Após Charlie Hebdo: e agora?

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

           Eu estava na França quando o atentado aconteceu. Não em Paris, mas mesmo assim pude sentir e ver um pouco da reação do povo francês. A minha amiga Thaís já falou bastante sobre o que aconteceu no seu post do dia 08 de janeiro[1], por isso, gostaria aqui de mostrar só um pouco do que eu presenciei e do que eu acho que pode acontecer.

           O nordeste e o norte de Paris são as áreas mais pobres da cidade. É também lá onde mora grande parte dos imigrantes árabes, indianos e africanos. Eu passei por essa área de carro agora pouco, perto de Porte de la Chapelle. É outra cidade. Aqueles bulevares grandes, com uma arquitetura própria e tradicional, prédios históricos, o luxo e as luzes são substituídos por prédios cinza, feios, calçadas pequenas, sujeira e lojas com letreiros em línguas bem diferentes do francês e alfabetos diferentes do nosso. Além disso, as pessoas mudam fisicamente, todos se tornam claramente estrangeiros. É impossível não se notar a diferença. A impressão que eu tive foi que os imigrantes vivem isolados da Paris dos franceses em guetos. Isso mostra uma tremenda dificuldade do francês (e do europeu de um modo geral) de integrar os estrangeiros, principalmente os pobres e de culturas completamente diferentes.

           Uma das coisas que eu ouvi na viagem foi que na Europa você é o que os seus antepassados foram, logo dificilmente você se tornará europeu. Isso é facilmente observado, desde a utilização do jus sanguinis (lei/direito do sangue) [2] para determinar a nacionalidade dos nascidos no país (o que significa que a nacionalidade é a do seu antepassado, nunca a do lugar onde se nasce) até a formação desses guetos, de onde não se tem muita possibilidade de sair. Como consequência, imigrantes de segunda, terceira e quarta geração continuam sendo considerados estrangeiros, já que legalmente não são europeus e continuam vivendo nesses bairros afastados quase que segregados do resto da população, muitas vezes com problemas para conseguir emprego e com pouco dinheiro.

           A situação ficou pior ainda com a crise de 2008, quando muitos europeus perderam os seus empregos. Isso fez com que o sentimento de xenofobia (“medo” do de fora) aumentasse, intensificando os movimentos contra os imigrantes. O raciocínio era que se os estrangeiros fossem expulsos, haveria mais empregos (mesmo que fossem com remuneração baixa) e o Estado teria mais dinheiro para manter o Estado de Bem-Estar Social (que é muito grande na Europa). Porém, a Primavera Árabe, a guerra civil síria, a pobreza no Norte da África e as guerras e conflitos no Oriente Médio só tem aumentado o número de imigrantes e refugiados na Europa. Isso passa a ser um problema para os Estados, já que eles têm que, mais ou menos, cuidar dessas pessoas. Mais uma vez, isso gera problema com a população, que tem medo de perder os seus direitos e empregos.

           As coisas já não iam bem, mas após os atentados ao Charlie Hebdo, a tendência é piorar bastante. Desde o acontecido, menos de uma semana, mais de 50 atos anti-muçulmanos ocorreram na França[3]. Os ministros do interior de vários países na Europa já disseram que vão reforçar o controle sobre as suas fronteiras, o que poderia levar, inclusive, a uma suspenção temporária do Espaço Schengen (tratado que permite a livre circulação de pessoas entre os países sem a necessidade de controle de fronteiras e de passaporte) [4]. Além disso, na Suíça foi proposta uma lei que proibiria a entrada de asilados muçulmanos da Síria e do Iraque no país com o intuito de evitar que atos terroristas também acontecessem lá. A oposição disse que isso não só não resolveria o problema como o pioraria, já que o sentimento de ódio e de “caça às bruxas” iria aumentar[5].

           Devo dizer que talvez a oposição suíça tenha razão no caso do ataque ao Charlie Hebdo. Tanto os irmãos Kouachi quanto Amedy Coulibaly são considerados imigrantes, porém nascidos na França. Chérif e Said Kouachi são filhos de argelinos, mas nasceram em Paris e foram criados em Rennes (Bretanha) [6], enquanto que Amedy é de uma família senegalesa e nasceu em Juvisy-sur-Orge, subúrbio da capital francesa[7]. Entretanto, acredito eu, eles nunca foram enxergados como franceses, isso lhes deve ter trazido problemas financeiros graves e preconceito. O acontecido no dia 7 de janeiro é apenas um exemplo de como um problema de integração social pode levar ao desastre. Porém, não acredito que isso justifique o uso da violência.

           Eu detesto radicalismo, tanto político quanto religioso, por isso, espero que a Europa comece a mudar a sua política com relação ao estrangeiro da mesma forma que eu espero que o imigrante flexibilize o seu pensamento quando ele estiver no país dos outros e aceitem a cultura e vida local e que ambos parem com os discursos de ódio. Para isso acontecer, vai demorar bastante tempo. Mesmo assim, não é algo impossível. A escravidão já passou por algo similar e depois de alguns séculos de luta, hoje, escravizar é algo impensável em quase todas as culturas. O que se precisa fazer é um trabalho de educação, que se inicie nas escolas primarias visando incutir valores, como os de inclusão, solidariedade e de aceitação com o próximo. Isso, obviamente, não pode parar nas escolas, mas se estender de tal forma que esses valores sejam ensinados em casa.

           Porém, falar, criticar e dar pitaco na ação e política europeia é muito fácil, principalmente do Brasil onde esses problemas não existem (tanto o de segregação do imigrante quanto o do terrorismo). Não podemos nos esquecer de que os europeus lutam contra os muçulmanos desde o tempo das Cruzadas (pelo menos), ou seja, desde bem antes do Brasil ser descoberto. Logo, o problema com o Islã é muito mais antigo que se normalmente pensa. Além disso, em um tempo de crise e de aumento do número de ataques e ameaças terroristas, a Europa é constantemente lembrada pelos muçulmanos de como ela pode estar vulnerável e como o oriente pode ser perigoso, vide o que aconteceu em Tours[8], Dijon[9] e Nantes[10] no final de dezembro. Quanto mais atentado tiverem, mais isso vai piorar. Logo, as políticas não devem mudar apenas na Europa, mas também no Oriente Médio e no Norte da África, não só para que esses países também lutem contra o terrorismo como também para aqueles valores que eu descrevia acima sejam ensinados nas escolas (outra tarefa dificílima, já que poderia bater com a religião). Mudar as políticas na Europa só terá efeitos se os Estados muçulmanos fizerem o mesmo, ambos precisam fazer essa transformação do contrário tudo irá para o ralo. Se isso vai acontecer, só o tempo nos dirá. A situação é tão complicada que pode demorar décadas ou até séculos para tudo se resolver. Espero estar errado.

Referências:

[1] QUEIROZ, Thaís. Sobre o atentado à Charlie Hebdo e a comoção popular. O Furor, Rio de Janeiro, 8 jan. 2015. Disponível em: <https://ofuror.com/2015/01/08/sobre-o-atentado-a-charlie-hebdo-e-a-comocao-popular/>. Acesso em: 10 jan. 2015.

[2] Em outros países como no Brasil e nos EUA se usa o jus soli (lei/direito da terra/solo), ou seja, aqueles que nascem se tornam automaticamente nacionais do país.

[3] CHARLIE Hebdo: Plus d’une cinquantaine d’actes antimusulmans en France. Tribune de Genève, Genebra, 12 jan. 2015. Disponível em: <http://www.tdg.ch/monde/cinquantaine-dactes-antimusulmans-france-/story/22771887>. Acesso em: 12 jan. 2015.

[4] AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS. Contra o terrorismo, UE propõe controle das fronteiras e da internet. Folha de S. Paulo, São Paulo, 11 jan. 2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/01/1573593-contra-o-terrorismo-ue-propoe-controle-das-fronteiras-e-da-internet.shtml?cmpid=compfb>. Acesso em: 12 jan. 2015

[5] ZUERCHER, Caroline. Attentat contre Charlie Hebdo: La polémique démarre en Suisse. Tribune de Genève, Genebra, 9 jan. 2015. Disponível em: <http://www.tdg.ch/suisse/polemique-demarre-suisse/story/13912628>. Acesso em: 9 jan. 2015.

[6] BAUME, Maïa de la; HIGGINS, Andrew. Two Brothers Suspected in Killings Were Known to French Intelligence Services. The New York Times, Nova York, 8 jan. 2015. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2015/01/08/world/two-brothers-suspected-in-killings-were-known-to-french-intelligence-services.html?_r=1>. Acesso em: 11 jan. 2015.

[7] BIRNBAUM, Michael. Attack suspect was known to French authorities. The Washington Post, Washington D.C., 9 jan. 2015. Disponível em: <http://www.washingtonpost.com/world/europe/attack-suspect-was-known-to-french-authorities/2015/01/09/573bfc8c-9829-11e4-927a-4fa2638cd1b0_story.html>. Acesso em: 11 jan. 2015.

[8] ‘ALLAHU Akbar’ attacker shot by French police. BBC, Londres, 20 dez. 2014. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-europe-30563920>. Acesso em: 12 jan. 2015.

[9] FRANCE Dijon: Driver targets city pedestrians. BBC, Londres, 22 dez. 2014. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-europe-30571911>. Acesso em: 12 jan. 2015.

[10] COOK, Lonzo; HADDAD, Margot; MULLEN, Jethro. Van plows into pedestrians at Christmas market in France. CNN, Atlanta, 23 dez. 2014. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2014/12/22/world/europe/france-dijon-vehicle-attack/>. Acesso em: 13 jan. 2015.

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6 comentários sobre “Após Charlie Hebdo: e agora?

    • Nós temos, mas a minha impressão é que na Europa ele é muito mais forte. Lá não só existem esses bairros como também movimentos sociais e políticos para expulsar o imigrante como se ele fosse um tipo de praga.

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      • Não vejo eles como sendo mais fortes, mas talvez mais descarados… Não há fingimento de que há aceitação… Muitos dizem que o racismo nos Estados Unidos é mais forte que no Brasil… Não, não é… A questão é que lá (na Europa e no Estados Unidos) eles não escondem seus preconceitos como ocorre no Brasil… Mas o Brasileiro também olha torto para uma mulher mussulmana quando vê ela de véu, ou para um imigrante Boliviano que trabalha em situação de escravidão em um confecção em São Paulo, ou para um imigrante Haitiano refugiado que pegou um ônibus durante dias para ir do Acre a São Paulo, ou gostaria de expulsar um suposto “migrante nordestino” por ele supostamente ter uma visão política diferente da sua… Essa é nossa vida, esse é nosso clube…

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    • Bom, na minha opinião os movimentos xenófobos são muito maiores na Europa que aqui. De uma forma, o Brasil foi feito de imigrantes. Nós sempre convivemos com o estrangeiro e em todas as partes do pais, do alemão e italiano no Sul ao holandês e africano no Nordeste. E mais, tanto por conta da nossa legislação quanto até pela nossa cultura, quem nasce aqui se torna brasileiro, deixa de ser estrangeiro, passa a ser incorporado na sociedade de uma maneira que não existe lá fora. E, ao serem brasileiros, eles passam a ter os mesmos direitos de qualquer um que possui antepassados desde antes da chegada dos portugueses, como educação e saúde públicas.
      No Saara aqui no Rio, por exemplo, judeus, muçulmanos, cristãos, turcos, sírios, libaneses, chineses, japoneses, negros, brancos e índios convivem muito bem é em harmonia até porque todos são brasileiros e ninguém está replicando nenhum discurso de ódio para ninguém ou de segregação (pelo menos não que eu saiba).
      É claro que aqui não é perfeito, nenhum lugar é, mas ainda acho que nós temos uma relação muito melhor com o imigrante que o europeu. Lá, além dos partidos e movimentos políticos e sociais, existe uma real vontade de excluir e de marginalizar o estrangeiro, de uma forma que eu não imagino que exista aqui. Quando se “olha torto” para o muçulmano, pode não ser necessariamente desejando a sua expulsão, mas um olhar de curiosidade (afinal, acredito que seja humano notar/perceber o diferente).
      Bom, pelo menos essa é a minha opinião.

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  1. Pingback: Graça, Privilégio e o Poder do Luto: ainda sobre a Charlie Hebdo | O Furor

  2. Cara, mto bom no seu texto, que vc fala sobre mudar a educação muçulmana.
    Esse sistema atual só cria mais potenciais terroristas! Essa de jihad , califado e shariah já deu o que tinha q dar.
    Se continuar assim, com os muçulmanos “explodindo” demograficamente em guetos pela europa na crença de retomar o califado, a unica solução vai ser dividir a frança em 2, um estado françês e outro muçulmano. E isso vai vale pra todos os países da europa.
    Pq nada justifica que a frança venha sofrendo atentados dessa forma. O cara sair atirando em um jornal, e na mesma semana 4 judeus são assassinados por serem judeus! Por mais minoria q seja a ala radical, uma minoria de 6 milhões de muçulmanos franceses ainda são muitos e o silencio ensurdecedor desta maioria é perigoso, eles deveriam ser os primeiros a se manifestarem! E não foi o que aconteceu.

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