Cultura popular americana ou “a era em que os foguetes estão partindo”. Pitacos de um não especialista

por Márcio Scalercio

      Antes mesmo dos Estados Unidos se apartarem de seu esplêndido isolamento, de suas preocupações exclusivas com os cuidados com o milho, os rebanhos e os celeiros e assumirem um lugar como potência mundial – coisa que acabou acontecendo a despeito dos muitos que achavam que o tal isolamento até que não era tão ruim assim, já existia uma vasta “cultura popular” vicejando por aquelas bandas.

     Por cultura popular, inclino-me para a intuição de entendê-la como as artes que são produzidas, desfrutadas, compartilhadas e reproduzidas por agentes que integram o “povo comum” ou produzidas, desfrutadas e etc para o “povo comum”. E não vou aqui citar a lista de autores que acreditam nisso. Não vou lembrar e não vou correr para a estante.  Isto é um ensaio, não um artigo acadêmico. São apenas os meus dedos e mais nada a escrever aqui. Assim, desfilo intuições.

     Estamos falando então dos corações, mentes e essências do ordinary people. Vejo-me como elitista o suficiente para saber apreciar e ressaltar o fato de que foi a filosofia política americana aquela que ousou a originalidade de enfatizar o papel do ordinary people como o mais relevante no processo de construção de uma sociedade minimamente interessante. Claro que houve alguma colaboração de pensadores forâneos, tais como o inglês Thomas Paine, por exemplo, que encarregou-se de divulgar uma versão encantada da rebelião americana contra a metrópole com o fito de desancar o sistema político britânico que lhe causava contrariedade. Mas isso são outros quinhentos. Para Paine, o que importava era tecer loas ao “senso comum”, que antes de tudo passou a ser entendido como a forma de pensar característica do ordinary people. Um modo de ver o mundo simples, direto, sem delongas, cuja dignidade deriva precisamente da simplicidade. Sem dúvida, convenhamos, não deixava de ser uma outra forma de “encantamento”.

     Assim, a cultura popular está entranhada no ordinary people, assim como o ordinary people  está na essência da cultura popular. Devemos mencionar alguns outros aspectos que precipitaram as coisas nos Estados Unidos. Reconheço que o predomínio das igrejas protestantes teve algum papel nisso. Traduzir a Palavra para o vernáculo – uma proeza inaugurada por Lutero – providenciar o funcionamento de seções dominicais para  que a garotada estudasse a Bíblia e, antes de mais nada, empenhar as comunidades na alfabetização da turma toda, cá para nós, não é pouca coisa. Sequer pestanejo em prestar homenagem aos protestantes no movimento de sair na frente e preparar o povão para sobreviver adequadamente no mundo moderno. Tiro o chapéu para eles e para a religião, mas ainda assim, continuarei a ser um incréu desde o par de sapatos até o par de óculos.

     Lembremos ainda das questões de natureza instrumental: de como rapidamente se espalharam pelo continente o sistema de telégrafo e a malha ferroviária. Isso sem falar do aproveitamento das redes fluviais, logo coalhadas de embarcações a vapor. Com as gentes sabendo ler em toda a parte, percebe-se o estímulo sentido por editores e escritores em produzir short stories impressas em publicações baratas, aos milhares, e distribuídas por toda a parte pelos trens, pelos barcos a vapor ou mesmo por meio de mulas.

     Vale à pena, neste tipo de quesito, ler o clássico livro de Alfred Chandler Jr, The Visible Hand. Chandler mostrou como as redes da economia de mercado, seus tipos específicos de lógica e moralidade se espalharam precocemente nas colônias inglesas da América do Norte. Às vezes a economia de mercado e seus hábitos estavam a funcionar muito antes das instituições do Estado desempenharem seus papéis mesmo precariamente. Não haviam resistentes e poderosos tecidos sociais engastados por séculos a serem desmontados primeiro. O fato é que os grupos indígenas da América do Norte, regularmente, não ofereceram uma formidável resistência. Em boa parte dos lugares do continente, mal deixaram vestígios. E os colonos traziam as práticas capitalistas nos carroções e nas barcaças fluviais, ao lado da pá, da espingarda e da Bíblia.

     E gastei meus parcos recursos na última flor do Lácio para chegar a um único gênero da cultura popular, um gênero literário que revela-se tão americano quanto nativos-americanos donos de cassino: a ficção cientifica.

      Fui despertado pelo assunto recentemente por causa de um post de uma aluna que recomendava a leitura de Fahrenheit 451, escrito por Ray Bradbury. Acho que li esse livro quando tinha lá meus 13 anos. Nos anos seguintes, li mais uns 212 ou 366 do gênero. Houve uma “geração de ouro da ficção científica americana que escreveu copiosamente entre o final da década de 40 e os inícios dos 70. Gente como Bradbury, Phillip K. Dick, Robert A. Heinlein, Walter M. Miller Jr, para citar meus favoritos, mas havia muitos outros.

     Eram tempos em que se imaginava que tudo poderia acontecer. Se iniciava a “era atômica”, os programas espaciais davam o que falar, o céu parecia ser o limite. Livros e mais livros eram produzidos e short stories eram publicadas em revistas baratas de ficção científica vendidas em bancas ao lado dos gibis. Isso nos Estados Unidos. No Brasil, precisávamos que os editores se dignassem a reunir os contos em livros e só assim podíamos lê-los. Ou dependíamos das editoras portuguesas que também editaram o gênero exaustivamente.

     Nos Estados Unidos o gênero contou com o impulso de um editor, John Wood Campbell Jr, que de 1937 até a sua morte no ano de 1971, por meio de sua revista, “Astounding Science Ficcion” publicou milhares de contos e lançou uma miríade e novos autores. De um modo malandro, aproveitando as “janelas de oportunidade” – essa bobagem tem tudo a ver com o Campbell –  e o fato de que dinheiro era sempre um bem escasso entre os jovens autores, Campbell anunciava  em suas revistas que tinha um cheque à espera de um autor novato que enviasse um conto. Se fosse selecionado, o conto era publicado e o cheque mudava de mãos.

     A ficção científica tratava de todos os assuntos. Havia pesada crítica social nos livros e contos de Bradbury e Dick. Este último deve ter sido o mais pessimista de todos. De um modo geral, em seu futuro, as corporações capitalistas dominariam absolutamente tudo, e as pessoas comuns, a ralé, viraria-se como podia. Em Dick, definitivamente,no futuro o ordinary people se lascou, pois o autor não conseguia ver outra lógica possível em se tratando do  sistema capitalista. O indivíduo podia até esboçar uma reação gaiata aqui e ali, mas as corporações, onipresentes, arrumavam um modo de arrebatar e reciclar a reação de uma maneira ou de outra em seu proveito.

     Dick era um contestador social e um sujeito em termos financeiros permanentemente falido. As autoridades chegaram a investigar suas ligações com o partido comunista americano. Dick sequer deu-se ao trabalho de negar. Não tinha emprego público, nem qualquer posição no mundo privado, não tinha reputação a zelar e o vácuo espacial era o conteúdo de sua conta bancária. Como jamais nada teve, nada tinha a perder. As autoridades, ao perceberem o que representava a relação custo/benefício de prender e processar Dick, inclinaram-se à lógica do mercado deixando-o em paz. Tratava-se de um pobre diabo.

     Uma ironia: PKD veio a morrer em 1982, com apenas 54 anos de idade. Vivesse mais uns 20 anos, encheria a burra de dinheiro com os royalties de seus contos e livros aproveitados pelos estúdios de cinema. Blade Runner, Minority Report, Total Recall, Screamers são alguns deles. Logo vieram aos milhares, no mundo todo, em várias línguas, reedições de livros e contos de Dick. Até os intelectuais franceses não falavam de outra coisa. Fosse vivo, Dick certamente diria que as corporações encontraram um modo de arrebatar e reciclar a sua obra. Elas venceram mais uma vez. Lá do além, Dick assistiria, com inegável asco, executivos espertalhões, tirando longas baforadas de charutos, saltitando sobre a tampa de seu caixão comemorando os lucros polpudos extraídos da obra. Melhor ainda, sem ter de dar-lhe sequer um tostão.

     Heinlein, para muitos, era um maldito reacionário político. No seu futuro, só aqueles que prestavam serviço militar tinham acesso à cidadania. Sim, ele era um danado, mas como escrevia bem o desgraçado! O seu “Um estranho numa terra estranha” vale muito à pena ser lido. O Movimento Hippie, libertários e sonhadores de muitos quadrantes amaram o livro, muito embora Heinlein pessoalmente execrasse todos eles. Era um entusiasta da Guerra Fria, foi favorável à todas as intervenções armadas americanas,apoiava as armas nucleares e tinha pavor de comunistas – reais e imaginários.  Heinlein fora oficial da Marinha durante a Segunda Guerra Mundial. Findo o conflito, foi para a reserva e para os atrativos de uma vida suburbana, familiar e sossegada. Diz a lenda – relatada por ele próprio – que um dia reparou que precisava consertar o telhado de sua casa e que não tinha o dinheiro no orçamento para tanto. Foi isso que o incentivou a escrever uma short story, enviar para Campbell e disputar o cheque. Heinlein venceu, o conto foi publicado e o telhado recauchutado. Depois percebeu que precisava trocar de carro e que não tinha o dinheiro todo. Enviou um outro conto, Campbell gostou, pagou e o carro novo foi cintilar na garagem. Nada é mais ordinary people  do que o modo pelo qual Heinlein descreve as motivações que o tornaram escritor.

     Walter M. Miller Jr foi artilheiro de cauda de aeronave de bombardeio na Segunda Guerra Mundial. Quando terminou seu serviço militar, a marcante experiência que vivera levou-o a converter-se ao catolicismo. Seu fervor religioso era genuíno. Miller em toda a sua vida escreveu um único livro: “ Um cântico para Leibowitz”. Talvez o livro de Miller seja aquele que trata de forma mais original o tema muito batido na época, de como seria o que restara da vida no planeta após o inevitável holocausto nuclear. De acordo com seu livro, um arquiteto que adorava estudar história, logo após o fim da guerra, temia que os seres humanos sobreviventes, com o tempo, se esquecessem completamente de toda a herança do conhecimento. A raça humana fora dizimada e dispersada. As grandes cidades haviam desaparecido. A sobrevivência era a única questão importante. Assim resolveu criar uma ordem monástica, cujos membros se dedicariam a percorrer o mundo e afrontar perigos de toda a sorte com o fito de recolher os fragmentos do conhecimento humano e preservá-lo no mosteiro.

     Séculos depois, a ordem passou a se chamar de “Ordem dos Monges Visitadores de São Leibowitz”. O santo fundador, o arquiteto que amava história, aliás, era judeu. Na verdade, o fundador do Cristianismo também era. Nenhuma grande surpresa então. Os monges cuidadosamente guardavam tudo que encontravam ao perambular pelo mundo a fora formando a memorábilia. Ocorre que com o longo tempo decorrido desde a guerra nuclear, os monges não eram mais capazes de reconhecer a utilidade e o significado dos documentos e das coisas que guardavam. Assim, catavam absolutamente tudo, de papel de bala a saco de biscoito; de planos para armas até plantas de prédio. Receando que os documentos perecessem, passaram a copiá-los a mão, reproduzindo todos os sinais e desenhos que não mais entendiam, enriquecendo-os com belíssimas iluminuras. A história é um relato da vida do mosteiro ao longo das eras. A obra é pontuada por um fino senso de humor e também uma prova de fé.  Miller dedicou o livro a Santa Clara.

     Como podemos ver, dentro da ficção científica, ramo da literatura popular, numa mesma época foi possível falar de pelo menos três autores imaginativos que, com preocupações de vida, ideologias e preferências muito diferentes eram capazes de produzir histórias muito boas com temáticas bem diversas. Nenhum deles dava muita importância para engenhocas mirabolantes e realizações científicas fantásticas. Procuravam criar cenários interessantes e personagens palatáveis. As histórias podiam se passar em Marte, a bordo de uma nave  cingindo o espaço profundo ou mesmo ali na esquina daqui a uns  200 anos. Podia ser um livro sobre uma ordem monástica medieval no futuro,  sobre um absoluto desajustado, ou falando de um herói cujo mais destacado ato de heroísmo é a precisa consciência quanto à sua enorme impotência.

     Paralelo a essa literatura, havia ainda as mídias dos quadrinhos, cinema e televisão. Sou daqueles que afirma e compra a briga, de que as mais belas silhuetas jamais desenhadas nos quadrinhos foram as das mulheres de Flash Gordon através da pena de Alex Raymond. Uma lástima que sua carreira de criador tenha sido abruptamente interrompida por um acidente de automóvel. Raymond tinha só 47 anos. Tanto o cinema quanto a TV aproveitaram muitos dos escritores de ficção científica da geração de ouro. As séries de TV eram uma fonte de trabalho garantida, empregando enormes equipes de roteiristas e cheque de pagamento na conta por muito tempo.

     Creio, e mais uma vez trata-se apenas de uma impressão de não especialista, que para esses escritores a mudança do veículo não causava grande transtorno. Nos livros e revistas, escreviam histórias para o ordinary people. Para o cinema e para a TV, procuravam atingir o mesmo tipo de público. Os típicos episódios das séries com no máximo 40 minutos de duração se coadunavam perfeitamente com a dinâmica da short story.

     Como disse o outro, “o sol é para todos”. E, se não é, digo eu, deveria ser. Saber escrever para o ordinary people, não é de modo algum sinônimo de facilidade. Na verdade, é uma proeza. A ficção científica serviu de chamariz para que, nos últimos 70 anos, muita gente fosse despertada para a literatura. Boa parte destas pessoas não se restringiram ao gênero. Logo passaram a apreciar outros. Talvez o gosto literário seja um dos últimos bastiões onde sobrevive a pluralidade estética. Devemos insistir em preservá-lo e cultivá-lo, ainda que, lá do além, suspeite que o PKD tenha alguma observação pessimista a fazer sobre o assunto.

Márcio Scalercio é professor de Relações Internacionais e botafoguense decepcionado.
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