A “África”, o Natal e a Ebola

por Carol Grinsztajn

     Quem pensaria em escrever uma música para arrecadar fundos para combater a fome na África que incluísse a frase “antes ele do que eu”? Aparentemente Bob Geldof. Estou falando da famosa Do They Know Its Chrismas?, lançada em 1984 como uma das primeiras inciativas para chamar atenção do público anglófono para a fome na África e que deu origem à iniciativa Live Aid e Live8. A música já foi regravada diversas vezes (essa primeira frase foi alterada, ainda bem) e a versão desse ano mudou o foco da arrecadação da fome para a Ebola (sem entretanto se dar o trabalho de mudar o refrão “Feed the World”). Não me leve a mal, eu gosto muito de vários trabalhos do Bob Geldof e não levantei da frente da TV durante todas as 10 horas de transmissão do Live 8 na MTV em 2005. Mas apesar das intenções nobres, a letra da música e iniciativas como essa são um exemplo da forma bastante questionável (que aliás fez com que alguns cantores desistissem de participar da iniciativa) sobre como entendemos essa “coisa” que é “A África” e a nossa relação com as suas mazelas , exemplificadas aqui pela devastadora epidemia de Ebola. E é disso que vamos tratar (brevemente) tendo a música de Geldof como base.

A ÁFRICA, OS OUTROS

But say a prayer to pray for the other ones /At Christmas time It’s hard, but when you’re having fun /There’s a world outside your window /And it’s a world of dread and fear /Where the only water flowing is the bitter sting of tears /And the Christmas bells that ring there /Are the clanging chimes of doom 

Tradução livre: Mas faça uma prece/ Ore pelos outros/No Natal é difícil, mas enquanto você está se divertindo/ Há um mundo fora da sua janela/E é um mundo de pavor e medo/ Onde a única água corrente é o amargo ardor das lágrimas/ E os sinos de natal que tocam lá/São as harmonias da desgraça

     Vamos combinar, quantos nomes de cidades africanas conhecemos? Quantas vezes você colocou “África” na categoria Países quando jogava Stop? Já falamos aqui n’O Furor muitas vezes sobre o tal do “outro”. Bom, o “africano” para nós é quase sempre o outro do outro. Mal conhecemos, mal estudamos e mal entendemos (como mostrada nesse clipe).  Como descreve a música, nós associamos “A África” a essa coisa única que abarca todas as mazelas possíveis do universo: fome, guerras étnicas, desastres naturais, epidemias, crianças raquíticas chorando, falta de infraestrutura, corrupção, sofrimento, tráfico de armas, mais sofrimento.  O cenário é quase apocalíptico.

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     Não estou aqui para negar que tudo isso existe em vários locais da África e que de fato muitos desse lugares sofrem com extrema pobreza e violência. Tendemos a pensar que a causa disso tudo é a ineficiência administrativa, corrupção endêmica, que as sociedades africanas são bárbaras e subdesenvolvidas. Pois bem, poucas pessoas mencionam também os anos de exploração colonial, as sangrentas lutas por independência e a responsabilidade (ainda que parcial) dos europeus na incitação de divisões sectárias. Poucas pessoas mencionam, por exemplo, que a Libéria é o país que mais recebe investimentos estrangeiros do mundo, mas que o país perde todo ano em incentivos fiscais a empresas de exploração mais do que investe em desenvolvimento.

     O outro africano é o protótipo da barbárie. De tudo aquilo que nós, da sociedade civilizada, não somos. Concepções assim nos cegam para o outro dentro de nós mesmos. Nos cega para o fato de que hoje, 2014, 13.000 pessoas vivem escravizadas em Londres, onde foi gravada Do They Know Its Chrismas, e que desde a crise de 2008 cresce população da Irlanda (país natal de Geldof)  vivendo abaixo da linha da pobreza. Quando “o africano” é uma coisa só (já imaginou dizer isso do brasileiro e argentino?) e essa “coisa” é algo negativo, é o outro, que não se relaciona com o que eu sou, não é de se admirar que as soluções que encontramos para lidar com os problemas no continente africano sejam tão brilhantes (já vamos falar sobre isso).


Well tonight thank G-d it’s them instead of you 

Tradução livre: Bem, essa noite agradeça a D’us que são eles, ao invés de você

     Esse verso da música merece 5 minutos de silêncio antes de você continuar lendo esse post.

O NATAL

And there won’t be snow in Africa this Christmas time /The greatest gift they’ll get this year is life /  Oh, where nothing ever grows, no rain or rivers flow  /Do they know it’s Christmastime at all?  /Here’s to you, raise a glass for everyone  /Here’s to them, underneath that burning sun / Do they know it’s Christmastime at all?

Tradução livre: E não haverá neve na África/ O maior presente que eles receberão esse ano é vida/ Onde nada nunca cresce, nenhuma chuva ou rios correm/ Eles sabem que é Natal?/ Um brinde pra você, faça um brinde para todos/ Um brinde para eles, embaixo daquele sol escaldante/ Eles sabem que é Natal?

      Bom, é verdade que muitos lugares da África não terão neve esse natal.  Talvez por um terço do continente esteja abaixo da linha do Equador, sendo portanto verão nessa época (apesar de nevar em vários lugares durante o inverno). Aqui de novo vemos a visão da África desolada, desértica, implorando pela nossa ajuda. Lá não tem água, não tem neve e o pior de tudo: não tem natal.

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     Na verdade, por causa da colonização, adivinhem, muitos dos países são cristãos e comemoram o natal como feriado oficial (ufa).images

     Entretanto, muitas outras religiões existem por ali, como o islã, rastafrianismo e zoroastrismo, além de diversos cultos locais que não chegam a ser religiões organizadas no termo ocidental da palavra. Mas meu foco aqui (dessa vez) não é a religião em si e sim que a menção do natal nesse contexto nos remete a uma longa tradição ocidental que remonta às missões civilizatórias e ao fardo do homem branco. Resumindo, se eles não sabem o que é natal, vamos mostrar para eles. Se eles são incapazes de resolver seus problemas sozinhos, vamos salvá-los. Com a nossa lógica, do nosso jeito, de cima pra baixo. É a lógica a qual, segundo William Easterly, “os africanos são incapazes de se ajudarem em prevenir a fome, e então passivamente aguardam o resgate de “nós,” os experts em fome ocidentais, categoria que aparentemente inclui rockstars”. E então isso acontece:


A EBOLA


Feed the world /Let them know it’s Christmas time

Tradução Livre: Alimente o mundo/ Deixe eles saberem que é Natal (ou: Faça com que eles saibam)

     A letra da música remete ao objetivo original da campanha, que era arrecadar fundos para combater a fome na África. A atual versão mantém a letra, porém os fundos serão destinados ao combate à Ebola. Vamos tentar usar a crise da Ebola para exemplificar um caso de ajuda ocidental a países africanos em diversos contextos.

     Primeiramente, a Ebola não assola “A África”. Aqui estão os países nos quais existe epidemia de Ebola: Guinea, Liberia e Serra Leoa. Mas existe toda uma narrativa de “epidemia global”, que começa nos países pobres e contamina os países ricos. É nesse momento que ela vira realmente uma preocupação global e o Obama resolve mandar  tropas para combater a epidemia. Ok, é claro que as tropas foram mandadas por causa do bom preparo de suporte logístico do exército, mas esse fato está relacionado com o discurso que inclui a categoria “saúde” como uma preocupação de segurança internacional (os internacionalistas de plantão chamariam isso de securitização). O discurso sobre ebola também gerou novos tipos de preconceito em países não infectados (sobre a “seleção” daqueles que poderiam circular, passar por aeroportos, etc.) e revela uma série de políticas sobre a área da saúde que tão frequentemente é vista como uma zona neutra, apolítica, técnica. A enxurrada de doações, por sua vez, provavelmente não vai lidar com outras doenças “fora da moda”, e também não vai tratar de problemas de infra-estrutura herdados desde o período colonial.

     Além disso, diversas equipes internacionais estão tendo dificuldades em lidar com as populações locais, especialmente em relação ao entendimento da cultura e religião. Primeiramente, pode-se dizer que intervenções externas em muitas ex-colônias é entendido como neocolonialismo (o que traduz-se como atitudes hostis da população local a intervenções externas em geral). As populações afetadas pelo vírus não são uma página em branco. Possuem seus próprios costumes e tradições, como por exemplo rituais funerários. Esses rituais são muitas vezes parte da própria forma de lidar com a morte e a perda, que reflete não ignorância e barbarismo mas está inserido em um contexto sócio-cultural próprio. O problema é que uma das formas de alastramento do vírus é o contato com cadáveres. Ao invés de tentar conciliar práticas locais com medidas sanitárias, diversos grupos de médicos ocidentais ignoram práticas locais e realizam iniciativas de cima para baixo, coercitivas, militarizadas que ao invés de incorporar as capacidades e potenciais locais, acaba gerando mais hostilidade que dificulta o trabalho das equipes médicas. Muitas vezes pensamos que sabemos o que é melhor para o outro e acabamos por piorar a situação.

     Mas a questão cultural é apenas um exemplo. E um exemplo ao qual muitas pessoas responderiam “mas tem pessoas morrendo, a forma como resolvemos isso é secundária, desde que resolvamos”. Pera lá. Primeiro, somos seres humanos, assim como as vítimas da doença, e como tais, não vivemos só de ar, água e comida, mas estamos inseridos em um contexto social do qual dependemos enormemente. O próprio conceito de vida e morte possui significados diferentes em diversas culturas e certas condições podem até mesmo piorar a situação, levando a suicídios, por exemplo. Mas então incorporamos elementos da cultura local na resposta? É essa a solução? O problema é que, dessa forma, seguimos com a lógica paternalista, enxergando “o africano” como esse ser desprovido do entendimento ocidental desenvolvido que precisa da nossa ajuda, da nossa salvação (e que se tiver que ser feita de forma que eles “entendam a aceitem”, pois bem).

     O que fazer? Devemos ajudar, intervir? Devemos não fazer nada? Bob Geldof está errado? Somos todos hipócritas porque ninguém aqui está ajudando as vítimas de Ebola mais do que ele? Acabamos parando no paradoxo que a Marina descreve muito bem em seu desabafo: ajuda é intervir, e sempre gera uma relação assimétrica, porém, diante da epidemia, não ajudar nos torna cúmplices das mortes, já que a não-ação também vai afetar a realidade das vítimas. Qualquer interação é uma intervenção. Muitas vezes dilemas éticos nos prendem em situações assim. Não tento responder a nenhum desse dilemas aqui. Mas acho que mesmo dentro da escolha em intervir, ajudar, que muitas vezes são louváveis, conhecer a realidade local com suas complexidades é sempre importante (questões sobre a manipulação da população local através de dados sobre a sua cultura também são muito relevantes nesse caso, mas não dá pra falar de tudo, então assiste a esse documentário). No geral, o pensamento que guiou esse texto aqui desde o início foi muito bem expresso por Aisha Harris: “Se Geldof e companhia insistem em expressar sua caridade em forma músical, por favor, está na hora de escrever uma nova música”.  Talvez a gente também precise reescrever nossos entendimentos sobre “A África”.

Esse ensaio deve muito à convivência diária e à revisão da Marina e à palestra de Melissa Leach do Institute of Development Studies no BRICS Policy Center em novembro de 2014. Infelizmente o espaço é curto para tratar de toda a complexidade desses argumentos. Esse site reúne algumas vozes interessantes sobre o assunto. E se a Marina e a Julia ainda não te convenceram, se você se interessou pela lógica por trás desse post assista a esse TED Talk da Chmamanda Ngozi, The Danger of a Single History

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Um comentário sobre “A “África”, o Natal e a Ebola

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