Uma história de Malala?

por Julia Zordan

 

406bb10b327dae0943c9f5d20082a382ra uma vez uma terra muito distante, chamada Paquistão, que havia nascido de uma sangrenta guerra com a Índia em 1947.

Nossa história, porém, começa no ano de 1997, mais precisamente no décimo segundo dia do mês de julho. Nascia a protagonista de nossa história.

No Paquistão, o nascimento de filhas mulheres não é comemorado pela família. É uma desonra muito grande para a família.

Desde o dia de seu nascimento, no entanto, a menina estava destinada a ser diferente das outras meninas. Seu pai comemorou, e muito, sua chegada a esse mundo.

A menina recém-nascida ainda não tinha nome. Ziauddin, seu pai, decidiu dar-lhe o nome de Malala. O nome foi escolhido em homenagem a Malalai de Maiwand, uma guerreira afegã da mesma etnia de sua família. O pai dela não sabia, mas sua filha também seria uma guerreira, ainda que lutasse guerras diferentes das de Malalai. A avó de Malala não gostou do nome escolhido, pois Malala significa “tomada pelo luto”.

O pai de Malala era dono de uma escola para meninas na região do vale do Swat, onde a família morava. Por conta disso, Malala passou a frequentar a escola desde muito cedo. E era muito inteligente! Destacava-se entre as alunas.

No entanto, o Paquistão começou a ser dominado pelo Talibã. Os Talibã eram pessoas que queriam instituir no país regras que proibiam as mulheres de sair de casa desacompanhadas, de ter a liberdade de escolher o que vestir, para onde ir, com quem ir, o que fazer… Elas não deveriam ter nenhum tipo de trabalho, além do de obedecer aos seus pais e, quando atingissem certa idade, deveriam se casar, obedecer aos seus maridos e criar seus filhos. As meninas não teriam nem o direito de ir para a escola!

Malala não ficou nem um pouco feliz quando lhe chegou aos ouvidos que havia a possibilidade de que seu pai tivesse que fechar a escola.

Para conseguir o controle das várias regiões do país, o Talibã usava de muita violência. Batia, punia e até mesmo matava as pessoas.

Malala decidiu resistir.

Um jornalista chamado Abdul Hai Kakar, correspondente da BBC em Peshawar, teve a ideia de pedir a Ziauddin que uma das meninas de sua escola ou professora pudesse escrever um blog, de forma anônima, contando tudo o que estava acontecendo no país, relatando os desafios de ir à escola apesar das pressões do Talibã. Mas todas as meninas tinham consciência de que aquilo era muito arriscado. Poderia chamar a atenção do Talibã e botar em risco a segurança de suas famílias.

Malala não se assustou com isso. Ficou decidido que ela mesma escreveria o blog.

Assim nasceu o diário de Gul Makai, com a primeira entrada em janeiro de 2009. O blog começou a fazer muito sucesso, então a BBC colocou-o no ar usando a voz de outra menina, para não expor Malala.

O blog passou a fazer sucesso e, um ano depois, Malala assumiu que, na verdade, ela era Gul Malkai. A dimensão dos relatos de Malala se tornou enorme. Pessoas do mundo todo acompanhavam o que era contado.

Malala passou a dar entrevistas para a televisão, tendo participado inclusive de um documentário, e se expondo cada vez mais. Ela então começou a “entender que a caneta e as palavras eram muito mais poderosas do que metralhadoras, tanques ou helicópteros. Estávamos aprendendo a lutar. E a perceber como somos poderosos quando nos manifestamos”¹.

A vida de Malala passou correr grande risco. Ziauddin também recebia cada vez mais pressões do Talibã para fechar a escola.

Mas Malala não se abateu. Ela continuou indo à escola. Até o dia em que a escola teve que ser fechada.

Mas a vida de Malala mudou de fato na manhã de uma terça-feira que, até então, se mostrava bastante comum. Era o décimo segundo dia do mês de outubro do ano de 2012. Malala estava no meio das provas escolares, coisa com a qual ela, como a excelente aluna que era, não temia. Justamente por toda a repercussão dos discursos de Malala, os pais a haviam proibido de voltar para casa à pé depois da aula. Ela passou a tomar o ônibus. E gostava disso, pois vinha escutando as histórias que o motorista contava e vinha batendo papo com as amigas, especialmente com Moniba, sua melhor amiga. Naquela terça-feira, o ônibus fazia seu caminho costumeiro pela rua principal, quando parou de repente. Um jovem barbudo, vestido em cores claras, invadiu o ônibus e, confirmou que se tratava do ônibus da Escola Khushal.

– Quem é Malala? – perguntou ele.

Foi então que ele sacou uma arma, uma pistola preta, e atirou na direção de Malala. Três vezes. Malala apertou a mão de Moniba e caiu em seu colo. Ela havia sido atingida perto de seu olho e em seu ombro esquerdos.

Como o estado de saúde de Malala era grave, e a possibilidade de seu tratamento no Paquistão era pequena, ela foi imediatamente transferida para o Queen Elizabeth Hospital, na cidade de Birmingham, na Inglaterra, onde os doutores Fiona e Javid cuidaram dela.

Ela passou dias entre a vida e a morte, mas foi forte. E acordou.

Ela ficou assustada, pois não via e nem ouvia direito devido aos danos que seu cérebro havia sofrido, e foi informada de que estava sozinha, pois seus pais ainda não haviam conseguido autorização para ir para a Inglaterra. Mas a equipe do hospital fez com que ela se sentisse melhor, na medida do possível.

Seus pais chegaram à Inglaterra e, depois de algum tempo, Malala teve alta do hospital.

Ela passou a viver na cidade de Birmingham com os pais e os irmãos. Lá, ela vai à escola todos os dias.

Malala nunca deixou de militar em favor do direito que todas as crianças, sejam elas meninas ou meninos, têm de ir à escola.

A história e a nobre luta de Malala ganharam tanta força que o dia de seu aniversário foi declarado como sendo “Malala Day”, um dia em prol da causa que Malala defende.

Ela chegou inclusive a fazer um discurso na ONU!² E, no último mês ganhou o Prêmio Nobel da Paz! UAU!!

Malala viveu feliz para sempre?

Não.

Arrisco dizer que Malala só o fará quando cada criança – independentemente do sexo – possa receber educação formal.

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FIM?

NÃO! PERAÍ UM POUCO!

Vocês não acham que eu vim aqui contar pra vocês a história toda da Malala e depois ir embora, não é?

Eu decidi contar essa história a vocês por que eu, assim que tomei conhecimento dessa história, fiquei fascinada e profundamente tocada com a força de Malala. Tanto que comprei alguns livros, li vários artigos na internet sobre ela, etc.

Uma das coisas que me encantou na história da Malala foi o fato de ela ser apenas uma menina. Uma criança! Quando tudo começou ela tinha 11 anos! Mas o que me surpreendeu mais foi o fato de ela ser uma menina que vivia em uma cidade pequena do Paquistão, onde seria muito fácil para o Talibã conseguir disseminar as ideias, o discurso, de que as meninas deveriam, por qualquer que fosse a justificativa dada por eles para tanto, seguir as regras que eles impunham.

Mas então eu me peguei pensando sobre qual seria o motivo dessa minha surpresa. Me dei conta de que eu já tinha visto vários exemplos que ilustram brilhantemente – assim como o de Malala – de mulheres que são, de forma muito genérica e reducionista, consideradas “não-ocidentais”, não precisam da nossa ajuda, da nossa salvação, da nossa intervenção. Já havia me interessado pelos casos da Benazir Bhutto – maravilhosa!! – e da Leymah Gbowee, só para citar dois exemplos.

E, caros leitores, percebi que isso acontece porque esse tipo de pensamento é profundamente enraizado no nosso imaginário, especialmente no imaginário relativo ao “oriente” (não pretendo aqui entrar nas questões levantadas por Said, por exemplo, como fizeram Carol e Marina em seus posts.Vale o clique!) e ao Islã.

Meu ponto aqui é o de que esse tipo de pensamento de que “o outro” precisa de nosso socorro já foi desconstruído milhões de vezes – e o exemplo da Malala foi para mim, mais um desses – e que mesmo assim ele permanece no imaginário. Isso não pode ser levado adiante.

O momento do clique de desconstrução desse pensamento aconteceu, para mim, na primeira vez em que eu vi o TED talk da Chimamanda Ngozi Aichie, o The Danger of a Single Story³ (do qual a Marina também falou em outro post). Foi quando eu comecei a entender que toda história tem duas versões, dois pontos de vista. Toda moeda tem dois lados. Olhar para só um lado da moeda – ou se deixar levar por só um dos dois lados da moeda, como eu, ainda que sem perceber, fiz – é um dos grandes erros que podemos cometer. O outro lado é tão importante quanto o lado que lhe é óbvio, querido leitor.

Estou, a cada dia, me doutrinando a fazer esse exercício de relativização. E convido você a fazer isso também.

Só um pequeno detalhe que me chama atenção: “Talibã” é a palavra árabe para “estudantes”. Sim, Malala defende o direito à educação que um grupo chamado “Estudantes” tenta privar de várias crianças em seu país. Só eu que vejo a ironia dessa situação?

 

1. YOUSAFZAI, Malala. Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo talibã. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 167.

2. MALALA Discurso ONU Legenda Português BR 12 07 2013. Youtube website, 21 out. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Fmr9juqRMbA>. Acesso em: 4 nov. 2014.

3. ADICHIE, Chimamanda Ngozi. The Danger Of A Single Story, TED website, jul. 2009. Disponível em: <http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story>.  Acesso em: 4 nov. 2014.

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