Deixar-se afundar

por Marina Sertã

Estudar RI (crítica) é frequentemente encontrar-se paralizada em um mar questionamentos sobre intervenção. É encontrar-se imóvel, diante de uma muralha intransponível de pontos de interrogação. É sentir-se afogada em questões como as que nos apresentam Naeem Inayatullah ou Maja Zehfuss naquelas dilacerantes perguntas em “Why do some people think they know what’s best for others?” e “What can we do to change the world?”. Presa no turbilhão.

E talvez por medo de nos perdermos nesse mar, por medo de afundarmos e nunca mais encontrarmos a superfície, por medo de nunca mais respirarmos, nós resistimos. A cada vez que parecemos submergir nesse oceano de dúvidas, paradoxos e tensões, seguramo-nos a um senso de responsabilidade, como que nos segurando a uma boia. Somos rápidos demais ao fecharmos nossas conversas – e consequentemente as portas dessas questões – com um “São vidas! Pelo amor de Deus! Alguém (nós) tem(os) que salvá-las!”

E, agora, em toda a sabedoria dos meus 22 anos e toda a minha experiência de nem a graduação completa, não consigo não rir desse senso de responsabilidade. Por que nós nos seguramos tão desesperadamente a uma responsabilidade que sequer somos capazes de cumprir? Qual é o refúgio que nós encontramos nesse senso de urgência que nunca conseguimos alcançar?

Fico pensando se esse senso de responsabilidade, essa necessidade de afirmar que “o bem” deve triunfar sobre as dúvidas não é o que nos impede a tomarmos o tempo que realmente precisamos para explorar essas questões. Penso que talvez o primeiro passo desse caminho seja deixar-se submergir, perder-se nas perguntas, nas aflições, nas contradições. Deixar-se perder nas incertezas, nos rodamoinhos, nas perguntas. Deixar-se submergir, perder o ar, afundar.

Afinal, se aprendemos alguma coisa nesse curso, é que o nosso caminho sempre deve começar pelo simples ato de questionar.

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