“Ela não recebera nome…”

por Louise Marie Hurel

A história dessa esposa, minha bisavó, foi típica de milhões de mulheres em seu tempo. Vinha de uma família de taoneiros chamada Wu. Como a família não era intelectual nem tinha nenhum cargo oficial, e como ela era menina, não recebera nome algum. Sendo segunda filha, era simplesmente chamada ”Menina Número Dois” (Er-ya-tou).

(trecho extraído do livro Cisnes Selvagens)

Os obstáculos retratados em uma história de quatro gerações de mulheres em cidades provinciais na China ao longo do século XX, retrata o que eu me apropriei como sendo os desafios da “menina que não recebera nome algum”. Sem buscar rotular o “ser mulher”, meu esforço é de, em breves palavras, pensar junto com cada mulher e homem sobre a sociedade que nos cerca e os desafios que são impostos em meio a uma data tão simbolicamente reconhecida como o “Dia Internacional da Mulher”.

Simone de Beauvoir diria que a mulher é construída como o OUTRO, e por isso podemos observar (em parte) as diversas dificuldades que a sociedade patriarcal nos impõe. Em todos os âmbitos de nossas vidas somos (mulheres) chamadas à desenvolver papéis que reforcem o entendimento cultural, social e histórico de uma mulher. É como se o mundo fosse um palco onde cada um tivesse características pré-determinadas, características essas já carregadas por associações e cargas semânticas previamente definidas. Um exemplo seria o de pensar que toda mulher é emocional, e por ser emocional ela não é capaz de lidar com as situações racionalmente. A razão como uma construção perfeita e imutável do padrão de excelência do correto e prudente versus o emocional irracional e tortuoso.

Porém, antes da batalha dos sexos, temos a batalha do ser.

Ser algo abarca imensa porosidade, complexidade e mutabilidade. Como seres humanos inseridos em cenários e experiências plurais, porém, simultaneamente singulares, podemos ser vistos como alvos em movimento (moving targets). Esses fatores é que informam, orientam e constroem o nosso entendimento do ser mulher, mãe, avó, solteira, casada, esposa e etc…

Sendo assim, me questiono: o que o Dia Internacional da Mulher significa? Seria essa mais uma classificação de uma parte encarada e estatisticamente comprovada como menos favorecida e frágil dentro da sociedade? Ser mulher implica em combater as práticas (tanto nossas como a dos outros), expectativas, tempo, espaço e a própria linguagem. Digo linguagem, não somente pela masculinização generalizada de palavras, mas pelo entendimento categorizado que reforça e liga noções equivocadas entre o Ser mulher e o entendimento da mulher pela sociedade.

É como se estivéssemos observando as forças atuantes em um objeto (voltando à aula de física). O objeto sendo a mulher e as forças (tanto intrínsecas quanto externas) sendo a sociedade, sentimentos, histórias, culturas, religiões e entre outras. No final das contas, para onde a soma das forças irá apontar? Continuaremos transitando como mulheres/meninas sem nome algum? Por mais que tenhamos galgado importantes conquistas, ser mulher implica em resistências diárias.

Decidi escrever esse post/divã hoje pois, como um alvo em movimento, em constante mudança, estruturação e reestruturação, me vi como target quotidiano de concepções generalizadas sobre quem sou eu e quem eu deveria ser enquanto mulher (seja em meus momentos de lazer ou em meus engajamentos académicos/profissionais na área de Relações Internacionais).

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