Das mais tristes “novelas” – A Mexicana

por Kayo Moura

Cena 1: A história de um massacre.

            O título desse post tenta chamar a atenção do leitor furorístico para  um infeliz quadro, muito mais dramático que qualquer novela ou gênero literário similar. Porque nele não há nada de fictício, muito menos algo que se assemelhe a um final feliz, pelo menos por enquanto.

43-jovens-mexicanos-desaparecidos1

            No dia 26 de setembro de 2014, um grupo de jovens estudantes da comunidade de Ayotzinapa, situada na cidade de Iguala, no México, teve seu ônibus interceptado e atacado por policiais da cidade. Ao que tudo indica, os jovens estavam a caminho da Cidade do México para participar da marcha que lembraria o massacre de Tlatelolco (1968) e o assassinato de dois companheiros pela polícia na estrada federal que vai até Acapulco, em 2011. Além disso, pretendiam angariar fundos para as escolas rurais de sua região e para a organização de novas manifestações [1].
Os estudantes dessa região já haviam organizado protestos contra o prefeito de Iguala, José Luis Abarca Velázquez, denunciando a sua conexão com o assassinado do líder camponês local Hernández Cardona. Semanas antes do dia 26 de setembro, os estudantes haviam confiscado alguns ônibus – prática comum no movimento estudantil mexicano – para sua locomoção para futuras manifestações. De acordo com as autoridades federais, o prefeito Velázquez temia que esses estudantes tivessem como destino o local de discurso de sua esposa, Maria de los Ángeles Pineda Villa, que lançaria sua candidatura à sucessão do marido. Por esse motivo e inflamado por antigas desavenças, o prefeito ordenara que policiais interceptassem os veículos e provido de seu envolvimento com grupos narcotraficantes, teria também entregue alguns desses estudantes a um desses grupos, informando-o que os jovens pertenciam a uma facção rival [2]. A única certeza que se tinha era sobre o desaparecimento de 43 jovens estudantes com idade média entre 17 e 22 anos.
Baseado em testemunhas e em um inquérito policial, as notícias apontam para o mais lastimável dos fatos. Seis jovens haviam sido imediatamente mortos pelos tiros disparados pela polícia contra o ônibus, vinte ficaram feridos, outros foram presos e mais tarde levados, em furgões superlotados, ao grupo narcotraficante Guerreros Unidos. Quinze morreram no caminho por asfixia, os sobreviventes foram assassinados e tiveram seus corpos queimados a fim de apagar as provas. Nas últimas semanas, devido à pressão da imprensa e da sociedade, as investigações levaram a descoberta de diversas fossas comuns clandestinas repletas de corpos carbonizados (as notícias apontam de vinte oito até trinta e oito corpos encontrados) cuja identidade ainda não pôde ser comprovada. O que leva muitos a crerem na possibilidade dos estudantes ainda se encontrarem vivos [3].
Após o massacre dos estudantes de Ayotzinapa, o “Casal Imperial” – como ficaram conhecidos o prefeito Velázquez e sua esposa, por seu poder e riqueza – fugiu para a Cidade do México, onde foram capturados. Quando então foram levados em detenção na companhia do chefe de polícia da região e outros 70 acusados de planejar e executar a chacina [4].

Cena 2: A Escola.

O grupo de jovens estudava na Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa, localizada em uma área pobre do estado de Guerrerro, a 200 quilômetros da Cidade do México. A escola Raúl Isidro Burgos é uma das escolas normais do país, idealizadas em meados dos anos vinte, para combater o analfabetismo e a pobreza em comunidades rurais. Seu objetivo era/é formar professores que atendessem às necessidades educacionais de áreas mais pobres do país e que pudessem atuar como líderes comunitários [5]. São escolas gratuitas, destinadas aos pobres e que enfrentam diversos desafios financeiros para sua manutenção dependendo, inclusive, de doações arrecadas pelos próprios estudantes. O abandono por parte do governo torna-se entendível quando observamos que a principal característica dessas escolas é a formação crítica de seus estudantes. Atributo esse que marca desde os muros dessas escolas, com frases como, “protestar é um direito” e “reprimir é um delito”; até os estudantes, conforme afirma o aluno, Ivan Cisnero Flórez, “Aqui nós adquirimos uma consciência política que ultrapassa o conhecimento técnico sobre agricultura” [6]. Essas escolas e seus estudantes representam, portanto, um incômodo para as autoridades políticas mexicanas. Estas tensões em um país que se encontra em uma conjuntura de violência generalizada, altas taxas de corrupção, domínio de narcotraficantes e extrema desigualdade social, fazem com que casos como o destes jovens não se configurem como exceção.

Cena 3: Uma nação em cólera.

De acordo com a Anistia Internacional- que lançou uma campanha internacional para encontrar o paradeiro dos 43 jovens – e a Human Rights Watch o caso dos 43 “desaparecidos forçados” faz parte de um contexto mais amplo de violação dos Direitos Humanos. Os dados oficiais e o relatório da Anistia Internacional apontam um número próximo de 22 mil pessoas desaparecidas, um crescimento de 600% da tortura no país, mais de 80 mil pessoas assassinadas e cerca de 150 mil pessoas que sofreram deslocamentos forçados devido aos altos índices de violência e insegurança no país. Tudo isso desde que o ex-presidente Felipe Calderón começou sua empreitada de Guerra às Drogas, a partir de 2006, utilizando-se inclusive das forças armadas no combate aos narcotraficantes [7]. Como afirma a diretora para as Américas da Anistia Internacional: “Tragicamente, o desaparecimento forçado dos estudantes é apenas o último de uma longa série de horrores que ocorreram no estado de Guerrero e no resto do país. A corrupção e a violência com sinais de advertência têm estado ali para que todos vejam há anos, e os que negligentemente os ignoraram são eles mesmos cúmplices desta tragédia”, disse Erika Guevara Rosas.” [8].
O desaparecimento desses jovens configurou a gota d’agua na sociedade Mexicana. Isto, somado à demora do governo na investigação do caso, levou a comunidade estudantil à tomada das ruas. A causa ganhou força. Professores, acadêmicos, intelectuais, trabalhadores, entre outros, exigiam o julgamento do prefeito de Iguala, do governador do Estado de Guerrero, Ángel Aguirre Rivero, e o conhecimento do paradeiros dos estudantes. No dia 07 de novembro, o procurador geral do México, Jesús Murillo Karam, anunciou que todos os jovens estavam mortos segundo o testemunho de narcotraficantes detidos que participaram do assassinato dos estudantes. Confirmaram também que queimaram seus corpos e lançaram os restos em rios nas proximidades. A notícia provocou então ainda mais revolta na população, no dia nove os manifestantes tentaram invadir o Palácio Nacional da Cidade do México, a sede presidencial do país.                    No dia 11, manifestantes incendiaram a sede do partido presidencial, o PRI (Partido Revolucionário Institucional), na capital do Estado de Guerrero e fizeram refém por algumas horas o secretário estadual de Segurança. Além disso, Aeroportos e rodovias de grandes centros foram ocupados [9]. A maior das manifestações públicas realizadas nesse período ocorreu no dia 20, quando se comemorou o aniversário de 104 anos da Revolução Mexicana; quando os manifestantes e familiares dos desaparecidos lembravam que o desaparecimento forçado e as valas comuns são uma realidade generalizada no país. Pelo menos 150 universidades públicas e privadas paralisaram as atividades no dia para participar das manifestações realizadas em 237 cidades mexicanas. Os presentes na Cidade do México pediram a punição dos responsáveis pelo massacre, a intensificação da procura pelos estudantes (já que muitos acreditam que ainda estejam vivos, incluindo os famíliares) e a renúncia do presidente Enrique Peña Nieto.   [10].
O presidente Peña Nieto, acusado por jornalistas de possuir uma casa no valor 7 milhões de dólares em nome de uma empreiteira que possui inúmeros contratos com o governo mexicano, recém-chegado de viajem da Austrália e da China, afirmou que se necessário usaria a força para conter atos violentos nas manifestações e que o Estado de Direito imperaria no país. O governo Piño enfrenta seu maior momento de instabilidade. Nas manifestações do dia 20, cerca de 30 pessoas foram presas e 18 policiais ficaram feridos.

Cena 4: A triste realidade latino americana.

De certo modo, o quadro mexicano representa de forma mais acentuada um contexto geral da América Latina. A região foi a única no mundo que apresentou um aumento no índice de violência entre 2000 e 2010 registrando, em 11 países, 10 assassinatos em 100 mil habitantes, uma média considerada epidêmica pela OMS (Organização Mundial da Saúde). A América Latina concentra somente 9% da população mundial, mas 30% dos homicídios registrados no mundo ocorrem na região. Um estudo divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) apontou que a taxa de homicídios na região cresceu 11%, contrariando a tendência mundial de diminuição ou estabilização. E, infelizmente, o quadro não para por aí. As estatísticas sobre violência estão envoltas por uma série de outros fatores que também configuram um mal presente na região. Entre eles, a corrupção, os altos índices de pobreza e desigualdade social, a política de guerra às drogas, a criminalização dos movimentos sociais, além do desrespeito aos direitos humanos perpetrados por agentes do Estado. Contudo, meu objetivo aqui não é estimular complexo de vira-lata em ninguém, muito menos despertar uma vontade profunda de deixar a região.
Meu objetivo nesse post foi de contar uma história, uma trágica história de 43 jovens mexicanos, que simbolizam milhares de jovens mortos em situações similares, que nos fazem lembrar o Amarildo, que nos fazem lembrar os milhares de jovens perseguidos, torturados e mortos durantes as ditaduras latino-americanas, que nos fazem lembrar os jovens negros mortos nas favelas cariocas. Meu objetivo aqui é fazer o trabalho de formiguinha para que suas vidas não se transformem em pura estatística, que suas lutas não sejam esquecidas e sim permaneçam vivas. Aos milhares/milhões de mortos desejo paz. Já aos que vivem, desejo coragem. Gosto de acreditar que minha função é levantar o debate, me engajar e promover engajamento. Porque, como diz a canção, “Aquí se respira lucha!”.

[1] – http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/11/141108_mexico_estudiantes_desaparecidos_ultimas_horas_jcps

[2] – http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/11/entenda-absurda-historia-da-bmorte-de-43-estudantesb-do-mexico.html

[3] – http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/11/141110_dudas_iguala_estudiantes_desaparecidos_an

[4] – http://www.cartacapital.com.br/revista/826/uma-novela-de-segunda-8442.html

[5] – http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2014-11/escola-de-ayotzinapa-e-conhecida-pela-formacao-critica-de-alunos

[6] – http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2014-11/escola-de-ayotzinapa-e-conhecida-pela-formacao-critica-de-alunos

[7] – http://www.cartacapital.com.br/internacional/apos-chacina-manifestantes-tentam-invadir-sede-presidencial-no-mexico-2407.html

[8] – https://anistia.org.br/noticias/mexico-falhas-governo-para-enfrentar-crise-de-direitos-humanos-pais/

[9] – http://www.cartacapital.com.br/revista/826/uma-novela-de-segunda-8442.html

[10] – http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2014/11/mujica-mexico-e-um-estado-falido-onde-vida-humana-vale-menos-que-a-de-um-cachorro-5903.html

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