Mohammed, Muhammed, Muhammad, Mohamed

por Amanda Melo

Essa semana foi divulgada uma pesquisa que apontava o nome “Mohammed” como o mais popular no Reino Unido[1]. A metodologia da pesquisa em si causou muitas controvérsias [2], pois agrupou variantes do nome (como Muhammed, Muhammad e Mohamed), tornando possível ultrapassar nomes considerados “mais ingleses”, como Oliver, Jack, ou George, nome do mais novo integrante da família real.

A questão da metodologia, porém, é secundária se analisarmos a resposta de muitas pessoas ao resultado, sendo ele válido ou não. Embora muçulmanos sejam minoria no Reino Unido, não foi difícil encontrar comentários sobre um plano de dominação muçulmana, o que levaria à necessidade de uma revolução por parte dos ingleses para garantir seu modo de vida, além de comparações com animais (ratos e porcos) e pedófilos [3]. Este post vai tentar jogar alguma luz sobre esses acontecimentos.

Primeiramente, é importante falar dos fluxos migratórios em todo o continente Europeu. A França, por exemplo, tem em sua população mais de 10% de imigrantes, principalmente de países do Norte da África, como Argélia, Tunísia e Marrocos, mas também de outros Estados da Europa, como Portugal, Itália e Espanha. A Alemanha, por sua vez, tem mais de 13% da sua população composta por imigrantes, e o corredor Turquia-Alemanha é um dos mais intensos fluxos de migração do mundo. No caso do Reino Unido, o sexto país na lista destinação, também com mais de 10% da sua população constituída de imigrantes, de países como Índia, Paquistão [4]. Como os dados são de 2010, poderíamos pensar que, com a crise econômica que atingiu com força os países europeus em 2008 mais os conflitos no Norte da África e Oriente Médio, o número de imigrantes provavelmente aumentou nos últimos anos.

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Principais rotas de imigração do Norte da África para a Europa

Não apenas o número de novos imigrantes é importante, mas também aqueles que já estão nesses países há décadas, o que significa uma nova geração de descendentes de imigrantes que já nasceram na Europa. Isso ajuda a explicar o aumento no número de bebês chamados Mohammed (e suas variações) não só no Reino Unido, mas na Europa como um todo. Em Oslo, Noruega, esse também já é nome masculino mais comum [5].

A resposta de uma parcela da população porém, cheia de preconceitos e fúria, é preocupante, pois esse tipo de discurso também tem reflexos materiais. Uma publicidade divulgada em 2013 compelia imigrantes ilegais a voltarem para seus países de origem ou serem presos, que acabou sendo direcionada a imigrantes legais também, é só um exemplo do tratamento dado a esses estrangeiros, e que, ao mesmo tempo, alimenta esse sentimento de ódio, de xenofobia.14.si

Esse sentimento, que também se converte em manifestações e protestos (que muitas vezes podem acabar em violência), vem de uma sensação de perigo, de ameaça que aquela pessoa diferente oferece ao seu estilo de vida. É uma ameaça à “identidade inglesa”, constituída por práticas supostamente diferentes e completamente antagônicas daquelas dos imigrantes, que, portanto, devem ser isolados em guetos marginalizados, impedidos de entrar no país ou até expulsos (como muitos radicais querem). É uma visão bastante similar à de Samuel Huntignton, no seu trabalho The Clash of Civilizations (já trabalhado aqui no blog no post da Carol), de que culturas/civilizações diferentes sempre vão entrar em conflito.

Além de uma proteção da identidade inglesa, é também um movimento da sua construção. Ao dizer que esses imigrantes são animais, pedófilos, bárbaros, irracionais, intolerantes, etc, define-se que os ingleses são o oposto – racionais, pacíficos, tolerantes – e, consequentemente, melhores.

Essa relação entre eu e outro, em que o outro é caracterizado como tudo que há de ruim e o eu, sendo o oposto, é tudo de bom, não está limitada às relações entre ingleses e muçulmanos, mas em praticamente todas as relações humanas – cariocas e paulistas, flamenguistas e vascaínos, brasileiros e argentinos, homens e mulheres. É essa necessidade de marcar a diferença e inferiorizar o outro, e que acaba gerando conflitos. Saindo um pouco do Reino Unido, essa materialização do discurso de ameaça dos imigrantes também pôde ser vista recentemente na Itália, mais especificamente sobre Lampedusa, ilha entre a Europa e a África, e o fato de uma lei proibir italianos de salvar pessoas de embarcações que vem do Norte da África que estejam afundando, sob pena de prisão.

É crucial, para resolver (ou pelo menos minimizar) esses conflitos, abandonar essa lógica do choque entre civilizações, abrindo espaço para pensar que que nenhuma identidade é hermeticamente fechada, e que o contato entre diferentes pode levar a trocas e câmbios extremamente ricos. É só lembrar dos fluxos migratórios dos séculos XIX e XX e sua importância para a consolidação de várias nações (o próprio Estados Unidos, por exemplo). E não deixar que um nome diferente determine previamente todas as suas atitudes em relação ao outro.

[1] http://qz.com/304224/muhammed-is-the-most-popular-boys-name-in-the-uk/

[2] http://www.washingtonpost.com/blogs/worldviews/wp/2014/12/02/is-mohammed-really-the-most-common-baby-name-in-britain/

[3] https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=830053263728004&id=238696516197018

[4] http://peoplemov.in/

[5] http://www.bbc.com/news/blogs-news-from-elsewhere-28982803

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2 comentários sobre “Mohammed, Muhammed, Muhammad, Mohamed

  1. VEJO que o Brasil é o melhor país do mundo, para se conviver, pois recepicionamos os imigrantes com consciência humana, como tal reconhecendo valores humanos que se pode ter diante de, raças, especies, crédulos e classes sociais.Apesar da realidade nos dizer que vivemos num país subdesenvolvido, conseguimos evoluir um pouco para emergente e assim buscando sempre evoluir apesar de tanta impunidade e de um sistema totalmente capitalista.fora as esferas do governo, bem como legislativo, executivo e judiciário.respeitamos uns aos outros como se fossem os mesmo.tornando assim uma sociedade mais justa de igualdade, praticando sempre o bom senso usando dessa forma a força contra todo tipo de sistema que visa as praticas de governo no neoliberalismo com hard core, que dao vida a discriminação, revolta e degradação de todos os seres e no mundo em vivemos..A verdadeira força para combater todos os sistemas vai além de sentimentos e bom senso que eleva o nível de raciocínio no qual alcançamos a plena felicidade, talves se denominamos, as qualidades e características, que possuimos entenderíamos um pouco de desenvolvimento, governamental, pessoal.E viveriamos diante as pessoas respeitando e estigando a desenvolver suas qualidades que existe em cada um indiferentemente..

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  2. Michel, obrigada pelo seu comentário!
    Acho que tenho uma visão muito mais pessimista que você. É claro que o Brasil é um país privilegiado em muitos aspectos, mas o tratamento que damos aos haitianos refugiados aqui mostra que também estamos inseridos nessa lógica de inferiorização do outro. O preconceito contra nordestinos também é um exemplo.
    E não acho que isso tem relação com desenvolvimento econômico. É só olhar para os Estados Unidos, maior economia do mundo, e como há muita desigualdade. Em relação aos imigrantes, na sua fronteira com o México há um muro e pessoas armadas, tentando evitar a qualquer custo a entrada dos ilegais, além do preconceito com aqueles que entram legalmente no país e com as pessoas americanas mas com pais imigrantes.
    Enfim, obrigada mais uma vez pelo comentário e continue acompanhando o blog!

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