Como seria o mundo sem livros?

por Amanda Melo

A impressão da Bíblia por Gutenberg (~1455), iniciou um longo processo de massificação dos livros, aumentando sua disponibilidade, reduzindo custos, estimulando a tradução para outras línguas. Graças a isso, a maioria de nós já leu pelo menos um livro durante a vida, seja ele um livro didático, histórico, de ficção, de imagens. Alguns deles viram símbolos religiosos, como a própria Bíblia, o Alcorão e a Torá; outros, símbolos culturais, como Senhor dos Anéis, Harry Potter e As Crônicas de Gelo e Fogo; outros viram símbolos de um movimento, como O Segundo Sexo de Simone de Bouvoir. Mas todos eles são mais do que tinta no papel, são um meio de comunicação entre o autor e o leitor.
Agora imagine todos os mais de 130 milhões de livros já escritos, quanta informação ali contida e produzida a partir deles. O que aconteceria se tudo isso desaparecesse?

Uma resposta possível pode ser encontrada no livro Fahrenheit 451. Nele, Ray Bradbury descreve um mundo no qual livros são proibidos e querer ler um livro é considerado sinal de insanidade. Assim, uma vez que a tecnologia avançada impede que casas peguem fogo, o trabalho dos bombeiros passa a ser queimar os livros remanescentes.

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 A obra é uma crítica à crescente presença da televisão na vida das pessoas na época (década de 1950). No mundo criado por Bradbury, ela passa a ter um papel muito mais importante na sociedade, não só como meio de comunicação e entretenimento, mas verdadeiramente doutrinador. Crianças são criadas pela televisão, não pelos pais, que as veem como uma mera obrigação. Cada pessoa se cerca por paredes revestidas de telas que transmitem programas e videoconferências, se fechando em um casulo de cores e sons, alheias ao que acontece ao redor.

O protagonista, Guy Montag, é um “bombeiro”, que considerava sua vida tranquila e feliz, até o dia em que conhece uma vizinha, que apresenta uma visão de mundo bem diferente, fazendo-o questionar sua própria visão de mundo, questionar coisas que tinha como certo, como a sua felicidade a sua profissão. Um dia, durante o seu trabalho, ele resgata um livro do fogo, sucumbindo à sua curiosidade, pois queria saber o que de tão valioso havia nos livros ao ponto de fazer algumas pessoas desobedecerem a lei e manterem bibliotecas em casa. Vamos começar com este questionamento: o que há num livro?

Como disse no início, um livro é um meio de comunicação entre o autor e o leitor. Mas mais importante que isso, é a mensagem que é passada. Eles apresentam ao leitor ideias novas, diferentes, às vezes contraditórias, e muitas vezes questionadoras do senso comum. Claro que cabe ao leitor aceitar a nova ideia ou continuar questionando. Não é à toa que são vistos como uma ameaça pelos que perpetuam esse discurso dominante, pois mesmo que se elimine o autor dessa ideia, um livro pode guardar seu pensamento por milênios.

E a queima de livros não é algo da ficção. Podemos ver em diversos pontos da história grupos que resolvem queimar livros que eram considerados dissidente ou heréticos. A mais memorável (talvez pela sua proximidade temporal) foi a queima de livros, principalmente de autores judeus, pelo governo de Hitler em 1933.

Assim, ao livro é dada uma natureza instigadora, questionadora, que alimenta a curiosidade humana. Na obra de Bradbury, as pessoas que não leem frequentemente recorrem a atividades radicais, como dirigir em altíssima velocidade, para conseguirem preencher momentaneamente esse vazio deixado pelos livros e as perguntas e respostas que eles oferecem.

“Temos tudo de que precisamos para ser felizes, mas não somos felizes. Alguma coisa está faltando. Olhei em volta. A única coisa que tiver certeza que havia desaparecido eram os livros que queimei durante dez ou doze anos.”

Então, só o livro traz felicidade?

É preciso ter cuidado com isso. Embora eu mesma ame ler, acho que colocar o objeto livro num pedestal, como o símbolo do conhecimento humano, é uma visão simplista, que esquece o outro lado da moeda e privilegia um tipo específico de conhecimento.

Deixe-me explicar. Acho que tanto a televisão quanto as tecnologias mais atuais, como a internet e o smartphone, não são uma ameaça ao livro, pois são plataformas diferentes, com uma linguagem diferente. Questionar a qualidade dos programas da televisão e do que se encontra na internet é válido, mas dizer que os livros são melhores por isso é esquecer a quantidade de livros ruins que existem por aí. Não vou entrar na discussão sobre o acesso, pois isso renderia um outro post.

Além disso, dizer que livros são essenciais para a vida humana é deslegitimar as experiências e contribuições de pessoas que não sabem ler ou que não têm acesso a livros. É dizer que o conhecimento literário e acadêmico é mais valioso que o conhecimento prático, daquele pequeno agricultor que sabe como ninguém qual a melhor época para plantar e colher, qual tipo de semente usar, ou aquele mecânico que aprendeu a identificar um problema num carro somente com o som que o motor faz. É inferiorizar as sociedades ágrafas na África, Ásia e mesmo no Brasil, que privilegiam a tradição oral.

O que quero dizer é que, livros são sim importantes, principalmente no meio acadêmico, mas se um dia uma bomba desenhada especificamente para acabar com todos os livros do mundo, outros canais perpetuarão a sua essência, a de transmitir conhecimento, desde que a gente continue a perguntar.

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2 comentários sobre “Como seria o mundo sem livros?

  1. Concordo com o ponto de vista esposado. Embora considere ler importantíssimo, não só para adquirir experiências e conhecimento, não se pode desprezar ou menosprezar a “experiência de vida” daqueles que não tiveram acesso ao estudo, a livros, e que, por vezes, nos surpreendem com sua sabedoria.

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