Bem, Amig@s d’O Furor!

por Julia Zordan

Todos aqueles que me conhecem minimamente bem sabem que eu sou louca por futebol. Sou daquele tipo que gosta, que acompanha, que se irrita, que fica sem voz de tanto gritar. Minha família toda é assim, então isso sempre foi uma coisa muito normal pra mim. Tem um vídeo aqui em casa meu e da minha prima com mais ou menos 5 aninhos de idade levando a mão ao coração e cantando o hino – todo – do meu time. Tenho olho clínico para julgar se o bandeirinha estava certo ou errado quando marcou aquele impedimento, ou se o juiz acertou quando deu pênalti naquele lance. Mas eu sempre percebi que quando eu fazia qualquer comentário mais elaborado sobre o jogo, aqueles que não estavam acostumados com eu fazer isso me olhavam de forma estranha – ou ficavam espantados, ou achavam graça, ou achavam que eu só estava repetindo alguma coisa que eu ouvi alguém dizer – “Ô pingo de gente, que diabos você sabe de futebol?”

Esse tipo de comentário (e/ou de reações aos meus próprios comentários) sempre foi devidamente ignorado por mim, e assim segui minha vida. Até que um dia eu estava na faculdade e ouvi alguém falar alguma coisa sobre um tal de feminismo. Eu li um pouquinho sobre isso, achei bem legal. Nos últimos tempos tenho visto muita gente procurar compreender isso melhor, muita gente escrever coisas bem legais sobre o feminismo, muitos estereótipos sobre o feminismo caírem por terra, etc. Não vou entrar no mérito de explicar o que é o feminismo, porque a Hermione Emma Watson faz isso de uma forma tão incrível nesse vídeo aqui[1] que eu não conseguiria explicar de forma melhor. Foi aí que eu parei para perceber que esses comentários e reações não eram feitos aos meus coleguinhas homens quando eles falavam sobre futebol – mesmo que falassem uma besteira gigantesca. O problema é que futebol não é coisa de mulher.

No vídeo já citado, a Emma fala que quando ela tinha 15 anos era descriminada pelas amigas por gostar de esportes, e elas não queriam parecer masculinizadas. Sim, isso acontece. As mulheres que gostam e/ou praticam determinados esportes (ginástica olímpica e vôlei, ok, mas futebol e judô, de forma alguma – quer dizer, aparentemente não funciona bem assim no Irã[2], né?) são vistas como masculinas/brutas/encaixe aqui o estereótipo que quiser. Isso fala diretamente comigo, porque eu comecei a me interessar mais fortemente por futebol justamente quando passei a conversar com uma amigA minha enquanto voltávamos juntas pra casa depois da aula, porque várias amigAS minhas gostam de futebol e dão um banho de conhecimento em muito marmanjo por aí. Qual o mal que há nisso? Isso não faz de mim ou das minhas amigas menos femininas! Eu falo de futebol feliz da vida usando salto alto, vestido e batom enquanto faço minhas unhas e isso não diminui nem o meu conhecimento, nem meu julgamento, e nem o amor que tenho pelo meu time! Da mesma forma, não posso deixar de falar aqui que é necessário pensar pelo outro lado também: os meus amigOS que não gostam de futebol são menos homens por causa disso? Não mesmo!

No meu último post eu falei de um Ted Talk da Chimamanda Ngozi Adichie, chamado “The Danger Of a Single Story”, que é de 2009. Pois bem, no ano passado ela participou novamente do evento, e fez uma reflexão incrível sobre o feminismo. Tanto que ela decidiu transcrever o discurso e publicá-lo (você pode baixar o EBook “Sejamos Todos Feministas” gratuitamente na Amazon aqui[3]). Nesse livro, a Chimamanda conta a história de como ela se descobriu feminista, conta como ela sofre na pele a diferenciação entre homens e mulheres – que é muito forte na sociedade em que ela vive, a nigeriana – e conta como é impressionante o esforço que as mulheres fazem para serem “queridas” e não parecerem agressivas e intimidadoras. Ela fala também que batemos sempre nessa tecla quando na criação de nossas filhas, mas não quando na de nossos filhos. Não os ensinamos a se preocuparem em serem “benquistos”. Essa diferenciação na forma da criação infantil é muito grave. É ela que perpetua a ideia de desigualdade entre os gêneros. Apesar de achar o ponto dela bastante valido, acho que ela peca por utilizar de uma generalização. Não que a generalização comprometa completamente o ponto dela, mas ainda assim, é uma ressalva que precisa ser feita, já que nem todas as filhas e nem todos os filhos são criados dessa forma. Esse argumento fica melhor explicado nas palavras da própria Chimamanda:

Uma vez, um nigeriano conhecido meu me perguntou se não me incomodava o fato de os homens se sentirem intimidados comigo. Eu não me preocupo nem um pouco — nunca havia me passado pela cabeça que isso fosse um problema, porque o homem que se sente intimidado por mim é exatamente o tipo de homem por quem não me interesso. Mesmo assim, fiquei surpresa. Já que pertenço ao sexo feminino, espera-se que almeje me casar. Espera-se que faça minhas escolhas levando em conta que o casamento é a coisa mais importante do mundo. O casamento pode ser bom, uma fonte de felicidade, amor e apoio mútuo. Mas por que ensinamos as meninas a aspirar ao casamento, mas não fazemos o mesmo com os meninos?[4]

Recentemente, em uma dessas tardes que cismam em seguir à risca a rotina de todas as tardes, eu me deparei na internet com um texto publicado no Estadão de uma colunista chamada Ruth Manus. Preciso dizer que enquanto eu lia meus olhos brilharam, eu levantei da cadeira e, no fim, pensei: “Nossa! Isso aqui me representa!!!”. Vocês vão entender o motivo disso quando souberem que o título do texto é “Não é fácil ser uma mulher que gosta de futebol”. O que a Ruth relata nele é basicamente o mesmo que eu relatei no começo deste post. As pessoas se espantam quando veem uma mulher que gosta e entende de futebol. Acham que ela precisa consultar o Google de 5 em 5 minutos pra poder articular alguma coisa minimamente consistente, que seu conhecimento provavelmente se resume a saber quem são Neymar, Ronaldo (temos aí uma colher de chá, porque tanto o Fenômeno quanto o Gaúcho servem!) e o Rogério Ceni. “Qualquer coisa que a gente diga que não seja do tipo ‘ai, mas o Pato é mesmo uma gracinha’, vai chocar quem ouve”[5].

Como Chimamanda e Emma colocaram em seus discursos, a desigualdade de gênero afeta a todos, não apenas as mulheres. É uma questão de liberdade. Chimamanda fala duas coisas que, a meu ver, são os dois pontos fundamentais dessa discussão. Primeiro, que “O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero”[6]. Segundo, que a solução para isso passa pela criação das pessoas, passa pela formação cultural: “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura”[7]. A Ruth corrobora essa ideia de que a mudança cultural é fundamental na resolução dessa questão quando diz, no final de seu texto, que “Enfim. A mulher que gosta- e entende- de futebol sofre. Provavelmente as que entendem de carros também. Assim como os homens que cozinham ou entendem de moda. Tá na hora de tudo isso mudar, né galera?”[8].

Eu poderia terminar essa reflexão fazendo uma citação da Simone de Beauvoir, mas não. Vou terminar dizendo que eu assisto aos jogos do campeonato estadual, sim. E se reclamar eu ainda faço assistir ao VT do jogo na TV a cabo domingo de madrugada.

Referências Bibliográficas:

[1] EMMA Watson at the HeForShe Campaign 2014 – Official UN Video. Vídeo no Youtube. Nova York: United Nations, 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=gkjW9PZBRfk>. Acesso em: 16 nov. 2014.

[2] ESPN.com.br. Iraniana é presa por manifestar desejo de assistir jogo de vôlei masculino. ESPN, São Paulo, 3 nov. 2014. Disponível em: <http://espn.uol.com.br/noticia/454982_iraniana-e-presa-por-manifestar-desejo-de-assistir-jogo-de-volei-masculino>. Acesso em: 17 nov. 2014.

[3] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. EBook Kindle.

[4] Ibid., p. 12.

[5] MANUS, Ruth. Não é fácil ser mulher que gosta de futebol. Estadão, São Paulo, 12 nov. 2014. Disponível em: <http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/nao-e-facil-ser-uma-mulher-que-gosta-de-futebol/>. Acesso em: 17 nov. 2014.

[6] ADICHIE, op. cit., p. 15.

[7] Ibid., p. 21.

[8] MANUS, loc. cit.

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Um comentário sobre “Bem, Amig@s d’O Furor!

  1. Só porque as pessoas estranham, não quer dizer que é um preconceito. Realmente, até mesmo pra outras mulheres, deve ser estranho ver outra falando tão apropriada do assunto. Não porque seja uma regra mulher não gostar de futebol, apenas é incomum. Não acho que o feminismo tenha muita utilidade hoje em dia, segregar nunca foi a solução pra ajudar determinado grupo. Juntemo-nos como humanos.

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