Um Conto de Putin

por Franco Alencastro

2014 foi um bom ano para Vladimir Vladimirovich Putin: Com a ajuda de separatistas ucranianos, anexou o território da Criméia à Rússia, dando à Moscou o controle de um território que perdera em 1991. A economia russa emergira nos anos anteriores como uma das maiores do globo, em conjunto com o grupo dos BRICS, que ameaçava a hegemonia econômica dos EUA, contra quem o líder russo parecia querer travar uma nova Guerra Fria. Popular, amado, admirado e temido para seu povo, Vladimir Putin era cada vez mais reconhecido como um exemplo de liderança no mundo todo, um líder forte e autoritário, um modelo a ser seguido.

Foi então com confiança no futuro que Vladimir Putin foi dormir no dia 24 de Dezembro, mas não antes de uma bela ceia russa: Um belo prato de Schchi, Estrogonofe, Pelmeni, Piroshki, Salada Russa e de sobremesa: Sharlotke!
Toda aquela comida, no entanto, ia claramente causar algum efeito deletério, e foi assim que, no meio da noite, Putin começa a suar e ouvir coisas: sussurros nos corredores do Kremlin.

-Quem está aí? – pergunta Putin, ajeitando seu gorro.

-Ora, não me reconhece? – diz uma voz risonha, com forte sotaque ucraniano.
-Mas… espere um pouco… essa é a voz do Camarada Brejnev – diz Putin, tremendo de medo.
-É exatamente quem eu sou, paspalho! – grita Leonid Brejnev, 3o Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética. Não era o Brejnev que Putin conhecera, no entanto: este estava verde, sua pele puída e encardida, seu crânio aparecendo em alguns pontos da cabeça.
-Ca-Camarada Brejnev! O que é isso? O que faz aqui?
-Cale-se, Vladimir! Estamos no dia 24 de Dezembro, e você sabe o que isso significa?
-…Não, na verdade não.
-Tolo! É Natal! E isso significa que é hora de mais um pastiche de “Um Conto de Natal” de Charles Dickens! E eu tenho uma notícia para você! Eu sou… o fantasma dos Natais passados!
-Caro Brejnev, Tem dois problemas nisso: primeiro, eu sou Ortodoxo, e portanto eu festejo o Natal no dia 7 de Janeiro. Segundo, você é ateu, você não acredita no Natal.
-Detalhes. Agora siga-me, Vladimir, e eu mostrarei você os Natais passados… mais especificamente, 1980!
A contragosto, Putin segurou a mão de Brejnev, e ele o levou pela janela. Eles voaram pelo céu de Moscou até aterrissarem em um local familiar: um grande estádio, onde o urso Mischa iniciava sua jornada ao céu.
-Uau! As Olímpiadas de Moscou! Fantasma, isso é fantástico! – disse Putin, vendo os atletas desfilarem.
-Mais ou menos, Vladimir. Esse estádio pode ser só glória e fogos de artifício, mas um ano antes, como Secretário Geral, eu ordenei a invasão do Afeganistão. Enquanto isso, nossa pujante economia utilizava a renda do petróleo para sustentar nossos gastos militares, mas o que não sabíamos é que os preços inflados pela OPEP em breve começariam a cair, fazendo secar essa fonte de renda.
-Sim, e daí?
-Faça as contas, Vladimir. Aventuras dispendiosas de política externa, renda baseada no setor da energia, nada disso te lembra qualquer coisa?
-Fantasma, Você vai perder o urso Mischa!
-Affe. Certo, eu fiz o meu trabalho. Está na hora de deixar você com meu colega.
-Seu… colega?
Putin se virou, e Brejnev desaparecera. O estádio a sua volta começou a se esvair, e subitamente ele estava em uma planície arenosa, pontilhada por toda a parte por poços de petróleo.
-Que lugar horroroso! Onde estou? Cadê os fogos de artifício?
-Welcome to Pennsylvania, dipshit – disse uma voz atrás de Vladimir.
-Quem disse isso? – perguntou Putin, e atrás dele, estava o Presidente Barack Obama.
-Obama! Seu canalha! O que faz aqui?
-Não é óbvio? Eu sou o fantasma dos natais presentes. Bem-vindo à América, 2014. Sabe onde estamos?
-Na Pensilvânia, segundo você mesmo.
-Melhor. Aqui é onde retiramos o gás de xisto. A América vai ter autossuficiência energética, motherfucker!
-Hah, veremos.
-Putin, é sério que você não vê o problema nisso? Sua política externa se baseia em chantagear os europeus fechando a torneira de gás para eles te deixarem fazer o que quer na Europa Oriental. Se o Ocidente arranjar uma outra forma de esquentar os chuveiros e a comida, você não acha que vai ficar com problemas?
-Eu não vejo onde quer chegar.
-Dammit, você é cabeça dura. Veja, vou te levar para outro lugar.
A Pensilvânia ficou para trás, e Putin se viu em uma enorme sala, cheia de monitores – mas vazia. Um único homem estava lá, sentado, chorando, o rosto enterrado nas mãos.
-O que houve com esse sujeito? Porque ele chora? Senhor, porque está triste? – pergunta Putin ao homem.
-Ele não pode te ouvir, Putin. Você está na MICEX, a Bolsa de Valores de Moscou. Esta é a noite após mais um ataque especulativo. Esse homem acabou de perder milhões que apostou no Rublo. Dentro de duas horas, ele irá cometer suicídio.
-O que?! Não é possível!
-As sanções e a especulação estão danificando sua economia, Putin. Ano que vem, vocês terão uma recessão. Suas aventuras irresponsáveis também provocaram grandes perdas financeiras.
-Mas… eu consegui recuperar a nossa economia. o que isso significa? Voltaremos aos tempos do Iéltsin?
-Isso é algo que você precisará perguntar ao Fantasma dos Natais Futuros, Putin. Farewell!
Obama desapareceu, e Putin novamente se viu sozinho – agora, na Praça Vermelha. Algumas pessoas estavam na rua: mal-vestidas, estavam reunidas em torno de fogueiras em latas de lixo. Putin passou por uma das paredes do Kremlin, crivada de balas.
-Minha bela Moscou… O que aconteceu? – diz, de coração apertado.
Uma mão lhe encosta o ombro. Vladimir se vira: é um homem já idoso, com um tapa-olho. Exceto pelo tapa-olho, o reconhece: é Vladimir Zhirinovsky, político nacionalista fundador do Partido Liberal Democrata.
-Vladimir! Meu xará! O que está acontecendo? Não, espera. Deixa eu adivinhar. Você é o Fantasma dos Natais Futuros.
-Poxa, nem precisei me apresentar. Mas é, sou sim – disse Zhirinovsky, coçando seu tapa-olho.
-O que houve com o olho?
-Perdi na revolução. Mas tudo bem, agora eu integro o Comitê de Segurança Pública.
-Revolução? Que revolução?
-Ora, Putin, atualize-se. Com os ataques especulativos e a queda do preço do petróleo, a economia russa entrou em derrocada. Logo logo, os tempos sombrios dos anos 90 voltaram: Desemprego, Falências, o valor do Rublo em queda livre, os Backstreet Boys com um CD novo…
-Meu Deus! E, perdoe a pergunta, mas… e eu? O que aconteceu comigo?
-Ora, Putin, você sabe como é. A política externa e a imagem de líder durão são legais e tal, mas precisam estar baseadas em alguma coisa. Elas de nada adiantam se a economia russa está naufragando e as pessoas não tem o que comer. Terras na Ucrânia não alimentam ninguém, embora sejam de fato bem férteis…
-Responda, velho! O que aconteceu comigo?
-Bom… como o líder da Rússia quando tudo começou a dar errado, você naturalmente virou um alvo. A insatisfação foi crescendo mais e mais, e… Se quer saber seu destino… olhe para cima, mas eu não recomendaria.
Putin, a despeito do aviso, olhou para cima. Sobre os muros do Kremlin, estava um mastro, mas nele não tremulava a bandeira russa. Havia lá uma corda, e, pendurado na corda pelo pescoço, estava um homem. Putin logo reconheceu quem era.
-Não, não pode ser, NÃO!
Putin acordou. Ainda estava em sua cama no Kremlin, usando sua camisola e gorro. Andou até a janela, e respirou aliviado: era um lindo dia, e Moscou não estava crivada de balas, e, no mastro, a bandeira russa ainda tremulava.
Ainda.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s