O Rio pelos olhos de… Marina

por Marina Sertã

Acho engraçado, porque em várias conversas, eu me pego falando que “moro no Rio, mas não moro no Rio”. É esquisito, e eu nunca fico aqui mais tempo do que o necessário. Sempre vou para a minha cidade logo que acaba a última aula da semana e volto no domingo a noite, para a aula de segunda. No Rio, eu sinto muito mais que estudo, estou, existo, do que de fato moro. Talvez por isso eu queira mostrar pra vocês um Rio que muito, mas inimaginavelmente muito mais que eu, está no limbo. Cheguei aqui ontem (terça, 24/02) e estou voltando agora (quarta, 25/02, no ônibus das 15:57), e vou levar vocês comigo em mais uma dessas visitas relâmpago, e por algumas das minhas memórias, tentando mostrar para vocês este Rio que eu vivencio toda semana. É uma cidade que muda tanto só do caminho da Gávea à Rodoviária, que não se reconhece quando tromba na rua uma com a outra. Um Rio de contrastes tão gritantes, de diferenças tão agudas, que não reconhece em outras partes de si sua humanidade.

março de 2012, PUC – eu, caloura, encantada coma vista desta entrada (foto). A entrada da PUC é geralmente onde acontece minha oração da manhã. Uma olhada para o sol batendo nos arcos do bambuzal na entrada já são o suficiente para me recarregar espiritualmente para o dia. A PUC é uma ilha de paz e tranquilidade no meio da metrópole. É um Rio onde ideias, inovações e descobertas estão em disparada, muito mais que carros e pessoas.

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dezembro de 2013, Leblon – passeando com um amigo pelo Leblon depois de ver um filme, andando pela Afrânio de Melo. Vitrines impecáveis, pessoas bem vestidas, ruas amplas, arborizadas e limpas, e um pôr-do-sol revelando para mim um Rio muito mais cinematográfico que muita produção de Hollywood.

quarta (25/02), 11:45, praça de alimentação do Botafogo Praia Shopping – os garçons estão sentados em uma mesa logo a frente todos têm sotaques nordestinos. Todos os porteiros dos prédios que eu morei e visitei aqui no Rio, também.

Nesse aspecto, o Rio parece uma cidade de castas. Nesta cidade, têm seu lugar muito bem definido tanto os que servem quanto os que são servidos. Servidos não só de comida, bebida, vigilância e limpeza, mas muito bem servidos do bem e do melhor em termos de oportunidades. Melhores escolas, melhores cursos de língua, dança, música, teatro, esportes, universidades, intercâmbios, férias, entreterimento, cultura. O Rio é uma cidade onde essas porções são tomadas e desfrutadas com a leveza de consciência dos que merecem. E, não me levem a mal, merecem mesmo. Muitas pessoas que têm acesso à estas porções, trabalham muito para isso. Mas esse senso de merecimento parece atropelar toda uma outra face da cidade que trabalha tanto quanto, merece tanto quanto, mas parece nunca alcançar. Neste aspecto, o Rio é a cidade da falta de oportunidades. É a cidade do, você ganhou na loteria da vida, teve a sorte de nascer em uma casta na qual a meritocracia funciona. Aproveite!

terça (24/02), 15:30, Metrô – na altura do Flamengo, passou um menino, o Caio, pelo vagão, distribuindo uma folha. Nela, ele relatava ter perdido o pai para o câncer, restando a mãe e cinco irmãos, com o aluguel da casa e demais despesas pra pagar. Ele dizia estar sobrevivendo por aquela folha. Pouco me interessa se a história dele é verdadeira ou não. Fato é que ele sentiu necessidade de pedir dinheiro para estranhos no metrô. Fato é que, com histórias verdadeiras ou não, milhares de Caios pedem, vendem bala, fazem malabarismo no sinal.

José Roberto, morador de rua. Fonte: facebook.com/rio.invisivel http://goo.gl/c9xYeh

José Roberto, morador de rua. Fonte: facebook.com/rio.invisivel http://goo.gl/c9xYeh

quarta (25/02), 10:48, Av. Rio Branco – um cadeirante na outra calçada, a da lateral do Teatro Municipal. Da primeira vez que eu passei, eu pensei que ele estava esticando um pano para vender alguma coisa, como o outro senhor na calçada em que eu estava. Quando passei voltando, vi o mesmo homem deitado no pano que havia esticado, com a cabeça no apoio dos pés da cadeira. Eu parei, fiquei olhando para ele, do outro lado da rua. Agonizada demais pra continuar, inerte demais pra fazer alguma coisa. O que eu poderia fazer? Comprar um biscoito, um sanduíche, um lanche ou um almoço pra ele? Sentar um pouco ali e conversar? Eu poderia, mas tive medo.
O mesmo medo e imobilidade que se abateu sobre mim quando um morador de rua sentou do meu lado e começou a conversar comigo no ônibus para a faculdade. Enquanto ele perguntava se eu era casada, se eu fumava crack e confessava fumar, “ser zuado, mas só”, eu me dividia em um misto de desespero por uma rota de fuga e frustração por não conseguir fazer algo por alguém numa situação daquela. Eu quero te ajudar, eu tenho medo, eu não sei te ajudar.

Mas tem gente que não continua, não desvia o olhar, tem gente que supera o medo, a inércia, a imobilidade e estende a mão. São os atos mais simples, como tirar da invisibilidade essas pessoas1, ou os mais radicais, como os que encontram em ajudar estas pessoas a vocação da vida2. São pessoas que caminham passo a passo ao encontro desse Rio tão distante, que tentam diminuir as diferenças e encontrar em si o reconhecimento da humanidade de quem muitas vezes mesmo que em frente da gente, continua invisível.


1. como Rio Invisível.

2. como os franciscanos da Toca de Assis.

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4 comentários sobre “O Rio pelos olhos de… Marina

  1. Pingback: O Rio pelos olhos de… Thaís | O Furor

  2. Sensacional este passeio pelo Rio, cidade em que nunca morei, mas sempre apreciei, por sua beleza e sua história, mas sempre me inquieto com seus contrastes. Parabéns pelo belo texto. Aprecio “O Furor”. Show.

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  3. Pingback: O Rio pelos olhos de… Franco | O Furor

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