O Revanchismo Jordaniano

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão

            Desde o ano passado o mundo ouve falar do grupo terrorista Estado Islâmico (EI ou ISIS, sigla em inglês para Islamic State of Iraq and Syria), como ele atua, financia seus ataques, rapta seus inimigos e mata inocentes. Isso levou os EUA a liderarem uma coalizão de mais de 30 países que atacam as posições desse grupo no Iraque e na Síria e/ou enviam ajuda financeira e humanitária para a região[1]. Porém, sob fortes desaprovações, a Jordânia (que faz parte dessa coalizão) decidiu negociar unilateralmente com o ISIS, a vida de um piloto jordaniano por uma mulher-bomba iraquiana. Alguns dias depois, dia 03/02/15, ficamos mais uma vez chocados quando as negociações falharam e foram postadas imagens na Internet do piloto sendo queimado vivo. Isso levou a resposta jordaniana de iniciar novos e mais enfáticos ataques ao grupo nos dois países que eles atuam.

            A linha do tempo dessa tragédia é mais ou menos esta: Sajida al-Rishawi, a mulher-bomba iraquiana, foi presa em 2005 em Amã (capital da Jordânia) após um atentado na cidade. A Al-Qaeda reivindicou o ataque. Al-Rishawi foi condenada a morte por terrorismo, mas apelou da sentença[2]. O ISIS surgiu como uma dissidência do grupo anterior, por ser considerado muito radical, e desde o ano passado tem preocupado grande parte dos líderes mundiais. Historicamente, a Jordânia é uma aliada do Ocidente, sendo hoje um dos poucos países árabes a terem reconhecido o Estado de Israel[3]. Por isso, e para evitar o radicalismo islâmico em seu país (o que traria desordem política e problemas com os vizinhos[4]), o país se juntou à coalizão norte-americana contra o grupo e iniciou os seus ataques em setembro de 2014[5].

            O Primeiro Tenente Moaz al-Kasasbeh, o piloto jordaniano, atacava as bases do ISIS na Síria quando ele foi capturado em dezembro do ano passado[6]. Um mês depois, dois japoneses, Haruna Yukawa e Kenji Goto, foram capturados pelo grupo, que pediu 200 milhões de dólares para libertá-los. O governo japonês respondeu que não negociaria com terroristas e a resposta foi a decapitação de Yukawa quando o prazo estimado pelo grupo expirou[7]. Uma nova proposta então foi feita pela vida de Goto: 100 milhões de dólares, Sajida al-Rishawi e manteriam o 1º Ten. Kasasbeh vivo. O governo jordaniano respondeu que só a libertaria se eles soltassem o piloto[8]. Isso levou a criticas por parte dos EUA, que adotam uma postura de não negociar com terroristas[9]. Ao mesmo tempo, crescia na Jordânia uma insatisfação popular pelo governo fazer parte da coalizão e muitos desejavam que o seu país deixasse de lutar em outro Estado[10]. Porém, depois de vários pedidos por parte de Amã para que o ISIS desse provas de que o 1º Ten. Kasasbeh estava vivo[11], a data limite se esgotou. No dia 31 de janeiro são liberadas imagens de Goto morto e no dia 03 de fevereiro o famoso vídeo é postado no Twitter[12].

            Logo depois do vídeo ser liberado, a inteligência jordaniana afirmou que o piloto na verdade fora assassinado no dia 03 de janeiro[13]. Mesmo assim, o ISIS quis negociar a “sua vida” por uma terrorista, mexendo com os sentimentos de muitos jordanianos, principalmente com os a família do 1º Ten. Kasasbeh. Isso gerou ondas de protestos na Jordânia, com a população pedindo “a cabeça” de al- Rishawi. Pediam revanche. No dia seguinte ao vídeo, Sajida al-Rishawi e Ziad Karbouli (iraquiano condenado em 2007 por terrorismo) foram executados[14]. Além disso, um porta-voz do governo jordaniano afirmou que a resposta do seu país seria “forte, de fazer a terra tremer e decisiva” [15]. Pelo visto, ele não estava brincando, já que a Jordânia realizou pelo menos 56 ataques ao ISIS na Síria desde o dia 03, tendo como foco: campos de treinamento, depósitos militares e quartéis[16]. Infelizmente, o grupo afirma que um desses ataques matou Kayla Mueller, uma refém norte-americana. A sua morte foi confirmada pelo Presidente Obama hoje, dia 10/02/15 [17]. Mesmo assim, o apoio jordaniano à coalizão é muito importante do ponto de vista estratégico e militar. Não só o país está próximo das áreas controladas pelos terroristas como também representa hoje cerca de 20% do efetivo militar da coalizão que está lutando contra o grupo na Síria[18].

            Depois de tudo isso, o que eu acho? Será que a Jordânia fez bem em aceitar negociar com o ISIS? Será que o país ao aumentar os ataques na Síria não poderia estar piorando a situação? Pessoalmente, acho que a resposta às duas questões é não. Eu acho que a Jordânia não deveria ter negociado com um grupo terrorista em primeiro lugar. O professor Max Abrahms da Northeastern University em Boston, especialista em grupos militantes, disse que ao negociar se está dando credibilidade ao grupo e incentivando novos sequestros[19] e eu concordo com ele. Quanto mais os governos cederem às demandas desses grupos, mais agressivos eles vão se tornar e maiores as demandas serão. Não podemos nos esquecer do Acordo de Munique[20] nem do seu resultado, a 2ª Guerra. Não quero que isso se repita. Ao mesmo tempo, infelizmente, esse episódio mostra que o ISIS não foi capaz de negociar para alcançar um objetivo. O 1º Ten. Kasasbeh já estava morto quando a proposta foi feita, de acordo com a inteligência jordaniana, o que mostra que, infelizmente, não se pode acreditar nele. Eu acho que a resposta de Amã foi condizente com o acontecido e não vejo como ela poderia ter sido diferente. Ao mesmo tempo, ao pé que as coisas estão, eu não vejo como elas poderiam piorar (espero estar certo, porque se elas piorarem vai ser muito ruim para toda a região).

            O ISIS tem conseguido cada vez mais surpreender e chocar as pessoas. Depois de decapitar vários reféns, eles queimam vivo outro e fazem jogos psicológicos com as famílias. Em face desses crimes que em teoria só poderiam ser julgados por pouquíssimas organizações internacionais, como o Tribunal Penal Internacional (que não tem poder nem no Estado sírio nem no iraquiano já que ambos nunca o assinaram), o que se pode fazer? O ISIS não é um Estado (pelo menos eu não o considero, por mais que ele queira dizer que sim), logo, em teoria, tratados e convenções de Direitos Humanos não se aplicariam. Mesmo assim, os governos sírio, iraquiano, jordaniano, japonês, norte-americano, francês, inglês e etc deveriam ter o direito de proteger os seus cidadãos (mesmo que deles próprios). Além disso, o que eles fazem não pode ir para a gaveta de “é uma questão de religião/cultural então precisamos entender ao invés de fazer algo”. Vários clérigos muçulmanos no mundo já se manifestaram dizendo que o que esse grupo faz não é o que é pregado pelo Islã nem está de acordo com a religião[21]. Por isso, eu acho que os EUA e todos os mais de 30 países que fazem parte da coalizão estão certos em lutar contra esse grupo e eles não podem parar de fazê-lo. Infelizmente, eu não acho que seja possível derrota-lo da mesma forma que se derrota um país em uma guerra, veja o exemplo da Al-Qaeda que continua existindo mesmo depois da morte dos seus principais líderes. Mesmo assim, eu espero duas coisas:

  1. Que o ISIS seja enfraquecido de tal forma que deixe de ser uma ameaça quase que global;
  2. Que os EUA e os países da coalizão não se aproveitem desse conflito e da situação para mais uma vez se meter de mais nos assuntos internos do Oriente Médio, o que traria mais instabilidade para a região e mais grupos terroristas se formariam alegando estarem “se protegendo dos intrusos externos e infiéis”.

 

Referências:

[1] DRENNAN, Justine. Who Has Contributed What in the Coalition Against the Islamic State? Foreign Policy, Arlington, 12 nov. 2014. Disponível em: <http://foreignpolicy.com/2014/11/12/who-has-contributed-what-in-the-coalition-against-the-islamic-state/>. Acesso em: 8 fev. 2015.

[2] SABIN, Lamiat. Who is Sajida Mubarak Atrous al-Rishawi, the female suicide bomber at the heart of ‘Isis’ Japanese prisoner swap plan? The Independent, Londres, 24 jan. 2015. Disponível em: <http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/who-is-sajida-mubarak-atrous-alrishawi-the-female-suicide-bomber-at-the-heart-of-isis-prisoner-swap-plan-10000572.html>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[3] Na verdade, dos países da região, apenas o Egito e a Jordânia o fizeram.

[4] Mais especificamente Israel. Vale lembrar que algo parecido aconteceu no início da década de 70, quando o Rei da Jordânia expulsou o Yasser Arafat e a Organização para a Libertação da Palestina por usar do seu país para atacar o Estado hebraico. Essa expulsão foi chamada de “Setembro Negro”.

[5] DRENNAN, loc. cit.

[6] JORDAN pilot hostage Moaz al-Kasasbeh ‘burned alive’. BBC, Londres, 3 fev. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-middle-east-31121160>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[7] GRAHAM-HARRISON, Emma;MALIK, Shiv. Shinzo Abe: claims of Haruna Yukawa’s murder by Isis appear genuine. The Guardian, Londres, 24 jan. 2015. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/jan/24/japan-attempts-verify-isis-hostage-beheading-video-yukawa>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[8] ABI-HABIB, Maria; MA’AYEH, Suha; MARTIN, Alexander. Jordan Prepared to Exchange Prisoner for Pilot Held by Islamic State. The Wall Street Journal, Nova York, 28 jan. 2015. Disponível em: <http://www.wsj.com/articles/jordan-prepared-to-swap-prisoner-for-pilot-1422433868>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[9] Id., Ibid.

[10] Id., Ibid.

[11] BOTELHO, Greg; FORD, Dana. Jordan executes prisoners after ISIS hostage burned alive. CNN, Atlanta, 4 fev. 2015. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2015/02/03/world/isis-captive/>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[12] JORDAN…, loc. cit.

[13] BOTELHO, Greg; FORD, Dana. Loc. cit

[14] Id., Ibid.

[15] AL-KHALIDI, Suleiman. Islamic State shows burning of hostage, Jordan vows ‘earth-shaking’ response. Reuters, Londres, 3 fev. 2015. Disponível em: <http://www.reuters.com/article/2015/02/03/us-mideast-crisis-killing-idUSKBN0L71XE20150203>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[16] COCKROFT, Steph. Jordan launches 56 revenge airstrikes against ISIS after terror group released video showing Jordanian pilot being burned alive. Daily Mail, Londres, 8 fev. 2015. Disponível em: <http://www.dailymail.co.uk/news/article-2944842/Jordan-launches-56-revenge-airstrikes-against-ISIS-terror-group-released-video-showing-Jordanian-pilot-burned-alive.html>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[17] US ISLAMIC State hostage Kayla Mueller confirmed dead. BBC, Londres, 10 fev. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-middle-east-31375445>. Acesso em: 10 fev. 2015.

[18] ISLAMIC State crisis: Jordan air strikes ‘destroy’ IS hideouts. BBC, Londres, 8 fev. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-middle-east-31252341>. Acesso em: 9 fev. 2015.

[19] ABI-HABIB, Maria; MA’AYEH, Suha; MARTIN, Alexander. Loc. cit.

[20] Acordo entre Alemanha nazista, Itália fascista, Inglaterra e França cedendo o território dos Sudetos (que eram da Tchecoslováquia) a Hitler em 1938. Hoje em dia, é usado como expressão quando se tenta apaziguar um agressor atendendo as suas demandas.

[21] ASSOCIATED PRESS. Muslim clerics denounce ‘savage’ Isis murder of Jordanian pilot. The Guardian, Londres, 6 fev. 2015. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/feb/06/muslim-clerics-denounce-jordanian-pilot-execution-kasasbeh>. Acesso em: 9 fev. 2015.

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