O Rio pelos olhos de… Franco

por Franco Alencastro

Os outros membros d’O Furor falaram, nessa série de artigos especiais sobre o Rio de Janeiro, sobre muitas coisas. Falaram sobre o lado bom; falaram sobre o lado ruim, e até sobre fazer esporte X ficar parado. Mas tem uma coisa em que eles não tocaram, pelo menos não diretamente. E é uma faceta importante do Rio de Janeiro – é aquela, afinal, que está em praticamente todos os cartões postais. Falo, é claro, da praia.

A minha relação com a praia já é de longa data: durante toda minha vida, morei basicamente em um só bairro – Ipanema – e tive a imensa sorte de nunca estar a mais de 10 minutos de caminhada da praia.

Especialmente para quem mora perto dela, “A Praia” adquire proporções mitológicas – é um éden descolado dos problemas do Brasil, um lugar onde podemos sentar em uma canga, em uma cadeira ou simplesmente na areia quente e esquecer nossos problemas, em contemplação do infinito – representado pelo mar. A eloqüência com que certos cariocas falam da praia tem frequentemente conotação religiosa – e, religiosamente, é para onde vou no verão, para meu templo de areia, olhos fixos no altar oceânico, no  horizonte onde água e céu se encontram.

Não foi sempre assim, é claro. A praia passou boa parte dos 450 anos do Rio de Janeiro sendo esnobada pela elite colonial e imperial – a palavra de ordem para a classe dominante nacional que já se constituía era “europeizar” o país, em um processo em múltiplas escalas que ia desde a importação de colonos europeus até o total remanejamento do centro do Rio de Janeiro por Pereira Passos para transformá-lo em uma “Paris Tropical”. A praia não se encaixava nesses planos – freqüentada quase que unicamente por índios e escravos, era associada à indolência, à nudez e portanto ao pecado. Tampouco a idéia de ficar sentado na areia aproveitando o sol era muito alinhada às concepções utilitaristas do tempo da emergente sociedade racionalista, entronizada, pelo menos em teoria, com a chegada ao poder de militares positivistas no contexto da República. O único motivo que se admitia para freqüentar a praia era para a cura de alguma doença – o ar puro trazido pelo oceano ajudaria a limpar o sistema, acreditava-se. Em um movimento paralelo assim à criação dos primeiros Spas na Europa no final do século 19, o Rio viu suas praias se encherem de enfermos – tuberculosos e possuidores de todo tipo de doença respiratória.

No começo do Século 20, porém, tudo começou a mudar: a expansão do lazer nos países desenvolvidos, passando por uma popularização dos esportes ao ar livre e do cuidado com o corpo, logo levaram à criação de balneários, recheados de hotéis atendendo à nobreza, mas também à classe média de profissionais liberais que, contrariando as previsões de Marx, expandia-se mais e mais. Foi nesse período, por exemplo, que o Principado de Mônaco, entre a França e a Itália, converteu-se em um luxuoso centro de lazer para a elite global.

O Brasil, dotado de algumas das mais belas praias do mundo, não poderia ficar à parte dessa tendência; o Rio de Janeiro, em particular, por ser a capital, concentrava tanto uma elite ávida em seguir a nova moda européia como um trecho especialmente lindo do litoral nacional, e logo começou a se transformar, e as praias de Copacabana, Ipanema e Leblon começaram a se encher de prédios – nascia o novo distrito “in” da cidade.

“Mas Franco, a praia não é só coisa de elite! Muita gente de todas as classes também vai!” E é bom que você tenha feito essa objeção, pessoa que sempre faz objeções. De fato, talvez uma das coisas mais repetidas sobre a praia, particularmente no Rio de Janeiro, com suas clivagens sociais particularmente acentuadas, é a sua capacidade de unir todas as tribos – ou, melhor dizendo, todas as classes sociais, que dividem, lado a lado, a mesma areia, o mesmo mar e o mesmo sol. A praia é o curativo na “cidade partida” – é o ponto onde o que foi separado se encontra novamente, onde ninguém é melhor que ninguém. Mais do que isso, é um programa que não exclui ninguém, pois ninguém precisa pagar nada para freqüentá-la, uma presença bem-vinda no mundo dos abadás. É o único espaço verdadeiramente democrático e igualitário do Brasil.

Bom, sim e não.

Sim porque a praia efetivamente é bem menos exclusiva do que literalmente qualquer outra opção de lazer no Rio de Janeiro. No entanto, a praia, como pode ter sugerido o meu primeiro parágrafo, não fica em algum tipo de ilha da fantasia aonde toda a exploração e desigualdade desaparece; ela fica no Brasil. E o Brasil é foda, parceiro.

Se a praia de fato tem uma suposta miscigenação, não é segredo pra ninguém que as mesmas pessoas tendem a freqüentar mais ou menos as mesmas áreas. Isso é menos efeito de algum tipo de discriminação consciente do que a tendência que as pessoas tem de se concentrar nas áreas povoadas por pessoas parecidas com elas, e isso inclui pessoas da mesma classe social.

Esse mito da miscigenação fica ainda mais frágil quando olhamos a composição de todos os comerciantes e trabalhadores que garantem o funcionamento, por assim dizer, da praia. Os ambulantes vendendo mate e açaí, os garis da Comlurb que coletam o mate e açaí esquecido para trás (ou jogado num ato de má vontade. Seus porcos) são, e espero não estar surpreendendo ninguém com essa informação, majoritariamente negros. Embora o público efetivamente desfrutando da praia seja um pouco mais diverso do que eu poderia resumir com uma máxima como “todos os vendedores são negros e todos sentados nas cangas são brancos”, fica claro que os processos históricos que fizeram com que os negros ocupem sistematicamente os trabalhos mais penosos não terminam assim que pisamos na areia. Esse conceito da praia como um espaço de todos – mais do que isso, como um direito de todo carioca – tampouco é talhado em pedra (ou seria em areia?) e alheio aos processos históricos. Como eu pude mostrar, a praia já teve outras conotações e nada nos impede de imaginar um futuro em que ela seja diferente. A praia, acredite, é um espaço político. Lembra quando o pessoal do Morumbi, em São Paulo, protestou contra construírem um metrô no bairro pois isso traria um “público diferenciado”? Pois é, nós cariocas não somos muito melhores. Quando, nos anos 80, o Governador Leonel Brizola inaugurou linhas de ônibus que ligavam a Zona Norte à praia, houve protestos dos moradores mais próximos; a chegada de um público de classes mais baixas iria “descaracterizar” a praia. Isso também não ficou no passado, claro: a tendência mais recente de incursões privadas no espaço público também afeta a praia. Em 2013, causou indignação a instalação de um clube privado de luxo na praia do Forte de Copacabana. Parte da praia foi privatizada – digo, ‘cedida’, pelos militares, que administram essa parte do litoral com propósitos de segurança nacional; imagino que a iminente invasão argentina de nosso litoral já não seja tão iminente assim…

A praia corre o risco de ser privatizada para ricaços? O Eduardo Paes vai asfaltá-la e substituir a Pedra do Arpoador por uma estátua de si mesmo? Pessoalmente, acho que não: como instituição, a praia é mais sólida que a maioria das instituições da democracia brasileira. Mas ela não está alheia à reprodução das tendências mais excludentes da sociedade brasileira, onde a desigualdade reina. Eu amo a praia – de onde estou atualmente, no inverno de Paris, ela me faz particularmente falta. Sinto falta de seu calor, da brisa, do pôr-do-sol e – por mais cafonas que sejam – dos aplausos ao pôr-do-sol. E eu amo aquilo que a praia quer ser – um espaço de congregação de todas as classes, onde todos possam esquecer seus problemas e aproveitar o presente que a Mãe Natureza nos deu, sem precisar de abadá ou de convite. Que esse seja um sonho para todo o Brasil, e não termine quando a areia dá lugar ao asfalto.

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