O Rio pelos olhos de… Thaís

por Thaís Queiroz 

Eu queria era fazer Relações Internacionais. Desde a oitava série sabia que era esse o curso que eu queria. Prestei vestibular e mudei-me para o Rio de Janeiro em fevereiro de 2012. O Rio era a minha última opção. Eu sabia que para realizar meu sonho tinha que sair de casa e ir pra longe, mas não era pra cá que eu queria vir. Simplesmente por achar que outros lugares seriam melhores.

No começo, detestava tudo, justamente porque não era pra cá que eu queria vir. Hoje, por coincidência aniversário de três anos que moro aqui, eu não detesto este lugar. Mas isso certamente não se deve a modificações dele, mas a diferentes maneiras de enxergar elementos que circulam por aqui.

Para falar desse Rio que vejo hoje, integrando a nossa série pelos 450 anos da cidade, eu vou falar daquilo que mais estudo nas Relações Internacionais; daquilo que aprendi de que é feito o mundo em que vivemos e os sistemas que o constituem: eu vou falar de gente. De gente como a gente. Porque todo mundo é gente. Inclusive os grandiosos presidentes, rainhas, ministros e tudo o mais. E para entender as Relações Internacionais (com letra maiúscula) muitas vezes é preciso entender as relações internacionais, as relações interpessoais.

Vou falar de uma maneira geral, que fique claro. (É importante frisar que estas impressões não representam cada indivíduo, mas podem ser retrato de uma maioria, sim). Aqui no Rio, não sei quem foi que me disse, mas percebi ser uma frase bem verdadeira: o carioca é como o cristo! Vai sempre te receber de braços abertos! Mas não te abraçará. E é assim mesmo. Achar gente sorridente, que goste da gente, que abra um sorriso em nós é facin facin. Mas até encontrar um verdadeiro amigo, aquele que não medirá esforços para fazer algo que você realmente precisa…. isso pode ser uma tarefa mais demorada.

Talvez isso seja por uma característica dos cariocas, de uma maneira geral, que é aquele ar despreocupado. Se ele não se preocupa tanto nem consigo mesmo, não vai ser com o outro que vai se preocupar, certo? “Ah, nenhum problema é tão sério quanto parece! A gente dá um jeito… vai melhorar…”. Hoje me pergunto se não é porque situações diversas são tão ruins por aqui, que admitir isso para si mesmo poderia quase que paralisar a possibilidade de viver [1]. Mas não sei afirmar isso com certeza. A despreocupação se reflete também no que diz respeito a compromisso. “A gente tem que marcar de se encontrar…”. É, tem mesmo… mas pode esperar. Ou você mesmo marca, ou dificilmente sairá. E às vezes nem assim!

O serviços, que também são feitos de gente – criados por gente, operados por gente, repensados por gente –, não escapam desse jeito de levar a vida, não. Quer sem bem atendido? Ou está com pressa? Iiiiiih. Aqui não é o seu lugar. Em sua maioria, o carioca parece estar te fazendo um favor quando te atende. Não está muito ligado no que tu precisas, não. “A paisagem é tão bonita! Por que você não a aproveita em vez de reclamar da demora?” Os serviços são péssimos, como a Amanda mesmo expressou com o de transporte, por exemplo. Neste caso, as grandes empresas subjugam os funcionários, ganham licitações milionárias e não repassam os lucros para melhorar as condições de trabalho, treinamentos, aperfeiçoamento. E diante de tal descaso, o carioca não tem mesmo muito como agir, então meio que paira um sentimento de “se não tem jeito, ajeitado está”.

Só que no próprio serviço boca a boca, aquele que teoricamente não depende da grande empresa, mas o balcão do mercado ou o quiosque da praia, nesse serviço também falta um sorriso. Agilidade, então… não tem por quê. Parece que as belas paisagens compensam. Parece que o seu privilégio de morar aqui, na Capital do Brasil (sim, em Brasília é só o governo em si. O resto continuou aqui mesmo depois de 1960, seu desavisado![2]), deve ser o seu regozijo mais constante. Agradeça!

Isso sem falar naquele Rio que a Marina apresentou. Aquele que eu enxergo todo dia e me aperta o coração. Aquele da imensa desigualdade social, realidade tão distante do lugar de onde vim. Parece que as regras existem justamente para serem quebradas, não para ajudar a vida em comunidade. A distância entre o governante e o povo é tão grande que o pensamento é justamente que a legislação existe para complicar sua vida (já que em tantas situações realmente complica) e não para permitir que tudo flua da melhor maneira para todos. Esse Rio machuca a gente, nos perturba, nos tira do sério e nos deixa sem ação sensata.

Mas é esse mesmo Rio que faz o Rio ser o Rio. Aquele Rio que todo turista enxerga e ama. O Rio do povo sorridente! Dos milhares de nordestinos que veem oportunidade onde outros veem sofrimento, e fazem seu trabalho sorrindo. Dos cariocas que fazem os mesmo. De todos aqui que fazem o mesmo. Do povo que faz de tudo pra vender e ganhar a sua vida, que vai tentar embromar no inglês pra receber seja quem for, que vai, como o cristo, te receber de braços abertos. Um Rio cheio de oportunidades, cidade global, como a Julia falou, não importa o que você precisar. Onde fluxos se cruzam e você capta o dobro, o triplo, o quíntuplo da informação que captaria numa cidade de interior. Onde as pessoas te estendem o braço oferecendo o que puderem te dar.

E é esse Rio, o Rio de contrastes, o Rio de Janeiro lotado de oportunidades e aconchegos, de maravilhas e de desgraças, que me faz continuar aqui. Aquele que me instiga e me desafia, constantemente, aquele que nos faz aprender e crescer! Sempre defendi que viajar engrandece a gente. E viver o Rio (não viver no Rio. Vivenciar a cidade mesmo), em todos os seus defeitos e maravilhas, é uma oportunidade que não se deve dispensar – vale por muitas viagens! Por muitas idas e vindas pelo mundo afora. Este lugar tão cheio de contrastes é um lugar sem igual, onde você encontrará de tudo um pouco, sem necessariamente nunca se encontrar. É o lugar que eu encontrei para entender as relações internacionais que eu tanto quis.

(1) como o péssimo planejamento do governo, a desigualdade social sofrível, que a Marina inclusive retratou: https://ofuror.com/2015/02/25/o-rio-pelos-olhos-de-marina/#more-644

(2) isto é apenas uma brincadeira com o fato de tudo acontecer por aqui, como Olimpíadas, Copa… Com o fato de todas as peças de teatro, todas as grandes empresas (…) estarem ou em São Paulo, ou aqui. Mas São Paulo nunca foi capital, aqui era.

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3 comentários sobre “O Rio pelos olhos de… Thaís

  1. Eu sou suspeito para dizer que admiro esta escritora e me orgulho de seu amadurecimento e suas opiniões, mas suspeito ou não, concordo com suas colocações. O Rio que foi a única capital imperial das Américas, que foi invadido por franceses, que “suicidou” presidente, que, para grande parte do mundo é a capital do Brasil ainda (alguns continuarão achando que é Buenos Aires), é uma babilônia, uma torre de Babel, uma miscelânea impressionante. Viva o Rio e se relacione internacionalmente. Parabéns!

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  2. Pingback: O Rio pelos olhos de… | O Furor

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