Sobre o que acham que devemos ser

por Thaís Queiroz

    A Graduação em Relações Internacionais, que iniciamos em 2012, nos abriu portas para discussões de assuntos rotineiros com abordagens mais críticas do que costumávamos fazer. Estas discussões foram aos poucos se expandindo para mais e mais assuntos e hoje inclusive algumas ações já foram feitas em função disso. Gostaríamos de compartilhar aqui com vocês uma destas ações. Ela diz respeito a identidades, imagens e preconceitos. Vamos dividir esta apresentação em duas partes. Hoje, teremos um relato. Em uma próxima publicação levantaremos questões a este respeito.

     Esta ação começou por acaso. Duas amigas da faculdade, que são muito próximas, compartilham muitos momentos e situações juntas, em consequência ouvem piadas (e fazem piadas junto) a respeito de serem namoradas.

     Tudo era apenas brincadeira. No dia 25 de setembro, entretanto, uma elas resolveu postar uma foto com a outra em seu Facebook dizendo que sua namorada a fazia feliz. Pensamos que apenas os amigos da faculdade entenderiam a brincadeira e os outros não dariam bola. No máximo ouviríamos recriminações por nos expormos de tal maneira e com isso até poderíamos levantar algum debate. Mas não. O debate levantado foi bem diferente. O que começou como uma brincadeira se transformou em uma ação social. Um posicionamento político em prol de uma causa. A foto foi visualizada e “curtida” por diversas pessoas. Muitas mensagens de felicidades e forças, para enfrentar os problemas que possivelmente seriam apresentados por preconceitos da sociedade, chegaram a elas. Principalmente à que havia postado.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10203861627355293&set=a.2685487130595.2136265.1058892210&type=3&theater

     Deste movimento vieram três ações que gostaríamos de relatar hoje: 1) A forma como isso nos intrigou. 2) O que pensamos em fazer a respeito de imediato. 3) O que decidimos fazer depois de parar e pensar um pouco.

     1) Isto nos intrigou, pois não houve nenhum comentário repreensivo. E também me intrigou porque recebi muitas parabenizações pela coragem. Se constantemente vemos repressões, piadas ácidas, violências físicas ou psicológicas em relação à homossexualidade, por que ali isso não se manifestou? Recebi algumas respostas a este respeito, todavia, a que mais me inquietou foi “porque ali é uma rede social, com limitações. As pessoas que veem a sua foto são aquelas que têm acesso ao seu Facebook. Aquelas que você conhece, convive, que fazem parte de um meio social específico. Um meio que tem um entendimento de mundo específico.”

     Diante de tal resposta, comecei a refletir: a quantas violências, físicas e psicológicas, diretas ou indiretas, as pessoas são diariamente expostas pelo simples fato de fazerem parte de um meio específico, com visões de mundo diferentes do seu? No seu dia-a-dia, nas suas relações interpessoais, nem precisamos chegar até o governo (aparentemente sempre culpado por tudo). Por que este meio precisa ser tão determinante e determinado? Por que precisamos ser constantemente constrangidos pelo que outros pensam que é melhor? O que nos faz pensar que podemos impor nosso modo de pensar na maneira com que os outros devem agir? Diante de tantas diferentes visões de mundo, há uma delas que á mais correta que a outra? E quem é o juiz disso? Quem é a terceira parte “““neutra””” capaz de determinar isto?

     Quanto às parabenizações pela coragem, o que me incomodou foi lembrar por que diacho é necessário ter coragem para agir como nós mesmos. Se nosso modo de ser não afeta a liberdade do outro, por que temos que nos reprimir de fazer ou ser algo? Por que é necessário ter coragem para se dizer que ama? Até quando vamos levar isso? Até quando educaremos nossos filhos a se importarem mais com imagens, com o que nós queremos, com o que nós achamos que é mais correto, do que com o outro, do que com o amor?

     2) A segunda coisa que me intrigou foi a nossa reação de imediato. Confesso: somos culpadas. No dia em que postei a foto, eu e esta amiga pensamos em fazer um post neste blog, que ainda não existia, para aprofundar estas questões (aliás, lançado dia 21/11/14). Porém, conversando com ela, falei “mas nem temos data para o blog ainda. Não vou esperar até lá. Não quero as pessoas achando que somos gays!” EPA! Na hora que falei isso, parei, respirei e refleti melhor sobre o que eu havia acabado de falar. E se pensarem?! QUE DIFERENÇA FAZ?! Por que somos diariamente levados a pensar que precisamos transmitir em ações e aparências aquilo que somos? Que temos que cuidar com o que os outros pensarão de nós? Que temos que seguir aquilo que outros esperam de nós? Por que alguém acha que pode limitar o jeito de ser do outro baseando-se em julgamentos próprios?

     Neste dia, em parte, nos libertamos desta pressão sobre nós, quando paramos e pensamos isso. (Apenas uma. Outras permanecem – como disse a Marina: somos todos colonizados – mas pelo menos uma já se foi). Entretanto… quantos outros não têm oportunidades para fazer isto? Não têm essa possibilidade? Isto nos leva a nossa terceira reação.

     3) O que decidimos fazer foi esperar. Foi não ligar para o que pensariam de nós e futuramente explicar a situação publicamente. Mas percebemos que só podíamos fazer isso porque fazemos parte de um meio específico, que afirma constantemente que nos ama, e é isso que importa. Que valoriza determinados termos que nós também valorizamos. E os que não podem se expressar livremente?

     Não se muda o mundo de uma hora para a outra. Mas é possível mudar o mundo com pequenas ações, constantemente, diariamente. Com isso, sentamos, escrevemos e nos manifestamos: O resultado foi um pronunciamento numa reunião de família, que foi posteriormente registrado em vídeo e publicado também no Facebook.

Veja o vídeo

– Acesse aqui o post no Facebook  ou diretamente o vídeo no Youtube –

     Para finalizar, gostaria de compartilhar o que escrevi posteriormente a um amigo quando este comentou da minha “manifestação contra a homofobia”. Foi com este comentário que percebi que o que fiz não era só sobre homofobia. E sim como escrevi a ele:

     É sobre classificações identitárias que temos a mania de fazer. Sobre todas as violências que praticamos ao tentar conformar o outro em imagens que NÓS queremos que eles tenham e não enxergamos quem ELES são. Sobre o que significa “ser mulher” ou “ser homem”. Ou pior “ser uma mulher direita”, “ser um homem que se preze”, “ser uma menina de respeito”. Foi sobre machismo, homofobia, patriarcalismo, discriminação racial, social e tantos outros tipos de violências – absurdas – que praticamos diariamente. Que o homem negro sofre, que o homem branco sofre, que a mulher sofre, a criança sofre, o gay sofre, o hétero sofre, o filho, o neto, o pai, a mãe, a tia, o primo. Que todos sofrem justamente por isso. Por querermos chamá-los de algo. Por querermos encaixá-los nas nossas caixinhas. E esquecemos de antes olhá-los e perceber quem ELES são, não quem NÓS QUEREMOS que sejam. Esquecermos que todos são, simplesmente, SERES HUMANOS. E de resto cabe a cada um estar de bem com si e a nós respeitarmos. E: respeitarmos o outro e nós mesmos também.

Fonte: facebook.com/tirasarmandinho

Tiras Armandinho. Fonte: facebook.com/tirasarmandinho

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3 comentários sobre “Sobre o que acham que devemos ser

  1. Nossa, que ótimo esse texto, Thaís! Um tapa na cara da sociedade, e confesso, em mim mesma por julgar tanta gente “da forma como eu queria que eles fossem”.
    Valeu e muito a reflexão!
    Parabéns!!

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  2. Ana,
    A ler seu comentário, um enorme sorriso se abriu em mim! Levar pessoas de fora do nosso grupinho universitário à reflexão era o maior objetivo de nosso blog, ao lado da possibilidade de receber contribuições para nossas reflexões. Fico muito feliz com estes objetivos sendo atingidos!
    Muito obrigada!
    Beijos com saudade,
    Thaís

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  3. Pingback: Por que eu -f-u-i-(tentei ir) à parada gay | O Furor

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