Aquilo que acontece junto de mim e não percebo – o Haiti é aqui?

por Thaís Queiroz

            Passei minhas férias em uma pequena cidade de colonização alemã no estado de Santa Catarina. Blumenau é o nome dela, a minha cidade natal. Em minha rua, uma rua tranquila de um bairro residencial afastado, vi dois novos prédios – de apenas 4 andares (que é o máximo permitido) – que não estavam ali da última vez. Antes, a rua, e praticamente todo o bairro, tinha só casas. Ao passar por estes prédios diversas vezes, quando ia pegar o ônibus, cumprimentei algumas pessoas: todas de pele negra (o que era muito raro em Blumenau) e ouvi também uma língua diferente da minha enquanto passava e eles continuavam a conversar entre si.

            O meu pai trabalhou por alguns anos no Haiti, indo e voltando de tempos em tempos, e por ele eu sabia mais ou menos como soava o creoli, a língua falada pela maioria da população de lá. Eu desconfiava que era essa: tinha bons motivos para tal.

maps.google.com Brasileia, Acre

maps.google.com Brasileia, Acre

       Quando percebi isto e confirmei a suspeita, comecei a devanear pelas informações que eu sabia sobre refugiados haitianos e pensei em um excelente relatório que eu havia lido sobre a situação do abrigo em Brasileia, cidade acreana, com o recente e intenso aumento do número de refugiados do Haiti no Brasil. Esse relatório [1] mostrava que uma quantidade assustadora e crescente de haitianos, que chegavam ilegalmente ao Brasil através de serviços de coiotes na fronteira boliviana e acreana, estava enfrentando desumanas condições em um abrigo no antigo clube desativado da cidade que foi adaptado para acomodar de 300 a 400 refugiados, mas encontra-se cronicamente super lotado, com números superiores a mil, assim como outros abrigos improvisados na região.

            Na faculdade fiz alguns trabalhos sobre o Haiti, para os quais li textos como este. Ouvi também relatos de pessoas que trabalham com este setor – dos vistos e transações entre os dois países – e de pessoas que estavam lá quando o terremoto aconteceu. São histórias terríveis, são relatos terríveis. Pessoas que sofrem, pessoas que perderam família, casa, emprego, pessoas que se separaram de quem amam para buscar alguma oportunidade…

Para entendermos brevemente:

– O Brasil faz parte de uma missão da ONU (a MINUSTAH), criada em 2004 para atuar no Haiti após a deposição do presidente, que culminou em um conflito armado no país.

– Um grande terremoto (7,3 graus na Escala Richter) aconteceu em 2010 na capital do país, devastando ainda mais as condições já degradadas de vida de grande parte da população. Após este terremoto, o Haiti recebeu mais atenção da “comunidade internacional” [2] e o Brasil se destacou em sua atuação como líder da missão já existente.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Haiti

Haiti – localização no globo

– A opinião pública haitiana demonstra um carinho muito grande pelos brasileiros, inclusive nas decorações de muros e carros com a nossa bandeira e nossas cores pelas ruas. Desde 2010 o número de haitianos que migra para o Brasil só aumentou, já superando os 40 mil. [3]

       Com tais trabalhos e leituras, a situação dos haitianos e principalmente a dos refugiados em Brasileia não era novidade para mim: a atenção dada aos refugiados é muito limitada, pois os recursos são escassos. (A própria cidade, de 20 mil habitantes, já não possui muitos recursos para atender à própria população). Em entrevistas, alguns dizem que se soubessem que a situação é assim, não teriam vindo [4], mas com o endividamento gerado pela vinda ilegal, a possibilidade de voltar é nula. Com isto, são submetidos e submetem-se a situações degradantes, como já denunciado em diversos canais [5].  Empresas contratam ônibus para buscar homens em abrigos e contratá-los, tomando como base para a contratação a grossura dos dedos ou das canelas, por exemplo.

       O episódio que me levou a refletir, no entanto, ocorreu algumas semanas após a descoberta dos novos vizinhos, em um churrasco aleatório que fui. Nele, conheci uma moça que trabalha no setor de Recursos Humanos de uma fábrica blumenauense. Ela estava falando sobre como os muitos haitianos recentemente contratados pela fábrica em questão se adaptavam às mais diversas funções, sendo versáteis, mesmo a maioria não sabendo falar o português. Após algumas perguntas, eu entendi que a fábrica manda ônibus para um abrigo em uma igreja na cidade de São Paulo, onde funcionários escolhem homens para serem contratados. Em Blumenau, a fábrica aluga casas para eles morarem em pequenos grupos e assim eles se sustentam. Até aí, quase ok.

            Digo quase pois na minha ignorante inocência que parece não querer enxergar, imaginei que esta contratação era feita de alguma maneira diferente. Não me pergunte qual, pois eu não tinha imaginado nenhuma específica, só estava me negando a enxergar mesmo. O que me acordou deste transe deveras tolo foi quando ela falou “mas esta semana tivemos que devolver um, pois ele não se adaptou em função nenhuma”.

Devolver um.

            Como eu disse, a situação não era desconhecida para mim. Eu sabia que em Brasileia muitos eram (são) aqueles que olhavam com gratidão (por finalmente ter uma oportunidade de trabalho e sair da situação desumana do abrigo improvisado e superlotado) para os ônibus que os buscavam quando eram escolhidos da mesma maneira que se escolhia humanos escravizados ou gado nos portos brasileiros durante mais de trezentos anos. Mas ouvir e ver aquilo ali, na minha frente, naquela pequena cidade tão bem classificada quanto à qualidade de vida e expectativa de vida… foi… não sei se sei descrever.

            Eu confesso que fiquei feliz quando pensei que tantos refugiados, que constantemente enfrentam tanta dificuldade, como estudo tãããão frequentemente na faculdade, estavam tendo oportunidade de trabalhar ali em Blumenau, de começar a juntar dinheiro para trazer seus filhos, esposas, maridos, pais, netos, amigos, o que for que amem, para um lugar com infraestrutura, com qualidade de vida e tudo o mais. (Discutir as implicações disso para o Brasil, para a cidade ou mesmo para eles fica para outra oportunidade, pois já seria toda uma discussão diferente). [6] Mas parar para enxergar que essa maluquice toda que leio sobre lugares tão distantes estava acontecendo ali… Fez-me pensar em quanto não deixo passar todo dia.

            Não, eu não tenho nada que posso fazer pelos refugiados haitianos contratados feito escravos, como já refleti diversas vezes. Repudio a maneira podre com que as fábricas colocam os lucros acima dos direitos humanos e do bem estar de seus empregados ao mesmo tempo que compreendo a lógica neoliberal de mercado e como a mão de obra mais barata traz benefícios etc etc etc.  Mas isso só reforça o quanto as relações internacionais que estudamos tanto, que vemos de diferentes maneiras em textos e mais textos, notícias e mais notícias, acontecendo lá do outro lado do mundo … acontecem aqui com a gente também. Aqui do nosso lado, sem nem percebermos. Na pequena cidade de colonização europeia, com baixa desigualdade social, não só na grande e turbulenta São Paulo o no Rio de contrastes. Não só na distante Brasileia.  Não só no Iraque e na Síria. Mas aqui, sempre aqui, constantemente aqui.

(1) Relatório sobre situação dos migrantes em Brasileia, Acre Primeira quinzena de fevereiro de 2014. Publicado em O Estrangeiro por Diana Zacca Thomaz. Disponível em: http://oestrangeiro.org/2014/04/09/brasileia-fevereiro-2014/.

(2) Usei “Comunidade Internacional” entre aspas porque costumamos brincar que não existe verdadeiramente uma comunidade internacional, sendo este termo basicamente um eufemismo para países com dinheiro, poder e prestígio.

(3) Como na Agência Brasil: http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-01/haitianos-no-brasil-usam-o-rap-para-acalmar-saudade

 (4)  THOMAZ, Diana Zacca. Relatório sobre situação dos migrantes em Brasileia, Acre Primeira quinzena de fevereiro de 2014. O Estrangeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 2014. p. 5. Disponível em: https://oestrangeirodotorg.files.wordpress.com/2014/04/relatorio-brasileia-fevereiro-2014.pdf. Acesso em 06 mar 2015.

(5) http://reporterbrasil.org.br/2014/01/imigrantes-haitianos-sao-escravizados-no-brasil/?gclid=CjwKEAiAmuCnBRCLj4D7nMWqp1USJABcT4dfn56IokVcqUA0UuenwRv0uCbtDU9DFYYrZyJ-6pyEzxoCXMjw_wcB

(6) Isto sem falar no quanto estamos beneficiando os coiotes ao legalizar aqui a situação de imigrantes ilegais em refugiados em vez de lhes dar refúgio lá em Porto Príncipe.

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Um comentário sobre “Aquilo que acontece junto de mim e não percebo – o Haiti é aqui?

  1. Thaís, sempre um prazer gigante ler teus textos. Esse em especial me assustou, por ser blumenauense e pensar, muitas vezes, num mundinho tão pequeno. Achamos que tudo está longe de nós e tragédias só acontecem do sudeste pra cima. Bem, o texto me assusta em diversos pontos, mas abre minha cabeça para tantos outros. É realmente muito engraçado culpar as civilizações do século XV como ignorantes e retrógradas, enquanto basicamente copiamos modelos de tratamento. Triste, na verdade.

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