Por que eu -f-u-i-(tentei ir) à parada gay

por Marina Sertã

2014-11-17 10.44.15

         Semana passada, a Thaís falou sobre nossa declaração de namoro e depois a nossa declaração de não-namoro e nossos porquês por trás disso. A intenção foi que muito mais que só uma foto ou um vídeo, esse pudesse ser um movimento contínuo de discussões sobre uma prática social horrível, o preconceito, mais especificamente a homofobia. O que, no fim das contas me motivou a ir pra Copacabana ontem, pra participar da 19ª Parada do Orgulho LGBT. Vou tentar levantar algumas discussões sobre preconceito, e mais especificamente homofobia, aqui. Então, por favor, se houver um ponto em que quiserem, engajem!!

Preconceito

            O que é preconceito?

            Pra mim, preconceito é, basicamente, quando a sua tia te pergunta “Quer aspargo?” e você torce o rosto e fala “Não!” simplesmente porque a ideia te enoja, enousea e enjoa, porque só de pensar no aspargo, você já sente o gosto amargo, muito embora nunca tenha experimentado.

            Na minha opinião, você pode não experimentar aspargo o quanto você quiser na sua vida. O problema, para mim, é quando esse mesmo tipo de pensamento é aplicado às pessoas. O problema, para mim, são os diferentes tipos de violência que as pessoas sofrem por conta desse tipo de pensamento. E foi contra a violência que sofrem especificamente as pessoas que expressam suas identidades de gênero e/ou opção afetiva de uma maneira que fuja do padrão estabelecido pela nossa sociedade que eu e a Thaís nos levantamos.

Mas, por quê?

            Mas por que, pra começo de conversa, as pessoas têm preconceito? Baixa auto-estima? Necessidade de construir um outro negativo para assim afirmar ou estabilizar sua identidade? Algum instinto de sobrevivência idiota? Babaquice pura e aplicada?

            Sinceramente, não sei. O que eu sei é, o ser humano se mostra muito criativo em sua discriminação em relação a: – Aquel@ pret@!     – Aquel@ viado/fancha!     – Aquel@ velh@!     – Aquel@ gord@!     – Aquel@ aleijad@!     – Aquel@ fei@!     – Aquel@ burr@!     – Aquel@ paraíba!     -Aquel@ vagabund@!     – Aquel@ pobre!     – Aquel@ comuna!

E essa só é a amostra grátis dos mais comuns! Muitos outros tipos de preconceito e mais tantas outras diferentes formas de expressá-los foram desenvolvidos.

Em que níveis?

            Esses tipos de comentários e rótulos fazem parte de uma violência muito maior que talvez não sejamos capazes de perceber. É a violência psicológica envolvida no bullying de chamar @ colega de escola de gord@ ou burr@, e diminuir a autoestima dessa pessoa num momento tão particular e turbulento quanto a adolescência.1 É a violência econômica envolvida na disparidade de salário entre homens e mulheres, e o quanto isto contribui para a perpetuação da dependência destas em relação àqueles.2 É a violência estrutural envolvida no acesso a educação, formação e mercado de trabalho dos negros, que dificulta, fecha portas, nega e exclui da possibilidade de se inserirem.3 É a violência em espancar um homossexual na rua e levar seu preconceito às últimas e materiais (in)consequências violentas.4

            Todas essas situações, obviamente, me atordoam e incomodam e que eu gostaria que fossem extintas de uma vez por todas da nossa sociedade. Um movimento que, no entanto, eu não consigo fazer sozinha, muito menos adereçando todos estes preconceitos ao mesmo tempo. Por isso, dada a oportunidade que a Thaís me concedeu, comecei pelo preconceito com o qual sofrem as pessoas que não se conformam dentro das caixinhas de afetividade/sexualidade/gênero que impomos a elas.

O quão ridiculamente perigosa é a homofobia

            Para ilustrar esse ponto, gostaria de compartilhar uma história que eu ouvi há algumas semanas. Era de uma senhora a qual o irmão tinha sido internado com uma pneumonia muito forte. A saúde do irmão só piorava, as visitas só eram permitidas com máscaras, luvas e roupas especiais. Até que essa senhora descobriu: o irmão tinha AIDS. Até que a senhora descobriu que o irmão era homossexual e tinha AIDS. Mas ele não contou a ninguém, por medo do preconceito. Ele não buscou tratamento, por medo do preconceito. Ele não permite que os médicos confirmem o diagnóstico à família, por medo do preconceito, mesmo que isso signifique que as suas opções de tratamento sejam reduzidas. Este homem está em estado terminal, porque não buscou tratamento, por medo do preconceito. Hoje, esse homem morre. Não de AIDS, mas de homofobia, de preconceito.

O que eu posso fazer?

            Para tentar transformar esse panorama eu tenho tentado me policiar para não usar a palavra “viado” como xingamento. Algo que eu naturalizei sem questionamento e que, após refletir cheguei a conclusão que não, não concordo que a sexualidade de uma pessoa ou grupo deva ser usado como termo pejorativo generalizado. Como um objetivo de longo prazo, pretendo banir todas as palavras que relacionam atos sexuais a xingamentos ou se referem a eles de modo negativo. Algo que pra mim é muito difícil, porque faz parte de como eu me expresso, mas é um mundo que eu gostaria de construir através do meu vocabulário.

            Para afetar cotidianamente esse preconceito posso, nas minhas interações com o meu primo de 4 anos, tentar passar para ele o quanto as diferenças entre as pessoas são bonitas e enriquecem o mundo. Posso usar as mídias sociais em prol dessa mudança como no movimento contra o preconceito relacionado a sexo/gênero/afetividade que eu e a Thaís fizemos. Posso mostrar a minha insatisfação com o emprego de certas palavras, como viado, que eu citei ali em cima, ou com atitudes e tipos de pensamentos preconceituosos. Posso questionar as pessoas sobre esses tipos de pensamentos e o sentido que faz na vida delas discriminar e violentar, seja física ou psicologicamente, alguém só porque ela não tem o mesmo comportamento afetivo ou expressa sua identidade de gênero da mesma maneira que você.

            Posso votar em representantes que vão defender os direitos LGBT e lutar contra os preconceitos contra essa comunidade e cobrá-l@ para que lute por e implemente essas mudanças que eu desejo no nosso país. Posso me declarar abertamente como apoiadora aberta da comunidade LGBT e participar de movimentos como o da parada do orgulho LGBT. Ou me identificar como crescente simpatizante do movimento feminista, e participar da construção de um mundo mais igualitário em termos de gênero, todos os gêneroS. Porque, muito embora eu nunca tenha sido discriminada pela minha afetividade, pelo tipo de pessoa pela qual eu sou atraída, eu me identifico com a celebração do orgulho, da diversidade, da individualidade, da afetividade e da sexualidade de qualquer maneira que as pessoas quiserem, dentro dos princípios básicos de consenso explícito e respeito ao outro. Porque embora nem tão desviante do padrão heteronormativo, eu já senti a maneira com que expresso a minha identidade de gênero reprimida, tolhida e ridicularizada.

Adianta? Sim! Munda o mundo? Todo, não.

            Como eu já disse no meu primeiro divã, acredito sinceramente que nós construimos as possibilidades do mundo, o que é possível e até aceitável, através de nossas ações cotidianas e palavras. Mas eu sei que sou uma parte muito pequena nessa mudança de mundo. Que é só um vocabulário e um conjunto de ações entre 7 bilhões. Que eu sou como o beija-flor, levando gotinha por gotinha de água para apagar o incêndio na floresta. Mas que, se eu continuar a ser esse beija-flor a cada momento do meu cotidiano, eu posso me encontrar como parte de algo muito maior, num bando enorme que todo dia voa junto e se posiciona: esse tipo de preconceito fere, mata, e nós não vamos tolerá-lo! Nós vamos todos nos erguer, orgulhosos da diversidade de cada um em nossa identidade e afetividade e da beleza nela! Orgulhosos em construir um mundo tão rico em seus tons multicoloridos de diversidade.

            Gostaria de encerrar deixando o link desses relatórios sobre a violência que a homofobia já gerou e gera no Brasil:

http://www.sdh.gov.br/assuntos/lgbt/dados-estatisticos

  1. http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2014/10/garoto-de-10-anos-sofre-bullying-e-e-agredido-na-escola-por-usar-oculos.html ou http://www.administradores.com.br/noticias/cotidiano/garota-sofre-bullying-na-escola-apos-doar-seu-cabelo-e-recebe-apoio-de-internautas/94143/
  2. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141031_desigualdade_fd
  3. http://noticias.terra.com.br/educacao/mesmo-com-avanco-pelas-cotas-negros-enfrentam-racismo-na-universidade,527ecf9404272410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html ou http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/05/20/negros-ainda-sao-minoria-entre-formados-no-ensino-superior.htm
  4. http://homofobiamata.wordpress.com/estatisticas/relatorios/ ou http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/09/jovem-gay-e-brutalmente-assassinado-em-goiania/ ou http://noticias.r7.com/cidade-alerta/video/cabeleireiro-agredido-em-boate-gay-morre-no-rio-de-janeiro-51a529570cf2797b4d609577 ou http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/gay-jovem-de-18-anos-e-encontrado-morto-com-bilhete-na-boca-vamos-acabar-com-essa-praga/?cHash=698bfc38d99078d09f06b497ffd6a02d
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4 comentários sobre “Por que eu -f-u-i-(tentei ir) à parada gay

  1. Oi Marina,

    Parabéns e obrigado pelo texto! Como disse a vocês quando vi o vídeo pela primeira vez, valorizo e encorajo a disposição sua e da Thaís em levantar e levar adiante esse debate diante da oportunidade que criaram!

    Quanto ao texto em si, porém, duas questões quanto ao ritmo chamaram minha atenção. Primeiro, a seção “Mas por quê?” é muito rápida; segundo, a seção “O que *eu* posso fazer?” é a mais longa. Isso nos diz algo sobre a estrutura do argumento e do pensamento, sim? Sobre o equilíbrio de preocupações do texto: o substancial da sua energia é investido em descobrir o que *você* pode fazer, não em aprofundar o momento difícil de análise do problema do preconceito. Para pensar soluções, não problemas (e antes mesmo de entender o problema!). Para pensar o indivíduo, não a estrutura. Para garantir a redenção daquele, não a implicação nesta. Mas um movimento serve exatamente para encobrir o outro, sim?

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Paulinho!
      Primeiro, muito obrigada pelo engajamento! É o que há de mais valioso no nosso blog. Segundo, vou tentar te responder numa mistura de confissão ao seu flagrante e um pouco de resistência.
      Resisto a sua colocação que a minha tentativa de reconhecimento do problema está só no “Mas por quê?”. Procuro mapear e identificar os problemas e violências contidas em várias formas de preconceito, principalmente a homofobia, durante todo o texto até chegar na identificação do que eu posso fazer pra combatê-los. Afinal, as notícias que eu insiro não são meramente ilustrativas, elas dizem algo sobre esse problema.
      Mas também reconheço que essa seção do “Mas por quê?” foi insuficiente e curta na minha tentativa de lidar com o preconceito em um nível individual. Admito que lidei com o problema muito mais no nível estrutural do que pessoal e ,no entanto, a minha resposta foi muito mais pessoal do que estrutural. Esquizofrênico. Acontece. A insuficiência na questão vem da pura ingorância, que eu procurei explorar pedindo alguma bibliografia a um primo pscicólogo, mas que ainda não consegui desenvolver com ele (ou ter acesso a bibliografia). Esperava muito trazer esse diálogo interdisciplinar, mas não consegui, com o timing entre o meu post e o da Thaís e a oportunidade da Parada LGBT no domingo. Não deixarei de lado de uma próxima vez! 😉
      Sobre não pensar no problema antes de encontar a solução. Acho que foi um escape da eu acadêmica, que se encontra paralisada entre reflexões e não vê saídas para a ação, misturado com a urgência de publicação que te expliquei acima e, principalmente, a urgência de um problema que eu identifico como tão grave e fonte de tanta violência. Talvez seja movida a refletir mais sobre minhas ações descritas no post para responder a esse problema, talvez essa seja uma bela oportunidade para problematizá-las, talvez, ao explorar o problema mais a fundo veja que são insuficientes. Mas sinto que preciso começar. Esse me parece um caso de ir dançando e ajeitando os passos durante a dança, mas nunca deixando de dançar. Sinto que é necessário. Não consigo conceber a existência de um mundo onde pessoas são tratadas diferente por causa de sua afetividade ou identidade de gênero. Não pode ser possível! Assim como não pode ser possível pessoas sendo discriminadas pelo tom de cor da pele, o que era perfeitamente normal há algumas décadas. Vamos pensando e problematizamdo, mas fazendo também, é necessário.
      Agora, o título. Bom, eu quis aproveitar a oportunidade da Parada pra estabelecer um diálogo através do meu título e apontasse a importância desses movimentos de celebração da diversidade. No entanto, as contingências da vida fizerem com que eu chegasse atrasada e só pegasse algumas pessoas ainda na praia de Copacabana e esse registro do acontecimento na areia que está na foto. Mais planejamento da próxima vez! Pretendo continuar apoiando a causa de todas as maneiras a mim possíveis e chegar a tempo para as próximas paradas!
      De novo, muito obrigada pelo comentário! Eles são sempre muito enriquecedores!

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