1 ano sem Mandela? 95 anos com Mandela!

por Julia Zordan

12345Tenho o hábito de ouvir rádio todas as manhãs. Gosto de me manter informada sobre o que acontece no mundo ao meu redor. Foi numa dessas manhãs que eu ouvi que aquele dia marcava o primeiro aniversário de morte de Nelson Mandela. Lembrei-me imediatamente de como me senti naquela quinta-feira em que estava sentada no chão da sala de casa brincando com minha cachorrinha quando a televisão anunciou que Mandela havia falecido. Nem parecia que já fazia um ano inteiro! Eu obviamente já havia ouvido falar sobre Mandela na escola, na mídia, etc., mas foi na faculdade que eu entendi a importância que ele teve na luta pela igualdade de direitos entre negros e brancos – e passei a admirá-lo ainda mais.

12345Ao nascer, Mandela foi batizado de Rolihlahla, que se traduz por “aquele que puxa o galho de uma árvore”, que seria, em uma consideração mais coloquial, traduzido por “encrenqueiro”. Sua família era grande, sendo ele apenas um dos treze filhos de seu pai. Nasceu na área do Transkei, que foi um dos maiores territórios da África do Sul, chegando a ter o tamanho territorial da Suíça, com uma população de aproximadamente três milhões e meio de Xhosas (uma das várias etnias do povo sul-africano) e uma minoria de Basothos e de brancos. Esse era o território do povo Thembu, parte da nação Xhosa. Seu pai era chefe da tribo Thembu, tanto por sangue como por costume, de forma que Mandela foi preparado desde menino para assumir o posto de seu pai. Ele, no entanto, escolheu sair do interior e ir para Johanesburgo, onde se formou advogado e passou a fazer parte do Congresso Nacional Africano (ANC, da sigla em inglês African National Congress), lutando em prol da igualdade entre os negros e os brancos na África do Sul.

12345A luta de Mandela mudou de rumo no dia 21 de março de 1960, com o episódio conhecido como Massacre de Sharpeville. Foi a partir daí que se chegou à conclusão de que a luta contra o Apartheid era uma luta que não poderia ser travada sem violência. Mandela tornou-se o comandante do braço armado da ANC. Deste momento em diante, ele passou a ser um fugitivo. Foi preso em 5 de agosto de 1962 e julgado, tendo ficado 27 anos preso na cela número 46664 em Robben Island, perto da Cidade do Cabo. Lá, ele escreveu de forma clandestina sua autobiografia, Long Walk To Freedom[1], a partir de 1974, tendo-a publicado em 1994. Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990, após um longo período de negociações. O ano de 1993, porém, foi um ano especial para Mandela. Ele fora não somente laureado com o Prêmio Nobel da Paz, como também fora eleito Presidente da África do Sul. O mandato de Mandela na presidência do país coroou o fim oficial do regime do Apartheid, de discriminação entre negros e brancos, após 46 anos.

12345Nos últimos anos a África do Sul tem conseguido bons níveis de crescimento econômico e de visibilidade internacional, fazendo parte do grupo dos BRICS e tendo sediado a Copa das Confederações de 2009 e a Copa do Mundo de 2010. A situação social na África do Sul, no entanto, não foi essencialmente alterada pelo fim do Apartheid. Ainda verifica-se que a minoria branca do país possui condições de vida melhores do que as da maioria negra. As tensões vividas pelo país também não se aliviaram. Prova disso foram os protestos por melhorias salariais que terminaram na morte de 34 mineiros pela polícia em 16 de agosto de 2012, durante uma greve na mina de platina de Marikana. A violência praticada foi tanta que o episódio passou a ser conhecido como Massacre de Marikana, e foi comparado ao de Sharpeville. A grande diferença é que agora é a ANC quem está no poder, apesar das denúncias de corrupção no alto escalão do governo.

12345O que se percebe na África do Sul é que há uma divisão no governo, uma divisão dentro da própria ANC, apesar das negativas do Presidente. Vários dos problemas cotidianos do sul-africano são os mesmos das décadas passadas. Mesmo assim, apesar de todas as críticas, apesar de todas as cisões, apesar de toda a oposição, apesar de tudo, há um ano a África do Sul se unia, se tornava uma unidade, no choro, na dor e no luto pela morte de Mandela, um símbolo da luta pela igualdade racial não só para seu país, mas para o mundo todo. Esse foi, sem dúvida, o maior legado deixado por Mandela.

[1] MANDELA, Nelson. Long Walk to Freedom. Nova York: Little Back Bay Books, 1994.

[2] CESSOU, Sabine. Impasse Social na África do Sul: os dilemas do pós-apartheid. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, n. 67, 1 fev. 2013, p. 23-25.

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Um comentário sobre “1 ano sem Mandela? 95 anos com Mandela!

  1. Alguns preferem “estadistas” capazes de “fazer alianças com o diabo” na defesa de um projeto de poder supostamente a serviço do bem comum, conforme definição do filósofo espanhol José Ortega y Gasset e de muitos brasileiros “esclarecidos”.
    Eu, modestamente, ainda acredito que os verdadeiros (ou legítimos) estadistas são aqueles que conseguem unir um país inteiro em torno de um ideal de conciliação nacional, superando ressentimentos seculares e o sectarismo ideológico. É o caso do já saudoso Nélson Mandela, falecido há um ano. O mundo, e não apenas a África do Sul, certamente sentirá muita falta desse homem extraordinário. Que Deus o tenha (e nos abençoe).

    Ecio Moraes Pedro

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