Teorias do desenvolvimento mundial, educação e um movimento juvenil centenário, o escotismo

por Thaís Queiroz

          Este ano fiz um mini curso no departamento de relações internacionais sobre Teorias de Desenvolvimento e Educação. Por serem apenas três dias de curso, vimos só algumas teorias. Mesmo assim, não me espantei ao perceber que eram teorias deveras ocidentais, certamente provindas da Europa e dos Estados Unidos e muito datadas. Já “passadas da validade”. Uma delas, prevalecente nos anos cinquenta e sessenta do século passado, era a teoria da Modernização e Construção da Nação. Logo a identificamos como problemática, por considerar que existem estágios de desenvolvimento a serem seguidos, na verdade galgados, e como isto desconsidera uma infinidade de outros meios de crescimento, de desenvolvimento e de vida.

            Outra, considerada nas décadas de sessenta e setenta, seguia uma linha de pensamento capitalista que se baseava em “Necessidades Básicas”, seguindo a lógica de que rendas mais altas para as populações permitiam um crescimento econômico, cujo desfecho seria o fim da pobreza. Novamente identificamos problemas logo de início: a velha história do “se todos enriquecerem, quem será a mão de obra que fará o trabalho?”. Precisaríamos de 5 planetas Terra para prover os recursos necessários para os 7 bilhões de seres humanos existentes viverem como os estadunidenses, não é isto?

            O que intrigou foi quando o professor propôs um exercício, onde deveríamos aplicar estas teorias para encontrar um meio de acabar com o trabalho infantil na Etiópia. BROW! Cê tá de brincanagem?! Não, não estava. E nós tentamos. Sentamos em grupos e discutimos possibilidades daquilo acontecer. Foi tão difícil chegar a um consenso! E em um grupo de apenas seis pessoas. Por quê? Porque cada ideia de solução apresentada tinha logo em seguida mil efeitos colaterais prejudiciais identificados. Para a economia do país, para a família, para a criança, para a população, para o governo e muito mais.

            Comecei a pensar em por que ele havia nos proposto aplicar aquelas teorias se elas já estavam “ultrapassadas” (décadas de 1950-70) e claramente cheias de defeitos. Mas ao fim dos três dias, tendo feitos exercícios similares com todas as outras teorias, terminamos o curso meio abismados ao constatar um fato: todas aquelas teorias eram consideradas válidas e ainda aplicadas. Isto me levou a uma conversa de bar posterior em que dois amigos estavam comentando sobre a precariedade de nossos sistemas escolares e começaram a discutir sobre uma escola in-crí-vel em São Paulo, que era espelhada na “Escola da Ponte” em Portugal, onde as crianças não tinham que seguir um sistema de notas, onde elas aprendiam colocando a mão na massa, onde a criança podia desde cedo correr atrás do que mais a interessasse, mas não deixava de ver os outros assuntos, as outras matérias. Onde tinha muita atividade interdisciplinar. Fiquei sinceramente abismada com aquilo. Mas não com o que você está achando: a novidade e maravilhada daquilo. Não. Fiquei abismada porque eu sabia exatamente do que se tratava aquilo que eles estavam descrevendo. E sinceramente não era nenhuma escola da ponte.

            Refleti em seguida sobre como aquele era um método maravilhoso e aplicável em todo o mundo. Questionei-me sobre suas limitações também – mas isto é assunto para uma discussão muito maior, talvez em outro post. Mas o que mais pensei foi no desenvolvimento mundial, em como aqueles métodos apresentados no minicurso baseavam-se no capitalismo, em modelos econômicos, valores datados, em vez de valorizar a construção do caráter, proporcionando o bom convívio em sociedade, valor que tenho certeza que – mesmo com todo este papo de imposição de valores e colonialismo – ninguém questionaria sua importância. Questionei-me sobre a importância de “desenvolvermos o mundo” e como a ferramenta para isto é a educação. Mas que educação?

Educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo - Nelson Mandela

Educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo – Nelson Mandela

            O que me abismou naquela conversa foi perceber que tudo aquilo que eles descreveram não tem nada de revolucionário, que é sua característica mais vendida. Existe registrado, com diversas publicações, método, formação, institucionalização e gente engajada. E se chama escotismo. (Assim como podem ter havido outros movimentos educacionais antes e depois do escotismo que eram tão eficientes quanto.) Mas o que me frustra é ver a falta do seu reconhecimento. Quantas maravilhas, que educação incrível poderíamos fornecer a quaaaaaaaantos jovens, se tivéssemos mais adultos engajados em prol de algo que já está aí e vem evoluindo há mais de cem anos? Já existe e já tem mil discussões em andamento? Um dos pilares do método escoteiro é o, pasmem, aprender fazendo. Os jovens realizam atividades propostas dentro de um programa educativo desenvolvido especificamente para sua idade e constantemente atualizado, afim de transmitir os valores por trás do escotismo. Ao mesmo tempo esse jovem, quando se interessa mais por um tema, pode correr atrás da realização de uma série de etapas propostas para aquele assunto específico (por exemplo cozinha, ballet, química, futebol, gramática, videogames, matemática etc.) e supervisionada por um adulto, apresenta o que realizou e assim conquista a sua especialidade.

            Isto nada mais é do que a “não existência do sistema de notas” e o “poder correr atrás do seu maior interesse, sem deixar de ver os outros assuntos”. O convívio em sociedade, o desenvolvimento do trabalho em equipe, o serviço ao próximo. A transmissão de valores que resulta na formação do caráter. Tudo isto num movimento existente em 216 países e territórios no mundo. Sim. Mas que poucos ouviram falar, que pouca dedicação recebe justamente por isto. Sim, certamente cheio de limitações, como tudo na vida – eu mesma sei discutir algumas – mas gostaria de alertar para a importância de, mais uma vez, abrirmos os olhos e sairmos do pequeno mundo em que vivemos. Quantas coisas eu também não desconheço? O quanto não poderíamos engrandecer se nos informássemos mais? Poderíamos nos engajar de maneira tão mais eficiente! Mais gente engajada! Mais gente dedicada! Que, por favor, existam MUITAS MAIS escolas da ponte! Que o escotismo seja largamente aplicado! Que a gente se informe mais sobre seus benefícios e se engaje. Que a gente pare para valorizar a importância de educar, de como isto desenvolve o mundo e de como isto custa caro: dedicação.

Meus amigos da escola costumavam achar que escotismo não era legal, mas com o que eles me veem fazem, eles se arrependem de não participar - Jagz Bharth, Comissário Juvenil do Escotismo no Reino Unido

Meus amigos da escola costumavam achar que escotismo não era legal, mas com o que eles me veem fazendo, eles se arrependem de não participar – Jagz Bharth, Comissário Juvenil do Escotismo no Reino Unido

– este post está longe de ser uma explicação sobre o escotismo ou de ter a pretensão de dizer que algo é melhor ou pior. Se você se interessou sobre o assunto e quiser saber mais, pode visitar  o site dos Escoteiros do Brasil em escoteiros.org.br e também tirar dúvidas através dos comentários. E você? Conhece outros programas educativos que valorizem a construção do caráter e o bom convívio em sociedade? Concorda com este tipo de valor? Vamos amar receber comentários e expandir esta discussão!! 

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2 comentários sobre “Teorias do desenvolvimento mundial, educação e um movimento juvenil centenário, o escotismo

  1. Oi Thaís!
    Fiquei muito feliz pelo post (brilhante, como sempre), ainda mais falando sobre duas coisas que gosto: educação e escotismo! Há, que coisa gostosa! E para sua grande felicidade existem outras escolas que também aplicam uma educação diferenciada, baseando-se no aluno como formador de conhecimento e não como um receptáculo para as informações recebidas. Vou citar alguns aqui, ok?

    High Tech High: escola americana que já possui hoje 12 escolas. Ela possui 4 princípios: personalização do ensino, conexão com o mundo adulto, missão intelectual comum e professor como designer (onde todos os princípios se conectam com a ampla missão de preparação para o mundo adulto). E ah! A forma de aprendizagem deles é baseada em projetos e exposições (PBL).
    http://www.hightechhigh.org/

    Nueva School: escola americana centrada no aluno, conhecida por seus estudos distintos baseados na investigação interdisciplinar, aprendizagem baseada em projetos construtivistas, seu trabalho pioneiro no aprendizado emocional social e design thinking. Desde 1967, a escola usa sem método do aprender fazendo e aprender por cuidar. Sua sala de aula é invertida, onde os estudantes são estimulados a explorar, experimentar e colaborar através de pequenos e grandes grupos.
    http://www.nuevaschool.org/

    Lumiar: na Tijucs! Na escola não há um currículo fixo, onde as áreas do conhecimento são contempladas por meio de Módulos de Aprendizagem, Oficinas e Projetos, colocando o aluno como agente ativo do seu processo de aprendizagem. Professores exercem o papel de tutores e mestres (onde mescla-se profissionais de educação com profissionais das mais diversas áreas). Há encontros semanais (chamados de Roda) promovidos entre tutores, funcionários e estudantes para uma auto-avaliação constante etc. E adivinha? Também utilizam o PBL.
    http://lumiar.org.br/

    Nossa, tem muitas ainda..mas se ficar escrevendo todas capaz de passar a tarde fazendo isso..hahaha. De qualquer forma, a mensagem que eu queria passar era: nosso sistema educacional está mudando, saindo daquela visão de séc XIX e indo para uma mais moderna, adaptada às necessidades atuais dos alunos e do mercado. Sem dúvidas, o Escotismo é um apoio tremendo na educação de crianças e jovens e deveria ser mais divulgado (o que para mim não acontece por conta de alguns aspectos – conversa de bar), mas o que posso perceber hoje é que alguns elementos que são aplicados no Escotismo (e outros programas educativos/ongs/etc) conseguiram ser extraídos e implementados em várias escolas ‘diferenciadas’ pelo mundo afora (como citei uma delas, as PBL, onde os alunos aprendem por meio das experiências, pelo aprender fazendo), tornando-se um verdadeiro sucesso!

    Curtido por 1 pessoa

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