Voz(es)

por Marina Sertã

Estou fazendo um apanhado de algumas teorias pelas quais eu gostaria de ler algumas questões da minha monografia. É um processo duplo de reconhecer como eu leio e/ou gostaria de ler esses problemas e buscar autores que reflitam isso e também de visitar alguns autores e identificar neles leituras que eu gostaria de aplicar aos meus problemas. Até aí ótimo! É o que as teorias deveriam fazer mesmo, não é? Ajudar a ler o mundo.

Eu comecei esse processo com alguns autores que o meu orientador (o Paulinho!) me recomendou, e fui abrindo o leque a outros que eu fui percebendo que seriam úteis também. Eu vou falar do Estado, de identidades/organizações políticas e colonialismo na Somália. Então, comecei pelo Bartelson, fui pro Campbell e o Muppidi, e aí resolvi que queria explorar também o Said e me vi puxando a Cynthia Weber, relendo um texto dela pra a ideia de um texto que tive aqui pro blog.

E aí, devagarzinho, página por página, autor por autor, foi tomando conta de mim uma aflição. A maioria desses autores pelos quais eu quero ler esses problemas estão no Programa da disciplina de Teorias II que o Paulinho deu pra nós do Furor. E mesmo em outros autores, eu ouço claramente a voz dele e de outros professores. E foi tomando conta de mim uma sensação agonizante de marionete. De que essa não é uma monografia da Marina. Essa é uma monografia do Paulinho, da Paula Sandrin, do Sérgio, da Marta, da Maira, do Brancoli, do IRI inteiro, que seja, ou mesmo dos professores que contribuíram para minha formação antes, como o Rafael e o Fernando. De que tudo o que eu for ler vai ser sempre pelas vozes deles, tudo o que eu interpretar, vai ser sempre pelos termos deles. Afinal, que outras ferramentas eu tenho?

E eu sei que esse é só uma sensação que eu vou ter que acostumar e lidar com durante todo esse processo. Porque ainda está cedo demais pra que eu consiga desenvolver uma leitura, uma voz, própria. Mas assusta. Assusta que tudo que eu tenha na minha cabeça são vozes, que eu não tenha a minha voz.

E não estou reclamando do meu repertório. Cantar como a Idina Menzel, como a Lea Michele ou até mesmo como a Barbra Streisand seria maravilhoso. Mas elas já existem. E eu sempre tive uma voz muito distinta. A primeira coisa que a minha voz sempre foi, foi diferente, única. Nem sempre bonita, muitas vezes nem afinada, mas indiscutivelmente minha. Então, me assusta  (me agoniza, me apavora, me confunde, me incomoda) muito ser como outras pessoas, mesmo que sejam tantas pessoas, mesmo que sejam pessoas que eu admiro tanto. Porque o que me assusta é, mesmo que por enquanto, ser tantas vozes que não a minha.

Anúncios

4 comentários sobre “Voz(es)

  1. O que é ser “eu”?

    O ser unique não é aquele que é inédito em sua totalidade ou até em questões pontuais, mas aquele que em meio aos processos constantes de construção e descontrução, desenvolvem a combinação única de nós mesmos. A mistura dentro de cada um é sempre parecida e díspar ao mesmo tempo. Hoje falo como uma aluna que está sendo influecniada por algumas vozes, mas isso não quer dizer que essas vozes significam e são interpretadas por mim da mesma maneira que para você. Umas são mais fortes, outras menos, algumas são da sua infância, outras do futuro “eu” que você quer ser.
    Somos únicos em particulares universais do Walker, somos eus em interesses do Walt, somos o ser em RIs autobiográficas e somos o “estamos sendo” em performativamente.

    Quem sabe, pensamos e questionamos sobre o eu por querermos ser algo mais, por querermos construir nossa casinha confortável, aconchegante e segura do eu, do eu “único”. Sejamos únicos em nossas congruências, incongruências e finalmente em nossas “misturas do eu”.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Não sei responder a você, Louise. Só vou ler e reler e reler e reler o seu comentário e agradecer muito por ele. Acho que você me entendeu e deu algum conforto às minhas questões.
    E acho que você me permitiu continuar com elas, não resolvê-las e então abandoná-las, mas encontrar algo que me fizesse levar seus questionamentos à frente.
    Muito obrigada!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s