Epitáfio Saudita

por Carol Grinsztajn

     Quem se deparou com as condolências dos grandes líderes mundiais na ocasião da morte do Rei Abdullah da Arábia Saudita  possivelmente ficou em dúvida se quem havia morrido era mesmo o monarca absoluto de um país onde mulheres são negadas direitos básicos e apedrejamentos são punições cotidianas. O rei foi chamado de “modernizador” “comprometido com a paz”, “um homem de sabedoria e visão” e um “amigo genuíno”.  Tudo isso na mesma semana em que a Arábia Saudita aparecia nas manchetes do mundo pela pena de chibatadas de um blogueiro oposicionista e pela decapitação de uma mulher acusada de matar a enteada.  Essas contradições levantam questões sobre um país dirigido por uma elite político-religiosa que segue uma das linhas mais fundamentalistas do islã, bem como sobre as relações entre a Arábia Saudita, seus vizinhos regionais e seus aliados ocidentais.

     A história da família real se confunde com a própria formação do Estado saudita. A atual dinastia é descendente do clã dos Saud. No final do século XVIII, o  líder do clã, o rei Abdul Aziz, sela uma aliança com Muhammad ibn Abd al-Wahahab- o fundador da corrente Wahabista do islã. A doutrina wahabista se baseia na ideia de um passado glorioso da sociedade muçulmana, ao qual os líderes devem buscar retornar; prevê a obrigatoriedade de se submeter a um rei absoluto; promove o estudo dos textos sagrados; e, promove a visão de que todos aqueles que não cumprissem com os seus preceitos seriam considerados takfir- herege- e poderiam ser perseguidos e punidos- pois ainda que se dissessem muçulmanos, eles seriam, na verdade “falsos muçulmanos”. (1). A relação simbiótica entre o clã Saud e Al-Wahab construiu as bases político-religiosas do atual Estado saudita. As batalhas, saques e assassinatos durante as conquistas eram agora enquadrados como parte da jihad (esforço) contra o takfir (herege)- um propósito justo e elevado (2)

     Com a independência do reino em 1933, foi coroado Abdel Aziz (o tatara-sobrinho-neto do Abdel Aziz que citamos acima), e após sua morte em 1953, 5 dos seus filhos assumiram o trono, respectivamente. Com a morte de Abdullah, Salman- seu meio irmão- será o sexto. O novo rei Saudita tem 79 anos e a preocupação em manter uma geração já debilitada para governar preocupa em relação à manutenção da estabilidade política da maior economia do mundo árabe em um contexto de grande turbulência no Oriente Médio (não que a região tenha lá grandes períodos de estabilidade).

      Internamente, ele enfrentará desafios como o processo de diversificação da economia, a redução do desemprego e o descontentamento de diversos grupos. Uma nova elite amplamente instruída e qualificada se encontra sem perspectiva, em uma economia dominada pela exportação de petróleo bruto- principal fonte de renda de um governo que por não depender de contribuintes, não se vê obrigado a atender suas necessidades e se mantém em desvantagem quando comparada a outros países do Golfo. Além da situação econômica, as liberdades civis e as condições de direitos humanos em geral são bastante controversas.  Demonstrações de oposição vêm sido duramente reprimidas. Descontentamento emana também dos 15% de xiitas sauditas, que recebem tratamentos de cidadãos de segunda classe no país e frequentemente têm suas demandas oprimidas. Acredita-se, no entanto, que Salman seja bastante conservador, sendo, portanto, pouco provável que realize grandes reformas políticas e sociais (4).

     Externamente, dificuldades incluem combater o Estado Islâmico, balancear seu grande rival regional, o Irã, e controlar o preço do petróleo  e administrar as tensões no Iêmen (3). Suas próprias questões internas, entretanto, demonstram as contradições de sua política externa e a de seus aliados. O próprio rei Salman possui um amplo registro de suporte a organizações extremistas durante seu mandato como governador da província de Riad, especialmente no Afeganistão nos anos 80 e na Bósnia nos anos 90- inclusive, na época, a Al Qaeda (que depois viria a se transformar em ameaça para os sauditas)(6).

      Atualmente, a Arábia Saudita é parte da coalizão liderada pelos EUA para combater o Estado Islâmico. Enquanto isso, chibatadas e decapitações são consideradas punições acima de qualquer debate ou interpretação, diferente de outros países muçulmanos que aplicam pelo menos parte da Sharia na vida pública (5). Na verdade, a ideologia do próprio Estado Islâmico é amplamente baseada na doutrina Wahabista, igualmente reverenciando um passado mítico, um califa central e justificando saques, assassinatos e conquistas de territórios através do jihad contra o takfir.

     A conclusão óbvia dessa contradição é a hipocrisia tanto saudita quanto dos seus aliados de coalizão. Enquanto o Estado Islâmico é o “bárbaro”, o rei saudita é o “amigo da paz” (obviamente essa crítica se aplica a diversas práticas que vão contra os direitos humanos em todos os países da coalizão, e está longe de isentar o Estado Islâmico de culpa por suas práticas terríveis). A conclusão não tão óbvia é de que, apesar de que frequentemente ideologias e valores são deixados de lado em nome do interesse na política internacional, muitas vezes são essas mesmas ideologias e valores que formam as suas condições de operação. A política internacional acontece em uma arena na qual certos atores são legítimos e outros nem tanto, e na qual o tempo todo agentes são autorizados e desautorizados. A família real saudita  e sua amistosa relação com os mesmos países que condenam o Estado Islâmico é a representação mais concreta desse privilégio. Não veremos críticas, coalizões, nem resoluções da ONU contra o governo saudita. Apenas condolências ao velho e boas vindas ao novo amigo da paz.

(1) http://www.huffingtonpost.com/alastair-crooke/isis-wahhabism-saudi-arabia_b_5717157.htm

(2) BRICHS, Fernando Izquierdo. Poder y Regímenes en el Mundo Árabe Contemporáneo. Barcelona: Fundación CIDOB, 2009.

(3) http://www.foreignaffairs.com/articles/142809/bilal-y-saab/saudi-arabias-way-forward

(4)vhttp://www.aljazeera.com/news/middleeast/2015/01/prince-salman-bin-abdul-aziz-al-saud-2015168325196385.html

(5) http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2015/01/badawi-burmese-woman-beheaded-saudi.html

(6)http://foreignpolicy.com/2015/01/27/king-salmans-shady-history-saudi-arabia-jihadi-ties/?utm_content=buffer06ac1&utm_medium=social&utm_source=facebook.com&utm_campaign=buffer

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