Quando os fatos corroboram a sua hipótese

por Carol Grinsztajn

      Já me declaro culpada desde o início. Meu artigo já estava pronto (atualmente na fila pra ser publicado em breve, se D’s quiser). A hipótese bonitinha, fechadinha. O artigo trata sobre declarações de Estado de Emergência no Egito, o que inclui, para ser muito (muito) breve,  restrições às liberdades de assembleia, censura, tortura, prisões e condenações arbitrárias, entre várias outras coisas. O texto passa pelo Estado de Emergência declarado em cada governo egípcio nos últimos 100 anos, e, como não sou profeta,  termina logo após a eleição de Sisi, quando eu terminei de escrever.  Não dava pra saber o que viria depois.

     Semana passada, Sisi declarou Estado de Emergência de três meses após um ataque às tropas egípcias no Sinai que deixou 30 mortos. Foi por um segundo apenas, eu juro, um segundo, não mais. Mas me passou pela cabeça “Taí, perfeito, fechando o artigo com chave de ouro. Isso só corrobora a hipótese da continuidade do uso de declarações de Estado de Emergência”’. Um segundo, não mais. O segundo seguinte foi um turbilhão de culpa e auto-repreensão. Como pude pensar algo assim? O meu próprio estudo mostra o sofrimento que essas práticas  podem causar sobre as pessoas. Como pude colocar um artigo idiota sobre um mínimo de consideração e empatia?

     Qualquer trabalho de pesquisa, especialmente sobre conflitos, te envolve de alguma forma com esse conflito. Por mais racionalista e positivista que alguém possa ser, por mais que se pretenda ser objetivo e separar “pesquisador” de “pesquisa”, não consigo imaginar (me chamem de ingênua) que o pesquisador não seja nem um pouco afetado pela sua pesquisa.

     Mal comparando, um médico obviamente não quer que seu paciente fique doente, mas se ninguém ficasse doente ele não teria com o que trabalhar. Será que um médico preferiria que seu trabalho não existisse? Não que eu pretendesse curar alguma coisa. Mas eu não declaro objetividade nenhuma sobre o meu tema. Sou apaixonada por estudos sobre o Oriente Médio e me vejo como um pontinho na complexa rede de acontecimentos da região, mas ainda sou parte da rede. Por isso me declaro culpada de, mesmo que por um segundo, ter deixado o pensamento acadêmico mesquinho se sobrepor à minha humanidade.  E concluí que preferia que meu objeto de estudo realmente não existisse.

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5 comentários sobre “Quando os fatos corroboram a sua hipótese

  1. Carol, amei ler este teu divã! Pois identifico-me muito com este tipo de pensamento. Não custa registrar que sua mini comunidade acadêmica furorística está aqui com integrantes que amam caminhar ao teu lado e te apoiar nestes desespero.
    Mas espero que venham discordâncias destas sensações tuas (das quais muitas vezes compartilho), que nos levem a refletir e praticar a autocrítica quantas vezes possível.
    🙂
    Esperamos por elas!
    Com carinho,
    Thaís

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  2. Carol, não tenho nada tão substancial pra falar do seu texto, mas não poderia deixar de deixar registrado o quanto ele mexeu comigo. Suas palavras foram muito fortes sobre a proto acadêmica em mim.
    Parabéns sobre o texto maravilhoso e forte!

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  3. Oi Carol!

    Perdi a conta do número de vezes que passei por uma sensação desse tipo. Não sei se jamais parei para pensar sobre o duplo movimento que você aponta. Muita sensibilidade de sua parte. Obrigado!

    Mas me pergunto. E se, depois de um segundo de felicidade e de um segundo de culpa, suspendermos a culpa por mais um segundo para pensar o que a felicidade nos diz. Explico: a culpa é uma forma de fecharmos uma avenida de investigação, sim? Deixamos de pensar sobre algo porque sentimos que é moralmente incorreto fazê-lo. E se ousarmos?

    Hipótese: enquanto acadêmicos, estamos fadados a essa ambiguidade. Por um lado, nosso empreedimento tem sentido (e sabemos o quanto sentido é importante para nossas vidas) quando nossos modos de entender o mundo mostram-se úteis, relevantes, esteticamente agradáveis, etc. Por outro lado, o ecoar das nossas hipóteses gera o momento que você aponta no seu ensaio. E se aceitarmos os dois momentos como parte integrante do que fazemos? Há formas de conhecimento que permitem um e não o outro? Se sim, devemos optar por elas? O que perderíamos ao fazê-lo (se qualquer coisa)? Ou devemos aceitar que nossa implicação nos nossos “objetos” resulta sempre em um grau de cumplicidade com eles? Que sermos acadêmicos envolve uma cumplicidade com as formas de violência que resolvemos “estudar”? E, nesse caso, como reagimos a isso? E como vivemos com nós mesmos?

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  4. Paulinho pensei a semana inteira sobre esse comentário e sigo sem respostas. Mas acho que vale a pena também acrescentar que, na minha opinião, a ordem dos fatores importa. Eu não deixei de atualizar o meu artigo por causa da culpa que eu descrevi acima. Mas talvez se a empatia tivesse precedido o pensamento acadêmico essa culpa seria diferente, uma questão de prioridades Talvez soe hipócrita, mas talvez seja parte da aceitação desse duplo movimento do qual você sugeriu que talvez estejamos fadados a ele. O artigo deveria servir à “realidade” e não o contrário. Seguirei refletindo, obrigada pelas perguntas!

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