Graça, Privilégio e o Poder do Luto: ainda sobre a Charlie Hebdo

por Marina Sertã

Sei que já faz mais de uma semana do atentado, e que isso é muito mais do que aguentamos discutir um acontecido internacional. Mas como Obama, Hollande e as mesas de boteco mundo afora não cessaram seus discursos e o número das vítimas das medidas islamofóbicas conta-terroristas cresce de maneira alarmante, achei que talvez ainda fosse tempo de me inserir no debate.

Duas observações, então, são necessárias:

Liberdade de expressão é um direito, não uma frivolidade. E sendo a falta dela uma característica marcante dos regimes ditatoriais, vamos tomar cuidado com a sua flexibilização.

Em momento algum a minha intenção é de qualquer forma desrespeitar o luto acerca da morte das 12 vítimas do ataque à redação da revista. Assassinato é um crime inimaginável e de nenhuma forma eu procuro qualquer justificativa para a retirada da vida de uma pessoa.

Tendo isso dito, o que não pode passar desapercebido são as inúmeras medidas levadas a cabo em nome do luto. Isso de maneira alguma é estranho a nós, já que há pouco mais de 10 anos assistimos a invasão de dois países e tantas outras medidas islamofóbicas contra-terrroristas levadas a cabo em nome do luto e medo. E só nesta semana já pudemos ouvir histórias do aumento da islamofobia da França , sejam elas de caráter público ou particular.

E essa é a questão pra mim: discursos têm efeitos palpáveis nas vidas das pessoas, construções identitárias têm efeitos palpáveis nas vidas das pessoas. E a Charlie Hebdo é descuidada e irresponsável em relação aos discursos de ódio que ela reforça e propaga sobre muçulmanos, cristãos, católicos, judeus e tantas outras identidades que ela retrata. Esse era o meu problema com je suis Charlie. Je ne suis pas Charlie!! E eu não vou deixar que o luto glorifique estas mensagens de ódio e desrespeito.

Eu gostaria de compartilhar um documentário que me ajudou muito a pensar sobre o acontecido:1

Uma coisa que me chamou muito a atenção foram as colocações sobre quem faz o humor e sobre quem é o humor. (pra quem não tiver paciência, pode avançar até os 21:44 do vídeo) Porque é fácil fazer graça sobre o pobre, o preto, o viado e a puta. Qualquer um vai achar graça. Mas esses discursos têm um efeito! Eles pintam uma imagem do objeto da graça como menos merecedor de respeito, como menos que humano. Esse ponto diz muito sobre o lugar que nós ocupamos na sociedade e as “responsabilidades” que esses lugares trazem.

(lembrando: O que aconteceu às 12 vítimas do ataque à Charlie Hebdo é horrendo e hediondo.)

Fui, então, procurar quem compõe a equipe da revista. Havia mulheres ou não-franceses? Claro! Entre as vítimas, essas minorias são representadas por Elsa Cayat, autora da coluna Divã de Charlie, e Mustapha Ourrad, o redator da revista.2 Mas eu não fiquei surpresa ao encontrar uma maioria esmagadora de homens brancos de meia-idade. E qual é o problema nisso? O problema pra mim quando homens brancos que não têm sua posição social, sua sexualidade ou extrato bancário questionado, que escrevem do conforto de seus escritórios em Paris, fazem graça sobre minorias, eles não têm ideia do efeito que têm. E, por favor, a mensagem aqui não é contra homens brancos heterossexuais abastados de meia-idade, mas contra a sua irresponsabilidade em relação ao poder que têm e a utilização desse poder para reforçar os preconceitos existentes, ao invés de quebrá-los.

No Documentário, essa discussão foi em torno da “piada” do Rafinha Bastos sobre estupro. Na Charlie Hebdo, o link que eu disponibilizei da compilação de charges é só um aperitivo das mensagens de preconceito que a revista passava sob o título de liberdade de expressão ou humor. Em ambos os casos, os interlocutores podiam muito bem não querer incitar o estupro3 ou a islamofobia4. Mas de nenhuma forma eles poderiam ter emitido estes discursos sem esperar que afetariam a realidade. De modo algum eles poderiam esperar que, de seus lugares privilegiados da sociedade, seus discursos não incitassem o ódio ou a violência. Piadas de estupro só servem pra reforçar práticas tão horrívelmente comuns no Brasil3, e tanto lugares no mundo; e charges islamofóbicas, assim como as que mexem com qualquer outra religião ou identidade, só servem pra reforçar uma França já segregacionista demais (dá uma olhada no post do Sergio sobre isso!).

Frente a esses efeitos tão nítidos dos discursos propagados seja pelo Rafinha Bastos, pelo Danilo Gentili ou pela Charlie Hebdo, como posso eu dizer que sou qualquer um desses? Como posso eu aspirar ser alguém que propaga discursos com consequências tão terríveis? Como eu posso aspirar ser alguém que constrói e reforça identidades que dividem? Depois de ouvir tanto a Paula Sandrin enfatizando a importância de valorizarmos os territórios sobrepostos e histórias entrelaçadas5, como eu posso aspirar ser alguém que destrói as pontes e os laços entre as pessoas, retratando-as cada vez mais distantes?


1.  Este documentário é oferecimento do facebook de uma colega nossa do mestrado (valeu, Ana Paula!).

2. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150108_vitimas_charlie_hebdo_lgb

3. https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=16&cad=rja&uact=8&ved=0CDkQFjAFOAo&url=http%3A%2F%2Fwww19.senado.gov.br%2Fsdleg-getter%2Fpublic%2FgetDocument%3Fdocverid%3D3f6d062e-a91f-446e-99fa-0c5ed5e1dce5%3B1.0&ei=tE65VKC7A8iyggSBpYCgBg&usg=AFQjCNGJJPru7zmLa5-B_g8xYnPOs0iCOA&sig2=eD1TQngUXRkHCCqwcV5A6g&bvm=bv.83829542,d.eXY

http://www.fiepr.org.br/nospodemosparana/uploadAddress/140327___Estupro_no_Brasil_uma_radiografia_segundo_dados_da_saude%5B51345%5D.pdf

http://www.cbnfoz.com.br/editorial/brasil/noticias/27032014-115720-estupro-no-brasil

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/uma-mulher-e-estuprada-a-cada-2-horas-no-rio-diz-pesquisa

4. http://www.islamophobiawatch.co.uk/

http://www.islamophobia.org/

http://www.islamophobiatoday.com/

5. Edward Said. Imperialismo e Cultura. São Paulo: Cia das Letras, 1993.

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3 comentários sobre “Graça, Privilégio e o Poder do Luto: ainda sobre a Charlie Hebdo

  1. Quando se invade um local e se atira em pessoas, perde-se toda a função da relativização. Ponto! Não há, pois, como relativizar mortes.

    No entanto, o ataque à redação do jornal (underground total: uma espécie de revista MAD francesa que muito pouca gente dava atenção e que vendeu horrores à custa do sangue jorrado naquele evento) precisava ser mais bem digerida por aqueles que nos passam informações.

    Concordo com você: Liberdade de expressão é um negócio que precisa ser mantido a todo o custo. Isso, no entanto, não garante que coisas hediondas possam ser proferidas usando-a como desculpa. Em pouquíssimo espaço de tempo vivenciamos eventos que traduzem isso. Desde daquele aloprado Deputado à prisão do chargista francês que “agrediu judeus” com seus desenhos; desde de talk shows com comediantes de quinta proferindo asneiras no Twitter a cada segundo, atacando negros e mulheres, a comentários anônimos em qualquer meio eletrônico de comunicação enaltecendo o fascismo presente na classe média.

    A liberdade de expressão não pode se invocada por todos, não é? – que digam os Assanges e suas vidas presas às embaixadas! Nesse círculo todo, faz-se necessário uma discussão madura e séria sobre a regulação e o papel social da mídia (outro pano para manga, já que regulação é sinônimo de censura para um pessoal com preguiça de informação!)

    Enfim, são temas pulsantes, modernos e que nos revelam o tamanho do abismo que estamos prestes a pular!

    — Leio seus textos e, desculpe as expressões, mas dá um orgulho filha da mãe e uma saudade desgraçada não ter mais você em sala para debater —

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  2. Tenho acompanhado menos que deveria as discussões sobre regulação da mídia, principalmente na internet.

    O que eu tenho visto geralmente fala sobre net neutrality, o que eu entendi ser muito mais sobre direitos autorais do que sobre liberdade da expressão. Algo que tem que ser discutido, dado ao conteúdo enorme que vem sendo lançado em sites de compartilhamento de diversos tipos de mídia, como o youtube, o tumblr, twitter, e até mesmo o facebook.

    Mas acho que talvez essa discussão sobre liberdade de opinião seja mais urgente. Afinal, é um ponto que eu tento fazer no texto que os efeitos materiais desses discursos que circulam livremente pela rede não são só de números subindo ou descendo em uma conta bancária, mas são violências como as que aconteceram na relação da Charlie Hebdo.

    Em tempo, o prazer foi meu em estar nas suas aulas. Queria eu ter tido um professor tão dedicado, que estimula tanto seus alunos a lerem o mundo ao seu redor durante todo o meu ensino médio. Foi mesmo uma pena.

    E muito, muito obrigada mesmo pelas palavras tão generosas. Significam muito!

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    • Então fica já uma sugestão de “pauta”/texto para os você e seus amigos: regulação da mídia, quarto poder, concentração dos meios de comunicação (sobretudo os televisivos) nas mãos de verdadeiras oligarquias, diferenciação entre censura e regulação, papel e função social do canal público (lembrar que a BBC, por exemplo, é pública!) etc.

      Continuado nossa rasgação, você é o exemplo que cito cotidianamente; de esforço, de dedicação e de gente que sabe o que quer. É nítido como você amadureceu ao longo desses anos todos. Quero filhos como você! 😉

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