornei uma frequentadora (diária) da biblioteca, não dos centros acadêmicos. E aí eu não tenho contato ou troco ideia com as pessoas ligadas a movimentos sociais. Eu leio mais Hobbes do que jornal. Então raramente me sinto informada o suficiente para participar de qualquer debate, principalmente de política interna. Eu gosto muito mais dos debates teóricos do que dos práticos. E eu raramente me sinto até estimulada a participar desses debates ou me informar sobre eles. Além de questões práticas de eu nunca ter de fato me fixado aqui no Rio, o que limita o minha participação em qualquer coisa que demande mais o meu engajamento. Enfim, um conjunto de fatores, condições, preferências e escolhas fizeram com que eu não me envolvesse nessa coisa chamada Política.

     E isso sempre me incomodou muito. Poxa! Eu queria ser muito mais! Eu queria fazer muito mais! Poxa, era pra eu ser uma pessoa muito mais engajada na política! E é daí que vem o meu recalquezinho. Quando eu vejo o Kayo, eu vejo uma pessoa super engajada, ativa nos movimentos sociais da faculdade, informado e posicionado sobre as questões mais importantes do debate político brasileiro. Poxa! Eu ía ser assim! O que aconteceu?

     Mas uma coisa maravilhosa de fazer o curso de Relações Internacionais, principalmente em um instituto tão crítico quanto o nosso, é que é tanto uma faculdade quanto uma terapia. E, mais cedo ou mais tarde, seus projetos políticos (até os frustrados) são adereçados. E foi isso que foi acontecendo a medida em que eu fui tendo um maior contato com uma visão mais crítica da política: fui entendendo meu lugar nela. Fui entendendo que política não é eleição, manifestação, reunião, cartaz, ONG, Tratado ou qualquer outra coisa que eu tinha naturalizado. Política são todos os tipos de assimetrias de poder existentes no mundo, sociais, econômicas, pscicológicas, …, tudo que as constitui e reproduz e tudo o que eu posso fazer em relação a elas! Fui entendo que é não é só Política, com um pê maiúsculo, que é (muita) política, POLÍTICA, poLítica, πολιτικός, 政治, politics, سياسة, politika, ezombusazwe, 40|_171(@, e tantos outros jeitos que eu não consigo expressar aqui. Fui entendendo que política acontece em esferas muito mais diversas do que a governamental, sindical ou estudantil e que eu tenho muito mais espaços para atuar na política que esses.

     Fui entendendo que política é o que eu faço quando dou bom dia pro porteiro e pro motorista de ônibus ou quando eu valorizo o trabalho da equipe de limpeza da faculdade, e não contribuo para o sistema escroto de minimização das pessoas pelo trabalho que elas fazem, por onde elas moram, pelo quanto elas possuem ou o quanto ganham. Porque essas minimizações é o que faz as pessoas acreditarem que não têm voz, que não têm o que dizer, que suas demandas não são tão importantes ou nunca serão ouvidas, ou que seus votos valem menos.

     Fui descobrindo que política é a ação social da qual eu participo e a nossa visita a um orfanato. É o nosso conscientizar de realidades que parecem tão distantes, mas, se eu prestar atenção, são as que eu convivo. É eu ter contato com pessoas que sofreram e sofrem, que têm necessidades, que foram abusadas, que são privadas de todo o tipo de coisa, de educação, de comida ou de dignidade. E entender que isso está do meu lado, não só na Somália.

     Fui compreendendo, assim, que a minha fé tem que ser tanto espiritual quanto prática, tanto oração quanto mão na massa. Fui entendendo que, se Jesus disse “Amai-vos uns aos outros como eu vos amo.”, ele estava falando de todos, indiscriminadamente, e que estava falando para amar-nos ao ponto de doarmo-nos uns aos outros, uns pelos outros.

      Fui entendendo o papel do meu vocabulário, que ele constrói o mundo em que eu vivo. Porque sim(!!!!), nosso vocabulário grita as nossas orientações e escolhas políticas, nosso vocabulário pinta que mundo achamos possível e permissível. E eu não permitirei um mundo machista, preconceituoso e desigual.

     Fui percebendo que os meus julgamentos podem ser menos precipitados ou, quem sabe um dia, inexistentes, de modo a permitir que as pessoas sejam livres para serem mais complexas do que eu possa compreender.

     Fui percebendo (com alguma ajuda), que a minha pesquisa, como ela lê o mundo, que possibilidades ela abre, que história ela conta, e que ações ela sustenta ou informa é extremamente política. É tudo o que eu faço, digo, leio, vejo, relaciono e respiro.

     Tudo é política, tudo está contaminado por ela.

     Claro, essa percepção foi, ao mesmo tempo, libertadora e desesperadora. Ela me livra de uma obrigação de estar em lugares que eu não me encaixo, fazendo coisas que eu não me sinto confortável. Mas, ao mesmo tempo, ele me responsabiliza, ele diz que recai sobre mim a responsabilidade de todas as minhas ações e seus efeitos no mundo. Isso assusta, mas não paralisa. Não, porque me abre asas pra voar e velas pra navegar por todo esse espaço que agora eu enxergo como a política.

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Um comentário sobre “Política(s)(?)

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