ERA UMA VEZ UMA GUERRA CHAMADA FRIA: A Ilha Socialista, a potência capitalista e o restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e EUA.

por Kayo Moura

Em minha primeira semana de férias parece que a política internacional, ao contrário de mim, não parou para um descanso. Em meu último post (fazer hiperlink) tratei sobre os 43 estudantes mexicanos desaparecidos e por isso não falarei hoje sobre o sequestro na cafeteria australiana que terminou com três mortos, incluindo o sequestrador. Muito menos quero trazer o lastimável caso das mais de 120 crianças assassinadas no ataque do Talibã a uma escola no Paquistão. Acredito que esses temas serão tratados aqui por outros colegas furorísticos. Contudo, não poderia deixar de desejar aos familiares daqueles que sofreram com essas e outras tragédias toda a força, paz, consolação e graças de Deus. Tenham certeza de que o mundo, pelo menos por alguns segundos, se compadeceu e compartilhou de sua dor.

Assim sendo, tratarei aqui de um acontecimento histórico na política internacional que também roubou a atenção mundial nessa semana. Trata-se do reatamento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba. Esse que talvez tenha sido um dos mais vivos e simbólicos resquícios da Guerra Fria, certamente o mais aquecido ponto de embate entre os projetos políticos e sociais em disputa na Guerra Fria na América, chegou ao início de seu fim (?). De um lado, a ilha socialista na América, do outro, o país símbolo do capitalismo e no passado, uma Guerra chamada fria.

Em 1959 através da um movimento de guerrilha liderado pelos irmãos Castro e por Che Guevara a revolução cubana chega ao poder, derrubando a ditadura de Fulgêncio Batista que tinha como um dos principais aliados o governo Norte-americano. Para além dos acordos militares, essa relação garantia que a Ilha fosse usada como um grande cassino e prostíbulo para os homens de negócio estadunidenses [1]. Assim sendo, dentre diversas reformas do nascente governo socialista, como reforma agrária, campanhas de alfabetização em massa e de cuidados de saúde, iniciou-se também o processo de nacionalização, inclusive de propriedades estrangeiras, ocasionando a retaliação americana através da redução da cota de importação de açúcar (principal produto de exportação de Cuba). Em 1960, o presidente Eisenhower impõe um embargo parcial a Cuba. Em 1961, Kennedy rompe as relações diplomáticas com a Ilha e ao longo dos anos o embargo foi se enrijecendo.

Ao passo que os EUA buscavam punir o país, a União Soviética (URSS) ocupava o espaço deixado pela potencia capitalista, comprando o excedente do açúcar cubano e fornecendo ajuda financeira, como a venda de petróleo a preços preferenciais. Essa aproximação e o caráter socialista do regime de Cuba, a pouco mais de 160 quilômetros da Flórida, não agradavam em nada aos EUA que decretaram em 1962 o bloqueio total ao país.

O objetivo dessas medidas era levar o regime cubano a falência e consequentemente ao seu fim. Pois, em plena Guerra Fria era inaceitável um governo aliado da União Soviética tão próximo do território americano. A preocupação norte-americana se materializa na crise dos mísseis (1962), quando a inteligência americana descobre ogivas e mísseis nucleares soviéticos sendo instalados em Cuba. A negociação e tensão em torno da retirada dos mísseis foi o episódio da guerra fria que mais aproximou o mundo de uma guerra nuclear e em decorrência disso da destruição do planeta. Além dessa preocupação, havia o temor que a revolução cubana inspirasse movimentos revolucionários similares em toda a América Latina – como de fato inspirou em todo o terceiro mundo – região que historicamente havia vivido e viveria sobre a influência, e muitas vezes jugo, estadunidense.

Entretanto, mais de 50 anos se passaram, a Guerra Fria terminou, a União Soviética deixou de existir, mas nem o embargo nem o regime socialista em Cuba tiveram fim. A Assembleia Geral das Nações Unidas vêm a 23 anos consecutivos condenando o embargo comercial, econômico e financeiro a Cuba, a maioria esmagadora dos países condena o ato unilateral norte-americano, excerto o próprio EUA e Israel [2]. Além de restrições a viajem, gastos, investimentos e envio de dinheiro para Cuba, o bloqueio proíbe que produtos que contenha alguma matéria-prima cubana sejam exportados para os EUA; proíbe a venda a Cuba de bens ou serviços nos quais seja utilizada tecnologia estadunidense; Proíbe a bancos de terceiros países que abram contas em dólares norte-americanos a pessoas individuais ou jurídicas cubanas; entre outras restrições. Segundo o relatório da ONU, de seu início até 2005 o bloquei já causara um prejuízo superior a 89 bilhões de dólares para a economia cubana [3]. O governo americano argumenta que o bloquei se manterá até que a ilha se abra para a iniciativa privada, além de discursivamente ser uma medida punitiva ao regime enxergado pelos EUA como ditatorial e violador dos direitos humanos.

Nessa terça-feira, depois de mais de 50 anos, fomos pegos de surpresa com a notícia da retomada das relações diplomáticas entre Cuba e EUA. O Acordo firmado entre os dois países e o discurso do próprio presidente Obama reconhecem que a estratégia até então empregada para segundo as palavras do presidente: “promover a emergência de um Cuba democrática, prospera e estável” falhou [4]. Contudo, esse não se tratou de um ato de pura boa vontade, uma série de fatores em ambos os lados possibilitaram e motivaram que um acordo como esse fosse firmado.

Do lado do governo americano, a soltura de Alan Gross, cidadão americano, funcionário da USAID preso desde 2009 em Cuba, era uma preocupação real. O governo norte-americano e a família afirmam que Alan foi preso enquanto trabalhava em um projeto relacionado com o acesso a internet no país. Segundo seu advogado, seu estado de saúde era preocupante e ele não sobreviveria por muito tempo preso. Diante do peso que poderia ter a morte de um cidadão americano detido em Cuba, do atestado fracasso da estratégia norte-americana para lidar com Cuba, o peso do eleitorado latino no senário eleitoral do país e as oportunidades de negócios perdidos que são estimados em um bilhão de dólares, a administração Obama decide agir. Do outro lado, a economia pesou na balança, as taxas de crescimento cubanas são as menores desde a revolução e a deterioração da economia Venezuela – a principal apoiadora financeira e um dos pilares da economia cubana – ameaçava agravar a crise econômica em Cuba sobre tudo com a queda do preço do petróleo – principal fonte das divisas venezuelanas.

O acordo prevê então: o restabelecimento de embaixadas; fomentar trabalho em conjunto nas áreas de combate ao tráfico de drogas e pessoas e o terrorismo; facilitar viagens a Cuba em casos específicos; aumentar o limite das remessas enviadas dos EUA para Cuba de U$ 500 para U$ 2.000; autorização de importação e exportação de alguns produtos americanos para Cuba; autorização do uso de cartão de crédito e débito americanos em Cuba; revisão imediata da designação dada a Cuba como “Estado patrocinador do terrorismo”; início de novos esforços para melhorar o acesso de Cuba a telecomunicação e internet. Além disso, os Estados Unidos soltaram dois cidadãos cubanos acusados de espionagem e o governo cubano liberou Alan Gross.

O bloqueio econômico não foi abolido, contudo as medidas dão pequenos alívios à economia cubana e geram uma expectativa futuro do seu fim. Afinal, essa persiste sendo a principal reivindicação cubana. Do mesmo modo, também não ocorrem mudanças política que indique uma mudança de regime em Cuba. Raúl segue afirmando que Cuba não abrirá mão do socialismo. Entretanto, medidas mais substanciais demandam uma flexibilização, sobre tudo no tocando a possibilidade de negócios, comércio e iniciativa privada com e na Ilha. Assim sendo, o acordo é um primeiro passo importantíssimo. Contudo, tanto Obama quanto Raúl sabem que existem muitos desafios a serem travados.

Apesar de o acordo ter sido motivo de alegria para muitos, como a grande maioria dos países que compõem a Assembleia Geral da ONU, a UNASUL e até uma parcela da comunidade cubana nos EUA; não faltaram críticas. Aqueles que se opõem a reaproximação argumentam que o gesto legitima um governo autoritário e possibilita sua continuidade. Os que são favoráveis afirmam que a reaproximação e a retirada do bloqueio anulariam a justificativa usada por Raúl de que os males de seu país advêm do bloqueio e dessa forma se politizaria o debate. O fato é que esse debate terá de passar pelo senado, uma vez que o bloqueio desde os anos 90 tornou-se Lei e lá deverá enfrentar senadores como Bob Menéndez (Nova Jersey), Marco Rubio (Flórida) e Ted Cruz (Texas) que se opõem a essas mudanças.

Portanto, embora seja uma medida fundamental ela não é suficiente para que as relações entre EUA e Cuba se normalizem. Na realidade, só o tempo – e muito tempo – nos revelará que rumos essa mudança tomará. Para muitos, esse representa o início do fim Da Ilha socialista, considero essa uma boa aposta. Contudo, vale continuar acompanhando as batalhas políticas internas e externas que definiram os futuros das relações entre A Ilha socialista e A potência capitalista. Pelo menos uma coisa é certa, o Papa segue orando por um final feliz.

[1]- http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/31849/50+verdades+sobre+a+ditadura+de+fulgencio+batista+em+cuba.shtml

[2]- http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/economia/2014/10/28/internas_economia,539226/onu-condena-embargo-americano-a-cuba-pelo-23-ano.shtml

[3]- http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83091

[4]- http://www.bbc.com/news/world-latin-america-30524560

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