Tudo que você precisa saber sobre a crise hídrica em 2 páginas ou menos

por Felipe Teixeira

Com o retorno de período de chuvas, é possível pensar que o pior da crise hídrica já passou e podemos ficar tranqüilos. Só. Que. Não.

Com reservatórios ainda em volumes críticos, a situação se mantém digna de atenção. O sistema de Cantareira, protagonista da crise hídrica em São Paulo, ainda opera em 10%[1] da capacidade. Estamos encarando a possibilidade de diluir água de uma represa poluída no sistema Cantareira para aumentar o volume de água no abastecimento.[2] Vale lembrar que o volume morto – de água que não deveria ser utilizada – já serve ao abastecimento público.

O que presenciamos hoje é o colapso de um sistema altamente ineficiente e uma situação que não vai se alterar sem mudanças estruturais. Para não repetir a história, devemos entendê-la. Por isso, aqui vai o guia:

Crise Hídrica Para Leigos

Aumento populacional não veio acompanhado de atualizações no sistema. O problema não foi falta de aviso. Há 37 anos que todos estavam avisados que ia faltar água em algum momento próximo ao fim do século XX. 14 anos depois a previsão tardou mas não falhou.[3] O crescimento das regiões metropolitanas das grandes cidades – principalmente São Paulo levou ao aumento considerável do número de consumidores integrados ao sistema.

A crise foi varrida para debaixo do tapete por conta de outras prioridades e eleições. Enquanto os governos focavam em mostrar resultado e realizar campanhas eleitorais os investimentos em tratamento de esgoto e na otimização da distribuição foram preteridos. Dessa forma os jogos políticos continuaram até a estiagem de 2014 jogar os coliformes fecais do volume morto no ventilador. [4]

Há a falta de interesse em renovar onde há vazamentos pois obras subterrâneas e saneamento não conquistam o eleitorado.[5] O lucro político e monetário é maior com obras mais baratas, de expansão do fornecimento. Assim o sistema fornece mais e mais água desperdiçando um volume cada vez maior.[6]

Desperdício de um sistema ineficiente e prejudicado pelo consumo ilegal. Com uma média de 37% de água tratada perdida na distribuição, o Brasil desperdiça mais de um terço de toda água que processa. Essas perdas provém de vazamentos em tubulações que não são remediados ou “gatos” que são ligações irregulares. Embora essas perdas tenham caído 4,1% nos últimos 7 anos o aumento no consumo balanceou o menor desperdício e o superou. [7] Um agravante é que os cidadãos que utilizam “gatos” não pagam pelo serviço e não podem recorrer a ajuda de órgãos públicos no caso de defeito no sistema. Nesse sentido não pagar pela água se torna um incentivo a não poupar enquanto as ligações clandestinas estão muito mais propensas a vazamentos.[8] Mais uma vez, a ineficiência da máquina pública brasileira mostrou seu peso no país.

Embora a ausência de chuvas em 2014 tenha sido determinante, grande parte do problema foi decorrente de má gestão e degradação ambiental.[9] Os desmatamentos da floresta amazônica e da mata atlântica levaram a diminuição do processo em que as árvores transpiram e portanto tornam o ar mais úmido a partir de água do solo. Esse cenário foi provocado pela expansão das malhas urbanas e pela agropecuária intensiva. E não é somente nesse ponto que a prática agrícola predatória é prejudicial, mas também no que polui lençóis freáticos e rios com restos orgânicos e pesticidas.[10]

O adensamento populacional nos leitos dos rios se deu de forma associada ao desmatamento. A degradação decorrente da ocupação pela população ribeirinha afetou as matas ciliares, importantes no ecossistema que alimenta os rios que abastecem a população.[11]

São as matas ciliares que protegem os rios da erosão das encostas. Assim, os rios não ficam assoreados o que significa que perdem sua profundidade com a sedimentação. As florestas próximas as nascentes garantem também a perenidade dos rios e colaboram com os regimes de chuvas.


Referências:

[1] http://www.valor.com.br/empresas/3918120/capacidade-do-cantareira-atinge-10-com-ajuda-do-rio-piracicaba

[2] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/02/1592223-contra-eventual-rodizio-sp-vai-ligar-a-poluida-billings-ao-rio-grande.shtml

[3] http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2014/11/13/um-alerta-de-1977-para-a-crise-da-agua/

[4] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/09/politica/1423507719_304859.html

[5] http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/01/o-brasil-conta-gotas-entenda-as-causas-e-desafios-da-falta-de-agua-que-se-espalha-pelo-pais-4691649.html

[6] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/09/politica/1423508609_720450.html

[7] http://www1.folha.uol.com.br/infograficos/2015/01/118521-agua-no-brasil.shtml

[8] http://noticias.r7.com/sao-paulo/com-desperdicio-e-gatos-sao-paulo-perde-13-da-agua-de-reservatorios-por-ano-31012014

[9] http://radioagencianacional.ebc.com.br/politica/audio/2015-02/especialistas-apontam-raizes-da-crise-hidrica-e-apontam-alternativas

[10] http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/dener-giovanini/crise-hidrica-que-crise-nao-existe-nenhuma-crise-hidrica/

[11] http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2014/11/13/um-alerta-de-1977-para-a-crise-da-agua/

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