Alexis Tsipras contra o Ciclope Neoliberal

     por Franco Alencastro

     Lar das grandes tragédias do teatro, a Grécia tem vivido nos últimos anos uma tragédia bem diferente: Seu PIB desmoronou, passando de 341 bilhões de dólares em 2008 a 240 bilhões em 2014[1], e o país está no centro da turbulência que se convencionou em chamar, no dia a dia, de “crise econômica”, sendo talvez o país que mais emblematicamente naufragou nesse período, adquirindo um passivo que se revela a cada dia mais impagável[2], e vivendo com isso uma verdadeira crise social, em alguns aspectos pior até do que a Grande Depressão[3]. Se a Europa é o continente que mais foi atingido pela crise econômica mundial, com vários países tendo ainda, 6 anos depois, taxas de desemprego na faixa de 2 dígitos, a Grécia é o país que mais vem sofrendo em toda Europa. Para pagar a dívida que o país adquiriu com a ‘Tróika’, nome dado a uma tríade formada pelos países da zona do Euro, o Banco Central Europeu e o FMI, os sucessivos governos de George Papandreou, Lucas Papademos e Antonis Sâmaras – vale notar que, como muitos países em crise econômica e social, a crise grega se alastrou para a política, com vários governos se alternando diante da difícil situação do país, sem poder fazer muito – tem levado a cabo medidas de austeridade visando reequilibrar as contas do governo, sob o olhar auspicioso da Tróika, mas que tem aumentado o sofrimento da população, com cortes nos salários, diminuição da parte do orçamento dedicada aos programas sociais e cortes nos serviços públicos[4].

     A vitória do partido SYRIZA – sigla em grego que significa ‘Coalizão da Esquerda Radical’ – talvez não devesse, então, ter vindo como uma surpresa para muita gente, excetuando-se talvez alguns burocratas em seus confortáveis escritórios em Bruxelas. Formado originalmente por verdes, maoístas e comunistas de muitas vertentes, o SYRIZA entrou em cena em 2004, ano das Olimpíadas de Atenas e numa época em que a Grécia era apontada como um caso bem sucedido de integração de um país mais pobre na União Européia. O vento não soprou em sua galé e o SYRIZA foi mandado para as coxias, recebendo apenas cerca de 3% dos votos. Com o início da crise econômica mundial em 2008, porém, a popularidade do partido cresceu dramaticamente, sobretudo quando o PASOK, principal partido da oposição quando a crise estourou, entrou em uma coalizão com a Nova Democracia, que venceu as eleições de 2012. Para referência, PASOK significa “Movimento Socialista Pan-helênico”; o maior partido de esquerda, assim, entrou em coalizão com o maior partido de direita para aplicar um programa de austeridade desenhado por tecnocratas estrangeiros.

     Isso plantou a semente da vitória do SYRIZA, com 149 das 300 cadeiras no parlamento grego. O partido capitalizou em cima dos grandes protestos contra a austeridade imposta pelo governo e por Bruxelas. O seu líder, Aléxis Tsipras, é, aos 40 anos, o segundo mais jovem primeiro-ministro da história da Grécia. Um jovem primeiro-ministro para um movimento jovem: o SYRIZA é o partido mais popular entre a faixa de idade dos 18 aos 34 anos[5]. Na Grécia, como em outras partes da Europa, a crise atingiu particularmente os mais jovens, que, tendo menos experiência, tem tido ainda mais dificuldade que outros grupos em encontrar um emprego. Os jovens são figura fácil nos protestos anti-austeridade: é a Geração Ninja – no income, no jobs, no assets – sem renda, sem emprego, sem ativos.

     Seria a vitória do SYRIZA então a coroação dos protestos da massa Indignada global? De Reykjavik ao Cairo, de Wall Street a Barcelona, nós vimos esses protestos adquirirem grandes proporções, criando slogans bacanas e vendendo muitas máscaras do V de Vingança, é verdade, mas no final vinha a pergunta: E amanhã? Amanhã vai ser maior, diziam. Em alguns lugares, como a Islândia e a Tunísia, os protestos surtiram algum efeito; a democracia tunisiana pouco a pouco surge dos escombros da ditadura de Ben Ali e a Islândia pôs a julgamento os banqueiros considerados como culpados pela crise. Mas, na maioria, dos casos, os manifestantes encontram, nos principais partidos políticos e até na esquerda tradicional ouvidos moucos. There is no Alternative, parecem dizer tanto a centro-esquerda e a centro-direita, reprisando o tenebroso ditado thatcheriano. O único caminho para sair da crise é a austeridade. Qualquer outro caminho é um sonho irresponsável. Os próximos anos serão duros e precisaremos cortar muitos dos seus direitos, mas é para o seu próprio bem.

     SYRIZA: a vitória pelo voto da esquerda radical, no coração histórico da democracia ocidental? Qualquer eleição na Grécia, devido ao seu papel histórico único, está fadada a atrair comentários desse tipo. Mas apontaria a Grécia mesmo o futuro da Europa? Pode não parecer, mas a Grécia se encontra em uma situação bastante favorável para negociar sua dívida. Isso porque um calote grego significaria para a Tróika uma facada de centenas de bilhões, e jogaria mais merda no ventilador da recuperação econômica, ainda bem lenta. Como diz o ditado: se você me deve 10 reais, você tem um problema; se você me deve 1 milhão de reais, eu tenho um problema. A balança nas negociações, se não pende a favor da Grécia, pelo menos dá a ela um peso desproporcional diante de titãs econômicos como a Alemanha (e seu peso aumenta ainda mais quando se consideram as freqüentes discussões sobre a saída total da Grécia da zona do Euro e da União Européia, que, vale notar, já foi negada várias vezes por políticos do SYRIZA, cautelosos em afirmar seu comprometimento com a manutenção da união[6]). Os acordos para a renegociação da dívida grega já ganharam apoio da França de François Hollande, que, por mais cínico que seja dizer isso, de fato parece bem mais com um líder e menos com um esquenta-banco para Marine LePen desde que os atentados ao Charlie Hebdo o obrigaram a personificar a unidade nacional, e a França do contrapeso socialista ao governo pró-austeridade de Ângela Merkel, pelo qual muitos esperavam em 2012, finalmente parece estar se materializando. A vitória do SYRIZA facilitou para que líderes da “esquerda tradicional” finalmente tivessem mais margem de manobra, e aumenta as perspectivas eleitorais de partidos semelhantes, apoiados nos “Indignados”, como o Podemos, na Espanha.

     Os desafios do SYRIZA são, portanto, os desafios de qualquer partido radical quando chega ao poder. Pode um partido radical efetivamente participar da democracia? Política envolve negociações, toma-lá-dá-cá, concessões e palavras bonitas sobre aliados. Não acredito que um partido radical pode efetivamente chegar ao poder em uma democracia liberal sem que ocorra alguma substituição do sistema político. O SYRIZA parece apontar nessa direção – o Programa Thessaloniki, escrito no final de 2014 e que mostra as linhas gerais das propostas do SYRIZA[7], fala de uma “democratização do sistema” – sem dúvida passando pela democracia mais representativa, o que se enquadraria na desilusão da geração mais jovem com a democracia representativa tradicional. Mas, mesmo sem entrar no mérito de se isso seria positivo, quais as reais possibilidades de isso se dar? O SYRIZA provavelmente terá que se adequar às realidades de ser o maior partido de uma democracia liberal – não tendo sequer a maioria, é preciso dizer, e precisando fazer uma aliança com o partido nacionalista de extrema-direita dos Gregos Independentes, que apóia, entre outras coisas, uma política anti-imigração e o fim do multi-culturalismo, além de um sistema de educação baseado nos valores da Igreja Ortodoxa Grega[8]. Dificilmente algo que o próprio SYRIZA apoiaria, e resta assim saber quanto tempo durará essa aliança, ou, para ser breve, o governo em si. O primeiro-ministro Tsipras tem um caminho árduo pela frente, e se resistir às tentações típicas de partidos radicais – reformar o sistema não para dar mais poder a cada cidadão e sim para centralizá-lo em torno de seu partido, ou, talvez pior, converter-se em mais um partido das negociatas típicas da política com ‘p’ minúsculo – poderá conseguir, no horizonte imediato, termos favoráveis de redução de sua dívida com a Tróika e aliviar consideravelmente o sofrimento da população grega, e, em um horizonte mais distante, marcar a real chegada da esquerda ao poder na Europa, transformando a União Européia em uma verdadeira união solidária, baseada no respeito aos direitos humanos e sociais e na democracia e não em imperativos de superávit no orçamento. Tsipras tem chance, assim de marcar a história da Europa. Resta saber como vai ser amanhã.
Eu espero que amanhã seja maior.

BIBLIOGRAFIA:

1) Dados do FMI, acessíveis aqui: http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2014/02/weodata/weorept.aspx?pr.x=95&pr.y=1&sy=2012&ey=2019&scsm=1&ssd=1&sort=country&ds=.&br=1&c=124%2C138%2C174%2C184&s=NGDPD%2CNGDPDPC%2CPPPGDP%2CPPPPC&grp=0&a=

2) A dívida grega atingiu 174% do PIB em 2014. Os dados, obtidos no site Trading Economics, são creditados ao Eurostat. http://www.tradingeconomics.com/greece/government-debt-to-gdp

3) Este artigo, no site britânico Business Insider, compara principalmente os efeitos sociais da crise para chegar à conclusão de que em alguns países (dentre eles a Grécia) a situação é análoga, senão pior, à da grande depressão. http://www.tradingeconomics.com/greece/government-debt-to-gdp

4) Esse artigo, no The Independent, se debruça sobre alguns dos efeitos mais inesperados da austeridade. http://www.independent.co.uk/news/world/europe/tough-austerity-measures-in-greece-leave-nearly-a-million-people-with-no-access-to-healthcare-leading-to-soaring-infant-mortality-hiv-infection-and-suicide-9142274.html

5) http://www.publicissue.gr/en/1689/greek-elections-6-2012-voter-%20demographics

6) Tsipras declarou que a Grécia “permanecerá na Zona do Euro”. http://en.enikos.gr/media/22203,Tsipras:_A_Syriza_government_will_repres.html

7) O Programa Thessaloniki pode ser lido aqui: http://www.syriza.gr/article/id/59907/SYRIZA—THE-THESSALONIKI-PROGRAMME.html

8) Este artigo se debruça mais nas polêmicas posições tomadas pelo partido Gregos Indpeendentes. http://www.independent.co.uk/news/world/europe/independent-greeks-who-are-syrizas-rightwing-coalition-partners-and-what-do-they-want-10003224.html

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