O Rio Pelos Olhos de… Julia

por Julia Zordan

            No final desta semana será comemorado o aniversário de 450 anos da cidade do Rio de Janeiro. Assim sendo, decidimos fazer uma semana de posts especiais, onde cada um de nós falará sobre um aspecto da cidade. Para dar início a essa série de posts, hoje eu falo sobre a faceta da cidade que tem estado mais em voga: o Rio de Janeiro como Cidade Olímpica.

            Se no ano que passou o Rio de Janeiro recebeu milhares de visitantes por ser uma das sedes da Copa do Mundo da FIFA, no próximo ano a expectativa é de que ainda mais pessoas venham à cidade para as Olimpíadas. A Copa do Mundo trouxe momentos de ruas fervendo de alegria e animação, com a Fun Fest e com as reuniões e comemorações dos torcedores antes e depois dos jogos, bem como trouxe momentos de ruas completamente vazias, onde os únicos sons que se ouviam eram os “uhs”, “ahs” e gritos de gol nos horários dos jogos. Mesmo quem não gosta de futebol entrou no clima e se rendeu à torcida. Nas Olimpíadas, o clima de mobilização na cidade não deve ser diferente.

            Muito foi feito na cidade para a Copa. Mais ainda está sendo feito para as Olimpíadas. A impressão que temos ao andar pelas ruas é a de que a cidade transformou-se em um grande canteiro de obras. Os transtornos são sentidos no dia-a-dia da cidade, com engarrafamentos-monstro (ainda maiores que os habituais, mesmo aqueles na Niterói-Manilha em direção à região dos lagos às vésperas do carnaval). O cotidiano da cidade tem sido alterado pela aproximação do mega-evento, e são vários os aspectos nos quais isso pode ser verificado. Seja com mais estrangeiros circulando, com novas empresas se instalando na cidade, com o metrô sendo ampliado, com partes da cidade – como a zona portuária – sendo revitalizadas… É fácil perceber que a circulação de pessoas e de capital aumentou consistentemente.

            Mas qual a influência de um evento como as Olimpíadas sobre uma cidade? Com todos os fluxos – de quaisquer tipo que sejam eles, mas principalmente de capitais e de pessoas – que normalmente já vêm no “pacote” de um mega-evento -, não é de se surpreender a conclusão de que o processo de globalização dessa cidade seja intensificado, ainda mais se tal cidade se encaixar no conceito de “cidade global” de Saskia Sassen [5], que são as cidades que são caracterizadas justamente por receber uma grande quantidade de fluxos de várias partes do mundo.

            No caso do Rio de Janeiro, trata-se de uma cidade que naturalmente já recebe e envia um grande fluxo de informações, pessoas, serviços, capitais em geral. Esses fluxos são intensificados a partir do momento em que a cidade passa a ser uma das sedes da Copa do Mundo FIFA e a sede das Olimpíadas e das Paralimpíadas, dado que novas possibilidades de mercado são abertas com a simples escolha da cidade para sediar esses eventos, além de uma maior atenção da mídia internacional para com a vida da cidade e com o que aqui acontece, o que contribui ainda mais para a intensificação desses fluxos. Essa intensificação faz com que a cidade precise se adaptar às exigências desses novos fluxos, como acontece, por exemplo, com as exigências dos órgãos que organizam os mega-eventos que vão acontecer na cidade, como a FIFA e o COI. Por isso reformas nas ruas, nos estádios, nas estruturas de saúde, de transporte, de segurança, etc., são necessárias.

            É justamente com essa ideia de que o capitalismo precisa de um ajuste espacial físico para se renovar e se manter vivo, que trabalha o geógrafo David Harvey [3]. Ele explica que o processo de globalização seria a forma atual da busca do capitalismo – e intrínseca a ele próprio – de reestruturação geográfica para que ele possa se expandir, tendo, assim, condições de se sustentar. Dessa forma, podemos ver o que Harvey explica: os fluxos da globalização demandam mudanças físicas e estruturais, numa dinâmica onde a o fluxo e o fixo se reforçam. Reformas no espaço físico – fixo – da cidade estão acontecendo para que ela possa receber e enviar uma quantidade maior de fluxos, uma demanda reforçada pela realização dos mega-eventos.

          São vários os exemplos dos impactos que a escolha da cidade como sede para estes eventos trouxe para o cotidiano do carioca e de quem por aqui circula: por muito tempo os jogos de futebol foram transferidos do Maracanã para o Engenhão; É necessário tomar novas rotas para chegar ao trabalho, já que uma boa parte do centro da cidade está interditada para a realização de obras, como por exemplo a implementação dos VLTs; novas linhas de metrô estão sendo construídas; linhas de ônibus foram renomeadas, refeitas ou até mesmo descontinuadas – nessa semana mesmo a atendente do consultório da minha médica reclamava comigo que para ir de Curicica, onde mora, até a Barra, onde trabalha, precisa agora pegar o BRT e mais dois ônibus, levando cerca de uma hora e meia no trajeto, ao invés dos anteriores 40 minutos feitos por apenas uma linha de ônibus -; a revitalização da zona portuária; a instalação de UPPs; reformas nos aeroportos, dentre mil outros exemplos que poderiam ser aqui citados.

           Nesse sentido, fica evidente que são vários os custos com os quais os cidadãos cariocas precisam arcar. Mas não trata-se somente de ter que acordar mais cedo para chegar ao trabalho ou de ter que pegar o metrô mais cheio. A presença das forças da polícia nas comunidades traz reações dos criminosos que lá se instalaram, e, consequentemente, espalha e aumenta o medo para a população que vive nessas áreas; várias famílias que viviam na área do porto precisaram ser realojadas pelo governo para que a área pudesse ser revitalizada, e, consequentemente, valorizada. No final, então, fica a pergunta: os ganhos trazidos pela realização desses mega-eventos compensam todos esses custos?

Referências Bibliográficas

 [1] COMPANHIA de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro. Apresentação do Projeto – Porto Maravilha: um sonho que virou realidade. Disponível em: <http://portomaravilha.com.br/web/sup/OperUrbanaApresent.aspx&gt;. Acesso em 07 de jun de 2014

[2] HARVEY, David. A liberdade da cidade. In: Espaço e Tempo. São Paulo, Nº 26, pp. 09 – 17, 2009

[3] HARVEY, David. Globalization and the Spatial Fix. In: Geographische Revue 2, 200

[4] HARVEY, David. O ajuste espacial: Hegel, Von Thünen e Marx. In: A produção capitalista do espaço.São Paulo: Annablume, 2005. Pág. 115-121

[5] SASSEN, Saskia. Elementos da sociologia da globalização. In: ___. Sociologia da Globalização. Porto Alegre: Artmed, 2010. 15-40

[6] SANTOS JUNIOR, Orlando Alves dos. Urban common space, heterotopia and the right to the city: reflections on the ideas of Henri Lefebvre and David Harvey. Revista Brasileira de Gestão Urbana, v.6, n.2, p.146-157, maio-ago. 2014. Disponível em: <http://www2.pucpr.br/reol/index.php/URBE?dd1=12686&dd99=pdf&gt;. Acesso em: 08 de jun 2014

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5 comentários sobre “O Rio Pelos Olhos de… Julia

  1. Julia, acho que o problema da segurança aqui na cidade do Rio de Janeiro, é muito complexa, e passa por fatores críticos de longo tempo, tal como, insipiência de investimentos dos governos em educação, saúde e saneamento básico e que reflui diretamente na condição de vida das pessoas, e por consequência na segurança da população fluminense.

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