“Isso não faz parte do meu modus operandi”: O Pedestal das Referências e a Fantástica Fábrica das Relações Internacionais

por Louise Marie Hurel

Há algum tempo, tenho me apaixonado e me envolvido com a área acadêmica de Relações Internacionais. Entrei para o grupo de pesquisa, corri atrás da minha área de interesse, comecei a criar pastinhas com algumas idéias para ensaios, artigos e resenhas. Pouco tempo depois, minha mente tornou-se uma máquina ambulante que taxa(va?) acontecimentos e debates como potenciais papers. Fazia/Faço isso pois não conseguia/consigo me conter diante de tantas informações. Ao mesmo tempo, via que esse incomodo se alastrava para outros colegas de classe e que isso era algo em comum entre os acadêmicos. Sentimos que precisamos falar, opinar, debater. É muito bom vivenciar um turbilhão de inquietações!

Charlie ganhando o bilhete = Eu quando entrei para RI e comecei a descobrir o mundo acadêmico :)

Charlie ganhando o bilhete = Quando eu entrei em RI e comecei a descobrir o mundo acadêmico 🙂

Era como se eu estivesse entrando na fábrica de chocolate do Willy Wonka! Um mundo diverso, complexo cheio de cabeças pensantes. Mas assim como o Charlie, chega um momento que começamos a nos deparar com os desafios e possíveis desencantos. Os colegas que tiveram a mesma oportunidade de Charlie foram gradualmente se deixando levar pelo auto engrandecimento, confiando no simples fato de estarem respaldados nas suas conquistas pessoais. Ao prosseguir pelos corredores da fábrica acadêmica de Relações Interacionais me senti um pouco como o Charlie. Estou consciente que isso faz parte de um processo de amadurecimento, porém, não poderia deixar de compartilhar com vocês.

Esse post é um breve relato de um dos meu maiores incômodos nas Relações Internacionais: Ego. O nome, o cargo, o lattes, as referências. Você pode me perguntar:

“Louise, mas isso não existe em outras áreas?” 

“Claro que sim!”

Contudo procuro retratar um pedacinho da visão que tenho em relação a minha área.

Quase que diariamente, observo a produção e reprodução de uma utilidade que se tornou padrão e sustentáculo da vida acadêmica. Preciso me vender, falar dos meus louros, mostrar que sou isso ou aquilo… Preciso dar valor ao meu nome. Não sou o tipo de pessoa que vai ficar fazendo uma lista gigantesca das minhas conquistas. Inclusive, (tendo em vista que isso é necessário em certos momentos) me sinto constrangida quando assim o faço. Se você me pedir, te falo. Não vou ficar fazendo propaganda diária de que sou a melhor, isso simplesmente não faz parte do meu modus operandi (quem sabe, por isso me incomodo tanto com esse comportamento). Contudo, referências são importantes, elas são úteis para termos uma ideia dos interesses, comprometimentos e projetos. A questão problemática é quando essas referências inflam e, por conseguinte, tornam-se um pedestal. O orgulho e o ego sufocam e afastam. Passamos das Relações Internacionais que nos aproximam pela diversidade e multiplicidade de visões, para sucessivas cabeçadas, brigas, silêncios e rachas.

Me pergunto: Quando que essa utilidade torna-se um poderoso instrumento para o ego?

Estamos sempre aprendendo, a humildade e acessibilidade entre as pessoas permite trocas valiosíssimas pois, afinal, somos diversos e por isso vemos um mesmo objeto de trocentas formas diferentes. Mas existem outros desafios que contribuem para essa corrida pela bela reputação e o nome conhecido.

“Você estuda o que?”

“Relações internacionais”

“Quando você se forma, você é…”

“Internacionalista”

– silêncio –

(Aquele momento que surgem mil ??????? na cabeça da pessoa)

 [Uma situação que provavelmente todos os alunos de RI já enfrentaram…]

 O mercado de trabalho para as Relações Internacionais não é um dos mais favoráveis. Enfrentamos e estamos passando por um momento de contração generalizada na oferta de trabalho e contratação dentro desse mercado. O que isso tem a ver com ego? Em tudo o que fazemos (e deixamos de fazer) academicamente, abrimos ou fechamos portas. O network vai se tornando cada vez mais essencial. Perguntas como “quem é você” e “quem te indicou” promovem um ciclo que possibilita a retroalimentação da construção desse pedestal.

Sejamos conscientes de que existem requerimentos, exigências, construções sociais e “n” outros fatores que precisamos lidar ao olhar para a nossa vida profissional. Contudo, não nos deixemos levar pelo manjar tão atraente que o pedestal nos oferece. Lembremos que a aproximação e a acessibilidade entre pessoas nos ajuda. Quebremos as barreiras do ego. Sejamos mais sensíveis. O que adianta termos uma série de teorias que nos fazem refletir sobre o Eu e o Outro se não as aplicamos em nosso dia a dia? Procuramos rebater um sistema com construções sociais profundamente enraizadas, mas na prática, tornam-se apenas palavras no papel.

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