Sobre o atentado à Charlie Hebdo e a comoção popular

por Thaís Queiroz 

Como a maioria dos que estão conectados à internet ou a qualquer canal de televisão do país já sabem, ontem, dia 7 de janeiro de 2015, 12 pessoas foram assassinadas por dois homens armados e outras onze ficaram feridas na França, mais precisamente na edição da Revista Charlie Hebdo, mundialmente famosa (segundo o que as notícias dizem, é claro, pois eu, na minha humilde ignorância, não tinha nunca ouvido falar) por seu humor baseado em sátiras religiosas e políticas.

O que se registra é que o atentado foi realizado pelos dois homens islâmicos pois a revista satirizava o Profeta Maomé, sagrado na religião muçulmana (aos que não sabem, assim como Jesus é sagrado para os católicos, para os muçulmanos Maomé, apesar de não ser Deus, como Cristo o é, é sagrado, uma vez que é o profeta que recebe a palavra de Deus na Terra) e a religião islâmica em si.

A partir disto, manifestações enormes surgiram em diversas cidades francesas e outras da Europa pela dor das famílias dos mortos e feridos e pelo terror que assolou a França. Protestos contra violência sem sentido, extremismo, terror e em prol da liberdade da expressão. Das redes sociais, nem é necessário falar (principalmente porque imagino que para estar lendo isto você provavelmente estava no facebook e portanto deve ter lido no mínimo algum comentário a respeito do que aconteceu). A hashtag #jesuischarlie (“Eu sou Charlie”) inunda milhares de posts no Facebook e declarações no Twitter mostrando apoio à liberdade de expressão da revista, indignação com a violência, ou assombro com o repentino ato terrorista.

A hashtag #jesuisahmed (“eu sou Ahmed”) refere-se ao policial muçulmano que morreu na ação e acompanha manifestações virtuais que algumas vezes até vão contra a revista, exaltando o policial como herói que, mesmo tendo sua religião, seu Deus e seu profeta satirizado, defendia a liberdade que a revista tem de fazê-lo, num bom estilo voltairiano¹.

Não espere de mim qualquer tipo de defesa dos terroristas ou do que ocorreu! Não, extremismo é perigoso, é desumano, é desprezível, mata e causa sofrimento. Sou contra, tenho medo, sinto dor no peito e tenho o sono roubado algumas vezes ao pensar em rodamoinhos de consequências e causas de extremismos. Mas vejo, sim, alguns ângulos que devem ser problematizados.

O primeiro diz respeito à revista. Quando dizem “mas eles sabiam o risco que estavam correndo por mexer com os muçulmanos” estamos indo perigosamente no mesmo caminho do “mas também, ela se veste desse jeito e não quer ser estuprada”. Os jornalistas deveriam, sim, poder manter sua liberdade de expressão sem correr riscos, bem como as mulheres deveriam poder andar nas ruas exercendo sua liberdade de ir e vir vestidas da maneira que se sintam confortáveis sem serem estupradas. Só quero chamar a atenção para a diferença entre sátira e ofensa. Mais uma vez, não estou defendendo ou justificando nenhum atentado terrorista, que isto fique bem claro. Mas também não vamos louvar a revista! Como tenho visto frequentemente. Afirmar “je suis Charlie”  é defender algumas publicações ofensivas que não necessariamente ficam apenas no humor. Se colocar no lugar destas pessoas é sempre um movimento interessante. E se ofendessem aquilo que acreditas? Digo, de verdade. Como você se sentiria? Mais uma vez, isso não justifica qualquer ato terrorista, mas não louvemos a França e a revista por sua “gloriosa, incrível e respeitável liberdade de expressão”.  Não esqueçamos que a lei francesa, por exemplo, restringe o uso de véus, hijabs, niqabs e burcas por mulheres em determinados estabelecimentos na França. Isto não é também restringir liberdade? Sugiro apenas cautela. E reflexão. Afinal, quem sou eu para afirmar algo a este respeito aqui da minha longínqua e segura casa do outro lado do oceano.

Isto nos leva ao outro ângulo que eu gostaria de chamar a atenção. A velha, constante e insistente mania que desenvolvemos (ou fomos treinados a ter, eu diria) de demonizar o islã ou o não ocidental. Os franceses e o mundo têm o direito de estarem comovidos e em choque. O que aconteceu foi terrível. Só não esqueçamos que o mundo tem 137 milhões de Km² de terra, com outros 7 bilhões de habitantes. Usemos este momento para lembrar também de quantos são assassinados diariamente no Iraque, na Síria, no Líbano, na Líbia etc por aqueles que esquecemos de enxergar os defeito nessas horas, quando são comparados “à barbárie islâmica”, nossos amados ocidentais, nós. Isto não isenta os dois assassinos do atentado à Charlie Hebdo, em nenhum momento, de coisa alguma. Mas lembremos que a barbárie não é unilateral. E que revidar com “mais bombas”  não salva ninguém de lado nenhum. E não dá mais honra a ninguém. E não trás reconforto para ninguém. Pelo contrário, só incentiva esta barbárie e fomenta mais desejo de vingança e extremismo.

 

1 – a frase “Eu desaprovo o que dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” é atribuída ao iluminista Voltaire, mas é registrada em uma correspondência escrita a ele (e não por ele). Evelyn Beatrice Hall é quem a teria escrito.

Anúncios

8 comentários sobre “Sobre o atentado à Charlie Hebdo e a comoção popular

  1. Pingback: Após Charlie Hebdo: e agora? | O Furor

  2. Eu queria saber, é sobre os 4 judeus mortos no supermercado pelos comparsas deles. Esses não fizeram charge alguma, morreram por simplesmente serem judeus. Vc não acha q aí já é um caso de expor que essa reação é fruto do ódio enraizado e não um ódio reativo?
    Vale lembrar não foi um caso isolado, pq em 2012 teve o caso do muçulmano que metralhou crianças em uma escola judaica em tolouse e ainda o rabino esfaqueado em 2013.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s