Conflito em degradê

por Carol Grinsztajn

     Já falei anteriormente que me vejo como um pontinho na complexa rede de acontecimentos no Oriente Médio. Bom, eu ia escrever sobre outros temas essa semana, mas um acontecimento específico me tirou o chão e, como um pontinho, me fez sentir desesperadamente impotente. Na terça feira passada, dois homens entraram em uma sinagoga em Jerusalém e mataram quatro rabinos e um policial druzo. Colocando esse triste atentado em seu devido contexto, ele mostra um preocupante evento em meio à escalada de tensões das relações entre israelenses e palestinos, no que muitos andam chamando de Intifada Silenciosa (e outros, apenas de 3a Intifada). Existem muitos especialistas por aí muito melhor qualificados do que eu pra explicar todo esse contexto. Quero abordar aqui uma face de acontecimentos como esse que quase sempre é citada, mas pouquíssimas vezes recebe muita atenção (ou cuidado): a “questão” religiosa. O assunto é extremamente extenso então a proposta não é se posicionar, criticar ou mesmo analisar o conflito israelense-palestino, mas sim acrescentar cores e tons em um conflito que muito frequentemente é visto como preto no branco. Vamos jogar com algumas ideias que ajudem a desconstruir a imagem de grupos religiosos (ou qualquer outro grupo) como blocos monolíticos e- assim espero- chegaremos ao final com um quadro mais complexo e mais confuso. O post contém vários hiperlinks para outros sites que explicam melhor termos e trazem mais informações sobre acontecimentos específicos.

Conflito árabe-israelense-judaico-palestino-muçulmano-nacional-religioso-etc.-etc.-etc.

     Discussões sobre a própria relação entre religião e política são complexas e fascinantes (quem sabe fazemos uma edição especial de 302.938 posts sobre o assunto). No Oriente Médio em geral costumamos escutar notícias sobre “extremismos religiosos”. Muitos insistem em qualificar o conflito palestino-israelense em um conflito religioso, porém é mais frequentemente colocado como um conflito nacional ou territorial: ou seja, a questão seria o Estado e a terra, por isso entre israelenses e palestinos, não judeus e muçulmanos. Entretanto, o discurso religioso está presente no conflito de diversas formas, e os atentados dessa semana, bem como as tensões já acumuladas sobre o Monte do Templo,  aumentam os temores de que uma guerra religiosa estaria se instaurando.

     Depois que eu me recuperei do choque inicial (apenas do inicial) comecei a tentar buscar explicações de por que aquele local tinha sido escolhido para o ataque (meus colegas furorísticos foram essenciais nessa minha terapia). A sinagoga ficava na parte ocidental de Jerusalém (não oriental, não um assentamento), em um bairro no qual boa parte dos moradores são o que a mídia chama de “ultra-ortodoxos”.  A grande maioria desse grupo atualmente não serve o exército em Israel e nem mesmo é sionista. Suspeita-se que o ataque tenha sido um erro, que o verdadeiro alvo deveria ter sido a sinagoga ao lado, famosa pela liderança do agora falecido Rabino Ovadia Yossef, líder espiritual do partido ultra-ortodoxo sefaradita no Parlamento, o Shas. A sinagoga que foi atacada, entretanto, não tem nenhum ligação formal com o partido, inclusive um dos rabinos assassinados é neto de um dos grande rabinos de uma outra linha religiosa, a ortodoxia moderna. O ataque dessa semana, se difere, por exemplo, do ataque de 8 anos atrás no centro de estudos Mercaz Harav, famoso pela liderança do rabino considerado fundador da corrente sionista religiosa e de seus seguidores. Aparentemente, portanto, aquele local foi escolhido simplesmente pelo fato de ser uma sinagoga.  Uma velha reflexão conhecida minha me veio à mente: pra maioria das pessoas, religioso é tudo a mesma coisa e essa “coisa” não é boa. Por isso, quando alguém fala em “ocupação israelense”, “colonos judeus” ou “empreitada sionista”, essa é a foto que muitas vezes aparece ao lado da manchete:

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“Amnesty: Brutal Israeli military displayed ‘shocking disregard’ for civilian lives” The Malay Online

     A intenção seria mostrar o caráter judaico da ocupação. Pois bem, esse senhor que aparece ao lado do muro está vestido com trajes tipicamente associados à corrente ultra-ortodoxa, provavelmente não é sionista e quase certamente não serviu ao exército, mas o apelo da foto é claro.  Em nenhum momento essa foto questiona como em Israel a questão da “mistura” de assuntos religiosos e políticos  é delicada e confusa. Esse assunto se reflete na influência do rabinato sobre direitos civis, a discussão sobre a participação de religiosos no exército (alguns consideram servir o exército uma obrigação religiosa, outros uma proibição) e os posicionamentos sobre o lugar do Monte do Templo na doutrina religiosa. Complicado? Me dá mais um minutinho.

     Os judeus religiosos não são os únicos colocados em “um saco só” nesse conflito. Os muçulmanos também são.  Quando ataques como os dessa semana acontecem meu feed de notícias do facebook se enche com mensagens como “muçulmanos são todos terroristas” ou “esses árabes são todos iguais” (frequentemente com um vídeo de um discurso do Ahmadinejad em anexo). Vamos lá: para começar, árabe e muçulmano não são sinônimos. Ahmadinejad, por exemplo, é muçulmano (religião), mas não é árabe  (etnia). Segundo, o grupo que assumiu a autoria dos atentados dessa semana, a Frente Popular para a Libertação da Palestina, é laico e fundado por um cristão com ideias socialistas. Terceiro, existem e existiram vários grupos terroristas não muçulmanos (inclusive cristãos, judaicos, budistas e laicos).

      Com as notícias que recebemos e com o pouco tempo que temos para analisá-las, frequentemente nos perdemos em discursos que unificam grupos que são bem complexos, e cuja diferenciação não é mero detalhe, mas uma parte crucial da notícia. Vamos tentar entender só uma pontinha dessa complexidade?

Divisões e esteriótipos

     Os judeus, por exemplo, podem ser caracterizados de acordo com a sua origem: ashkenazim (judeus provenientes de países cristãos) e sefaradim (judeus provenientes de países muçulmanos); de acordo com suas diferenças doutrinárias: ortodoxos (que cumprem estritamente as leis religiosas), os liberais (incluindo reformistas e conservadores) e laicos (que podem inclusive ser ateus); de acordo com seu posicionamento em relação ao sionismo: sionista (existem dezenas de ideologias sionistas diferentes), não-sionista ou anti-sionista. Os judeus são aproximadamente 75% dos israelenses, sendo desses 75% apenas cerca de 20% se declara ortodoxo (e eles possuem suas próprias questões a serem resolvidas com o resto da sociedade israelense). Quase metade dos judeus do mundo está fora de Israel. E esses judeus não necessariamente são sionistas. Ou religiosos. O espírito da coisa é: judeu não é o mesmo que israelense, que não é o mesmo que sionista (que também não necessariamente quer dizer anti-árabes ou anti-palestinos, ou pró-assentamentos). Ufa.

     Os muçulmanos, por sua vez, também podem ser caracterizados por divisões religiosas: xiitas (seguem uma linha de descendência apontada por descendentes do profeta Maomé), sunitas (que não acreditam na hereditariedade dessa sucessão), sufis, ahmadys, cada um com várias escolas de jurisprudência; estão espalhados por diversas etnias, inclusive em países que chamamos “ocidentais”. Diversos grupos que afirmam agir “em nome do islã” podem ter características absolutamente diferentes, como o Hamas (que propõe a formação de um Estado nacional palestino), o agora famoso ISIS que propõe um califado (uma forma de organização política diferente do Estado nacional moderno) e diversos partidos políticos que fazem parte de sistemas democráticos (o maior país muçulmano, a Indonésia, é uma democracia).Entretanto, boa parte das ideologias que basearam os grupos de luta armada palestinos são “seculares” (podemos falar sobre essas aspas em outro post), como o nacionalismo ou o comunismo.

     Obviamente as caracterizações acima são simplificações da complexidade real. Os grupos acima se subdividem em centenas de outros e em cada um deles existem pessoas que discordam sobre diversas posições. Além disso, diferentes combinações de discursos políticos e religiosos podem levar a diferentes resultados, aumentando ou diminuindo tensões. Em meio ao caos do meu feed após o atentado, por exemplo, surgiu uma declaração de muçulmanos que exibiram trechos do Corão para demonstrar que é proibido pelo islã atacar templos de outras religiões,demonstrando solidariedade às vitimas do ataque, e também declarações de judeus pedindo o aumento em rezas e boas ações para gerar união através da dor.

O que acontece quando a ignorância desinforma

  Uma pesquisa feita pelo Pew Research Center demonstra que boa parte da população (pelo menos norte americana) sabe muito pouco sobre islã, judaísmo e, pasmem, cristianismo, e provavelmente desconhece as nuances que apontamos acima. Há também quem não tenha a menor ideia do que está fazendo e faz uma confusão geral, como a CNN que noticiou o ataque à sinagoga (templo judaico) como um ataque a uma mesquita (templo islâmico).

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     A ignorância sobre o “outro” frequentemente leva ao preconceito e só piora a situação. Por isso, ataques como os dessa semana preocupam não só pelo ataque em si mas pelas reações  a ele. Distribuições públicas de bala para comemorar os mortos ou ataques vingativos podem alimentar tensões que se associam à escalada já em curso.

Mas é possível deixar D’s de fora da política na terra santa?

      Na minha humilde opinião, não. Apesar de não acreditar que o conflito seja religioso, é impossível buscar solucioná-lo sem a participação dos grupos religiosos. Muitas das negociações até agora foram feitas a despeito das comunidades religiosas, tratadas como spoiler (alguns membros parecem dar razão para isso, é verdade). As atuais tensões sobre o Monte do Templo para os judeus, Explanada das Mesquitas para os muçulmanos, mostram que a questão religiosa não vai poder ser colocada pra debaixo do debate por uma política pretensamente “secular”. Mas quando duas religiões se chocam é possível negociar a paz?

     Intuitivamente talvez não. Mas minha experiência já provou o contrário diversas vezes. Já conheci tantos judeus e muçulmanos de diversas origens, tradições e níveis de religiosidade interagindo não apenas com frases “fofas” e hinos de paz, mas encarando suas diferenças de frente e buscando compatibilizar narrativas sem abrir mão das convicções religiosas.  Essas pessoas, como eu, são pontinhos na rede de acontecimentos do Oriente Médio, e como tais, são objetos em meio ao caos, mas também são sujeitos que alteram a realidade social. Sem pretensão de representar nenhum grupo, elas escolheram não participar do ciclo de mensagens de ódio que tenho visto. Não se trata de “dar a outra face”, de pacifismo cego ou utopias hippies. Trata-se  de tentar enxergar a realidade com todas as suas nuances, muito além do preto no branco, do bem e do mal, de entender a complexidade do assunto antes de agir ou comentar. Essas duas comunidades precisam  uma da outra para lutar contra preconceitos e enfrentar desafios comuns. Muitos dos meu amigos (que eu amo muito e com os quais eu tenho conversas e debates muito produtivos, independentemente de posicionamentos divergentes), me acusariam de estar sendo ingênua, de que eu vejo o mundo cor de rosa. Eu responderia que eu tento enxergar o mundo em muitas cores.  Apenas não quero torná-lo ainda mais preto.

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2 comentários sobre “Conflito em degradê

  1. Lucidez e clareza de colocação. No detalhe está a solução. Não existe solução apenas do macro como tratam as negociações. Ninguém tropeça no grande. O pequeno, quase invisível, é que derruba. Quem escreve a história é cada indivíduo em particular. Os líderes são os que conseguem entender o coletivo da individualidade. / Religiões deveriam orientar a vida pessoal de cada um e não participar da política. A política deveria estruturar o estado que no seu conjunto deve atender todas as individualidades no coletivo. Enfim, uma moeda tem mais do que duas faces, Tem também sua espessura. Muitos não percebem…

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  2. Excelente texto,lúcido e claro. Temos que mexer nas feridas , enquanto o preconceito, o preto e o branco predominarem, ficará muito difícil tentar começar a resolver esse conflito.Faço parte do grupo dos otimistas e que acredita que só se conhecendo o outro que posso aceitá-lo.

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