Pontifex: O Vaticano e a “Construção de pontes”

por Louise Marie Hurel

O objetivo desse breve texto é de trazer o olhar para o Vaticano e as formas pelas quais ele atuou na resolução de conflitos – locais, internacionais, nacionais, regionais, religiosos. Contudo, um enfoque será dado ao papel internacionalizado e intrigante do Papa Francisco frente a esses conflitos. Esse reflexão é uma tentativa de olhar para o retrato multifacetado que a organização e a sua cabeça (o papa) desempenhou, podendo observar as diferenças, congruências e atividades já exercidas.

Mais do que uma entidade puramente religiosa (se é que podemos traçar essa linha), o Vaticano exerceu/exerce uma influência política. Desde a marcante resolução da disputa no Canal de Beagle, até os dias de hoje, pode-se observar alguns eventos importantes que marcaram o papel da igreja católica na resolução de disputas. Por mais difícil que seja definir o que um conflito é, quando começa, quando acaba, quem está envolvido e quem deve estar na mesa de negociação, é possível entende-lo como o produto da diferença e/ou como uma forma de se lidar com a diferença. Tendo isso em mente, olharemos para a relação entre os atritos/conflitos e a grande figura da instituição da Igreja Católica Apostólica Romana: o papa. Até que ponto vai o papel desse protagonista?

Recorrendo à História: O Canal de Beagle

Em meio a formulação e reformulação das fronteiras na América do Sul, Argentina e Chile assinam o Tratado de Fronteiras de 1881 visando definir a demarcação da fronteira sul entre os países. Mal-sucedido, o tratado vai por água abaixo devido a disputa de três ilhas no Canal de Beagle: Picton, Nueva e Lennox. A disputa pela definição de soberania na Tierra del Fuego tornou-se cada vez mais acirrada a ponto de concordarem com a arbitragem da Grã-Bretanha. Soberania marítima/territorial e direitos de navegação eram os temas centrais.

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Fracassada a arbitragem, a Argentina procurava por um mediador neutro e o Chile por um mediador imbuído de tradição, legalidade e respeito às leis internacionais, sendo sua primeira opção, o Vaticano.

A mediação do Vaticano contou com alguns elementos.Mesmo sabendo-se que a mudança de governo na Argentina em 1983 foi crucial para o sucesso da negociação (retorno à democracia), a autoridade moral e poder de barganha (por ser bem visto internacionalmente), que a figura do papal exerceu no impedimento de um escalonamento do conflito (acompanhado de um tratado para estabilizar o conflito em 1978 – Tratado de Montevideo) , o exercício de “shuttle diplomacy” por parte do enviado do papa (Samoré), a “compra de tempo” em períodos de impasse para formular soluções e impedir atrito – manutenção da estabilidade – e a recepção das delegações argentinas e chilenas em Roma que levaria posteriormente à formulação de uma proposta por parte do papa.

Cuba e EUA

A recente reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, com o fim do embargo que vigorava desde 1960, também simboliza o desfecho de uma articulação bem-sucedida por parte do Vaticano. Desde 1998 com a primeira visita papal à Cuba (João Paulo II) – seguida do papa Bento XVI em 2012 –, o Vaticano tem tentando promover o diálogo entre os dois países.

A aceitação da visita de João Paulo II à ilha foi um momento marcante pois não só ressaltou o fato de que mesmo com o bloqueio e o enrijecimento das instituições do país, a igreja continuava tendo algum tipo de autonomia institucional na promoção da sociedade civil, mas que a visita de Raul Castro em 1996 ao Vaticano havia sido retribuída com a oportunidade do pontífice visitar Cuba. Além disso, apesar das condições para as negociações não terem sido favoráveis e maduras nesse momento, o contato, o laço entre Cuba e o Vaticano havia se fortalecido e isso construíra uma ponte crucial para futuras negociações.

Em 2013, mais uma vez, o papa, agora Francisco, pisou em terras cubanas. Algum tempo depois começou a trocar cartas com Obama e Raúl para retornar o diálogo entre as partes. Sucedeu-se então, um encontro diplomático entre ambos sediado pelo Vaticano.

Considerações

A figura do papa Francisco certamente vem fortalecendo a imagem da Igreja Católica e do Vaticano como um todo. As recorrentes viagens, a diplomacia religiosa exercida as críticas vindas do próprio líder à sua instituição como uma forma de apontar os erros internos para prosseguir são elementos importantes para a construção do entendimento de que essa figura, mesmo sendo religiosa, pode ser vista como uma “bridge-builder”, ou seja, como uma instituição que conecta em meio às diferenças. Seguindo esse caminho, será que podemos pensar no papa como uma figura potencialmente mediadora de conflitos?

Pope Francis waves to crowds as he arrives to his inauguration mass on 19 March 2013.

Em sua visita a Lampeduza em 2014 o papa afirmou:

“a cultura de bem-estar leva-nos a acreditar em nós mesmos, torna-nos mais insensíveis ao clamor dos outros, vivemos em bolhas de sabão que são bonitas, mas nada mais, são a ilusão do fútil, do provisório, que leva à indiferença para com os outros, a globalização leva à indiferença […] Estamos acostumados com o sofrimento dos outros, não nos afeta, não nos importamos, não cabe a nós”

O líder politico-religioso, assim como qualquer outra líder, tem um papel importantíssimo na determinação do favorável ou desfavorável desenrolar da negociação. Sendo assim, creio que a figura papal tem o seu potencial enquanto carregada pelo papa Francisco. O mérito conferido ao papa Francisco nas negociações entre Cuba e EUA foram um dos primeiros frutos que já se começa a colher. Sua visão aponta para a inserção e reposicionamento do Vaticano não só em relação ao modus operandi interno da instituição (15 Pragas da Santa Sé e Alzheimer Espiritual), bem como um player importante nos assuntos e na diplomacia global. Proativo e determinado, os discursos e pronunciamentos do Papa Francisco tem angariado maiores repercussões. A mídia, redes sociais e sites como esse que você acessa agora acabam sendo propulsores dessa figura. Isso abre alas para que o seu potencial como mediador/”bridge-builder” seja propagado, ao mesmo tempo que o coloca nos holofotes internacionais, ressaltando, portanto, a necessidade de maior cautela em suas atitudes e discursos. Intrigante, enigmático e simpaticamente envolvente… papa Francisco.

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