Turbulência no Iêmen: Entendendo o caso dos Houthis

por Louise Marie Hurel 

Em setembro, mais especificamente no dia 21, um grupo xiita localizado no norte do Iêmen, seguiu o seu trajeto para a região central e tomou a capital do país, Sanaa. Renegados e marginalizados politicamente desde o inicio da guerra fria, os Houthis tem lutado por representatividade e mudança no sistema politico do Iêmen. Porém, mesmo após algumas rodadas de negociações entre o governo e o grupo em setembro, a tensão e resistência dos Houthis só aumentou. Sendo assim, logo após o anúncio dos cortes aos subsídios voltados para o setor petrolífero e as fracas negociações, o grupo tomou a decisão de controlar a capital… e conseguiram. Desde então, o alastramento dos Houthis tem provocado incômodos domésticos e regionais.

Mas afinal, quem são os Houthis?

Nem sempre foram conhecidos por esse nome. Antes da morte de seu líder – Hussein Badr al Din al-Houthi – nos protestos contra o governo de Ali Abdullah Saleh em 2004, eram conhecidos como Zayidis (uma ramificação específica do islã xiita). Os Houthis habitam na região norte há mais de um século, sempre foram engajados com a liderança política interna e são conhecidos pelo seu caráter militarizado. Mesmo sendo Zayidi, Saleh nunca tratou os Houthis como aliados, um exemplo disso foram as guerras de Sa’ada (governo vs Houthis).

 

Em 2011, a primavera árabe marcou o futuro político de diversos países –  Mubarak no Egito, Gaddafi na Libia, Ben Ali na Tunisia, Saleh no Iêmen. Com o fim dos trinta anos de governo de Saleh, surgia um novo desafio, a busca por um líder político capaz de atender as demandas de uma população tão diversa como a do Iêmen. Hoje, três anos depois seu sucessor, Abd Rabbu Mansour Hadi sofre as sérias consequências desse turbilhão de acontecimentos. Como liderar uma exército em que os comandantes são majoritariamente xiitas (isso é um risco que se corre)? Será que Hadi irá enfrentar maiores desafios por ser um sulista? . Desde quando assumiu a presidência, sua capacidade de liderar o país vem sendo questionada, tendo como ápice a tomada da capital pelos Houthis.

            Essa crise apresenta diversas frentes e facetas, domesticamente observamos uma disputa política pela liderança do país, protestos internos a favor da fragmentação do Iêmen, e batalha entre Al-Qaeda e os Houthis.

“disputa politica pela liderança do país” – Disputa entre os maiores partidos, ou seja, o General People’s Congress (GPC) e o Islah (partido de oposição sunita), e os grupos tribais espalhados pelo país.

“protestos internos a favor da fragmentação” – Movimento sulista a favor da independência do Iêmen do Sul. Pode-se dizer que essa solução é um resquício da divisão da Guerra Fria, de quando o Iêmen fora separado. Não se sabe se os sulistas serão bem-sucedidos, especialmente pelo fato de não terem uma articulação tão coesa e um líder claro como os Houthis.

“batalha entre Al-Qaeda e Houthis” – Primeiramente eram contra o governo de Hadi, porém assim que os Houthis invadiram a capital, o inimigo mudou.  A Al-Qaeda do Iêmen (localizada ao sul do país) vem ganhando apoio não necessariamente pelo que são, mas pelo fato de se oporem a presença Houthi.

Regionalmente o Iêmen se encontra em meio a três players principais: Irã, Arábia Saudita e os países do Golfo representados pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

Arábia Saudita – Já havia se envolvido no conflito em 2009-2010, fornecendo ajuda ao governo Saleh na luta contra os Houthis. Assim que souberam que os Houthis haviam se apossado da capital, declararam que não haveria mais nenhuma ajuda financeira até que o grupo se retirasse. Além disso, não só temem a presença Houthi perto da fronteira, bem como estão certos de que o Irã está envolvido no fortalecimento do grupo xiita.

Irã – nega qualquer envolvimento com os Houthis, porém as informações indicam o contrário. Especula-se que os Houthis tenham recebido treinamento militar, armamentos e ajuda financeira.

Países do Golfo/CCG –   Apoiam o governo de Hadi. Assim sendo, uma das maiores preocupações desses países é a de preservar as instituições e o governo do Iêmen.

Por mais que a transição de governo no Iêmen tenha sido bem mais suave do que em outros países que passaram pela primavera árabe (selada com um acordo entre representantes sunitas e xiitas), a falta de representatividade por parte do governo vigente tem provocado incômodos. Esses incômodos podem ser vistos como um momento de reorganização politica que acabou não acontecendo de forma bem-sucedida em 2012 quando Hadi assumiu a presidência. A crise revela um descontentamento multifacetado onde diferentes atores trazem para a mesa as suas respostas. Porém, essa diversidade, ao se polarizar cada vez mais em grupos específicos não-inclusivos, podem abrir espaço para disputas mais intensas. Observa-se o crescente separatismo no sul do país, o aumento dos embates entre os Houthis e a Al-Qaeda e as possíveis implicações regionais de uma mudança no poder politico. Uma onda de acusações assolam a legitimidade politica de Hadi, cresce insatisfação da população em relação às condições de vida, à corrupção e ao monopólio excessivo do óleo e gás.  A população, o governo, a politica e a economia se chacoalham em uma corda bamba.

Enquanto isso, os Houthis não cessam de avançar. Após mais um encontro com a Al-Qaeda, batalham pela manutenção do controle da capital e buscam alcançar a região ao norte de Sanaa. Invadiram mais uma parte da “grande Sanaa” (denominada Arhab) sem grandes resistências por parte dos lideres tribais na região.

O conflito vai se intensificando e a ajuda financeira diminuindo. Quais serão as repercussões futuras desses incômodos? Será que o pior está por vir? Continuando nessa rota, a tendência é que haja um colapso do governo (o que acho que já esteja acontecendo). Agora, se haverá uma re-fragmentacao do país, é difícil saber.

Referências:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/09/un-yemen-warring-sides-reach-agreement-truce-2014920192028635294.html

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/12/yemen-secessionists-face-leadership-crisis-20141216356662352.html

http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/12/south-yemen-question-secession-201412351732176656.html

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/11/tensions-soar-at-southern-yemen-protest-camp-20141129142436169878.html

http://www.cnn.com/2013/07/08/world/meast/ali-abdullah-saleh-fast-facts/

http://yemenpost.net/Detail123456789.aspx?ID=100&SubID=7617&MainCat=6

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/12/yemen-houthis-claim-gains-arhab-2014121492745382917.html

http://carnegieendowment.org/files/war_in_saada.pdf

http://www.reuters.com/article/2014/12/15/us-yemen-houthis-iran-insight-idUSKBN0JT17A20141215

http://www.bloomberg.com/news/2014-11-02/gulf-arabs-see-specter-of-iran-in-rise-of-yemen-s-shiite-rebels.html

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/10/gcc-yemen-houthis-state-authority-20141026454825769.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s