25 anos que parecem não existir – A Queda do Muro de Berlin

Um desabafo. Pois preciso.

por Thaís Queiroz

          Hoje comemoramos 25 anos da queda do muro que dividia uma cidade em dois. O Muro de Berlin. Um muro de pedra, mas certamente não apenas de pedra, que dividia… certamente não uma cidade em dois. Acordei e vi isto no doodle do Google de hoje. Um vídeo com cenas d’O Muro sendo derrubado. (Clique aqui se quiser ver o Doodle de 9/nov/2014) E então a ficha cai: 25 anos. faz 25 anos? Não! Meros vinte e cinco anos. Menos que uma vida. Apenas pouco mais que a minha vida. Tenho apenas 21.

          SE ISTO CHOCA?! Eu estou simplesmente estarrecida na manhã de hoje! Imagino que os mais velhos já tenham “se acostumado” e talvez estejam até se rindo do quanto estou impressionada por aqui. Mas não importa. Não consigo conter isso. E por quê? Porque na minha cabeça não faz sentido. VINTE E CINCO ANOS?!

          Aprendi na escola sobre a primeira guerra mundial. Aconteceu de 1914 a 1918. Aprendi sobre a segunda guerra mundial. Encarava-as como os acontecimentos mais desumanos da história da “humanidade”. Mas ela acabou em 1945. Num tempo que meus avós eram novinhos. Hoje são velhos. Então faz tempo. Meus pais não eram nem nascidos. Nem mesmo programados. Num tempo de vida maior que o de meus pais, dá tempo suficiente para aprender, certo? Para aprender a nunca mais repetir.

          …

          E então ouço falar do genocídio de Ruanda. Da guerra da Bósnia… dos “senhores da guerra” na Somália… SENHOR! ISTO FOI TIPO ONTEM!!! Mas calma, Thaís. Respira. Já passou.

          Aí ouço falar de Afeganistão, de Iraque… E então Ucrânia e Gaza. E Gaza. Checkpoints que demoram quase doze horas para alguém atravessar.

          E hoje comemoramos 25 anos da queda do Muro de Berlin. O muro que dividia não só uma cidade, mas vidas inteiras, por questões ideológicas. Pessoas que não demoravam 12 horas para conseguir atravessar. Simplesmente não atravessavam. Arriscavam – e perdiam – vidas para tentar chegar ao outro lado. E quantas vezes não chegavam… Era aquilo uma prisão? Não. Era uma separação. Por modelos econômicos e de governos. Uma bipolarização. Algo inimaginável. Praticamente surreal. Que aconteceu há apenas vinte e cinco anos.

                Sua queda? Um marco!

                Um marco sem precedentes na história!!

                “O fim da Guerra Fria”!

          Quantos textos e livros já não li na faculdade que diziam “os estudos pós Guerra Fria”, as modificações no sistema internacional “pós Guerra Fria”, o contexto do bláaaaaabláaaaabláaaaaa “pós —  Guerra — Fria”? E no entanto, cá estamos. Uma super comemoração pela queda daquele pedaço de pedra imenso e surreal que dividia a cidade em dois. Que simbolicamente dividia o mundo em dois. O que fazer além de comemorar? Nada! Tem mais é que comemorar! Realizar festivais imensos! Nesta manhã pensei em como deve estar sendo sensacional estar lá na Alemanha hoje. Nesta noite, oito mil balões brancos serão lançados ao céu em celebração à paz (Veja aqui). Um site foi feito exclusivamente para que pessoas dividissem suas histórias da época do muro (www.fallofthewall25.com). E para quê? Para não esquecermos! “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

          E é desta maneira que retornamos à manhã timidamente chuvosa de hoje, aqui no Rio de Janeiro. Para que não se esqueça? Para que nunca mais aconteça? Vinte e cinco anos, amigos. Vinte e cinco anos. Um suspiro de vida. Vinte e cinco anos do dia em que 28 anos de Alemanha dividida voltaram a ser uma só. Em que vinte e oito anos de história desejavam desaparecer da mente das pessoas, para celebrar a reunião. O fim daquela surrealidade

          … Mas que hoje continua tão real. Dividindo Cisjordânia de Israel, o México dos Estados Unidos, os migrantes da Ilha de Lampeduza, os haitianos que vivem numa ilha e não conhecem praia porque todas são privatizadas por hotéis cinco estrelas. Um muro que divide o condomínio rico no Morumbi da favela de Paraisópolis na zona oeste paulistana, o morador do condomínio de luxo na Ilha do Governador do morador da favela da Maré. O sócio do Jockey Clube do Rio de Janeiro do morador da favela da Rocinha que trabalha ali mesmo.  Não mais modelos econômicos e de governos separando capitalistas e comunistas. Mas seres humanos separando-se por economias e governos, por agirem como se fossem mais que seres humanos. Por acharem que têm o direito!!! de ser superior a outro ser humano – que logicamente não sente como eu, não vive como eu, então não tem porque ser tratado como ser humano. Obviamente. Somos raças completamente diferentes. Separadas por Muros de Berlin. Que há vinte e cinco anos foi derrubado, mas que insistimos em construir diariamente nas nossas relações sociais.

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12 comentários sobre “25 anos que parecem não existir – A Queda do Muro de Berlin

  1. Acho que a queda dos muros das relações sociais é imensamente mais difícil do que a queda do muro de Berlin. Bom saber que há tantos lutando por esta causa, há milênios para ser exata, mas acho que nem eu, nem tu, viveremos para ver a queda deste muro. Este muro pode ficar mais baixinho após a retirada de algumas pedras, e ficar até mesmo mais transponível, mas cair… difícil.

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  2. Excelente texto filha. Você estava junto comigo quando visitamos o que restou do muro e a linha pintada no chão demonstrando onde o muro passava e você lembra que me emocionei? Vieram-me lágrimas por ter lembrança de como tinha sido, por estar ali, naquele local histórico e lembro que você, seu irmão e seus primos não entenderam muito bem o motivo de minha emoção. Emocionei-me novamente ao ler seu texto e perceber o quanto você passou a compreender estas separações, estes muros. Continue sempre a ser uma “derrubadora” de muros, sejam eles quais forem. Obrigado pelo seu texto e por sua dedicada batalha para tornar este mundo melhor do que o encontrastes. Parabéns!

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  3. Yara Queiroz Gonçalves,

    Eu de fato acredito que os muros das relações sociais são muito mais difíceis de serem derrubados. E que derrubá-lo é incomensuravelmente mais difícil. Mas é por isso que a sua derrubada não virará marco na história com data marcada, como o dia 9 de novembro: porque é uma luta constante e diária. Não haverá pessoas que subirão nele em uma noite e o derrubarão. Cabe a cada um de nós tomar consciência de que nós podemos estar em cima dele e que somos responsáveis por tirar uma pedrinha a cada dia. Se cada um acreditar no seu papel nesta coletividade, quando nos dermos conta, o muro não está mais lá. A questão é tomar esta consciência e dar o primeiro passo. Ou: atirar a primeira pedra 🙂
    “Não compartilho meus pensamentos para tentar converter aqueles que pensam diferente de mim. Compartilho para mostrar aos que pensam como eu que não estão sozinhos”. Só nos falta acreditar que não estamos sozinhos. Quem sabe isso não motiva algumas pessoas? 🙂

    Com muito carinho, tua sobrinha, Thaís

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    • Não pensamos muito diferente. O objetivo é quase o mesmo, e os meios de chegar a eles também. Nossas opiniões diferem apenas na credibilidade do percentual atingido como resultado final 🙂 E também “não compartilho meus pensamentos para tentar converter aqueles que pensam diferente de mim. Compartilho para mostrar aos que pensam como eu que não estão sozinhos”. 🙂 O que importa é seguirmos tirando pedrinhas ( ainda que eternamente :)). Beijinhos.

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  4. Marcos Carvalho e Raquel Queiroz,

    Pai, queria compartilhar que me emocionei ao ler teu comentário.
    Eu lembro que quando era pequena, eu detestava a matéria de História na escola. Era a que eu menos gostava. E lembro de um dia específico em que brigaste comigo no carro quando eu gritei “é inútil! Para que aprender o que já passou? Não tem como mudar mesmo!”. Tu solenemente disseste que era a matéria mais importante que eu teria, pois a gente só aprende errando – e a humanidade já errou o suficiente. É estudando a História que podemos evitar repetir erros. E que um dia eu entenderia isto. E te calaste.

    Eu não vivi a queda do muro de Berlim. Assim como a maioria de nós não viveu tantos e tantos fatos da história. Mas, se hoje tenho uma mínima percepção do que eles significaram, certamente é graças à maneira como minha família me educou e do quanto tu, particularmente, insististe para que eu aprendesse a maldita da História, até que ela se tornou a minha matéria preferida e, de fato, uma paixão. Se sou hoje uma derrubadora de muros, como chamaste, só o que tenho a dizer é: muito obrigada, pai e mãe!

    É muito gratificante saber que não estou sozinha nessa batalha para deixar o mundo melhor do que o encontrei. Que BP “treinou” todo um exército para travá-la. Para a travarmos lado a lado. E, só o que tenho a dizer é: muito obrigada por mostrarem-me este exército também .

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  5. Poxa, estava tão bem até a hora da comparação do muro de berlim contruido pelos comunistas com os muros de froteira.
    São situações diametralmente opostas!
    No caso de berlim, os comunistas queriam evitar a evasão populacional para o outra alemanha.
    No caso dos EUA, foi para evitar o inevitável trafico de drogas, armas e pessoas. Após a cerca diminuiram em 80%
    os casos de homicidio nas cidades fronteiriças.
    No caso da cerca de Israel, não sei se era muito jovem, mas costumavamos assistir algo como dezenas de atentados em israel por mes na tv! Após a inevitável solução da cerca, nunca mais se ouviu falar em atentados com bombas!
    Quando eu estudei RI, costumávamos sempre corrigir esse erro de não sermos levados pelos preconceitos da sociedade universitária sempre contra EUA e Israel,
    Minha turma era fantástica! Espero de coração que sua turma tenha essa possibilidade de amadurecer neste setor,

    De resto parabéns e continuem assim;)

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  6. Uau! Muito obrigada pelo seu comentário, Thiago!
    Em momento algum meu posicionamento aqui foi contrário a Israel e Estados Unidos e muito menos guiado por preconceitos da comunidade acadêmica. Meu posicionamento é contrário à podridão social que vivemos que torna, como escreveste, “inevitável” a construção de cercas assim. À desumanidade prevalecente entre “seres humanos” que faz com que discursos e e práticas causadores de sofrimento sejam superados com medidas físicas, muitas vezes violentas, e que excluem, em vez de através da educação. De maneira passiva.
    Mas muito obrigada por seu comentário. Ele certamente nos fez refletir! Nossa turma anda refletindo bastante sobre estas questões e esperamos continuar assim, não sendo levados por ondas acadêmicas sem antes refletir criticamente.
    Novamente, grata, Thaís.

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  7. Boa Thais! É por ai mesmo!
    Toda a problemática de um conflito passa exatamente pela raiz máxima da EDUCAÇÃO.
    Diria que você que compreendeu muito bem aonde se situa a “ferida” para poder sempre tocar nela!! Hehehe
    Vejamos no caso Mexico e EUA, do lado mexicano, educar contra o tráfico, educar contra a evasão escolar e educar contra a violência, são o caminho. Já no lado americano (re)educar
    o entendimento sobre o legitimo imigrante sadio que necessita de ajuda e ao mesmo tempo ajuda o necessitado, compondo a malha social americana que apesar da fronteira fisica ainda possui suas fronteiras ideologicas.
    Essa educação formaria uma nova geração engajada em trabalhar pró-ativamente contra as mazelas sociais que cercam a ambos, ao invés de deixar esse papel nas mãos custosas e conflituosas do estado.
    Já no caso Israelense, é o mesmo caso, sendo a educação voltada a reverter a doutrinação fundamentalista responsável por essa onda de ataques, e posteriormente uma fase de reeducação para apagar a mútua desconfiança.
    Agora voltemos ao assunto muros.
    Na minha visão, assim como no caso do nosso Brasil, precisávamos de programas sociais mais imediatistas para acabar com a fome e a miséria, que não têm tempo para esperar planos macro-economicos de longa duração, mas é claro que só e somente eles não resolvem, teriam de ser aliados a posterior crescimento sustentável que completariam o ciclo de superação deste problema, da mesma forma esses “muros” foram soluções imediatas para evitar mais mortes e a escalada da violência que não poderiam esperar planos de reforma educacional acontecerem.
    É claro que agora, está na hora da tal educação entrar em jogo. Estamos vendo mudanças neste sentido por parte Obama e Peña Nieto, mas infelizmente não é o que vemos ainda no outro caso do Oriente Médio, veja neste caso que semana dessas o próprio Abbas elogiou um ataque terrorista. Ao meu ver foi completamente contra qualquer direção rumo a paz.
    Não há mais tempo de seus lideres ficarem lamentando ventos passados.
    Mais ainda, se a reforma educacional não ocorrer, não são os muros os responsaveis pelas mazelas, portanto não é sua simples derrubada que resolveria o caso, talvez piorasse!
    Ou seja, inclusive com certos muros não devemos ter preconceito por generalização =P

    De resto, só tenho a dizer que você demonstra muita maturidade Thais, portanto eu acho que vai chegar mais longe do que simplesmente analisar problemas, vai acabar achando soluções práticas!! Basta continuar seguindo esse caminho de aprender durante o ensino e ensinar durante o aprendizado.

    Abs;)

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  8. “Your task is not to seek for love, but merely to seek and find all the barriers within yourself that you have built against it” (Rumi)

    “Your task is not to seek for knowledge, but merely to seek and find all the barriers within yourself that you have built against it” (Naeem)

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  9. Paulinho,
    “You just DO understand me!” (Thaís)
    Muito obrigada por este comentário! Expressa nítida e claramente a minha intenção de demonstrar que estes muros são internos, que nós mesmos construímos. Muito obrigada mesmo!

    E sabes que minha gratidão a ti é imensa! 🙂

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