Nostalgia “de menina”

por Amanda Melo

Desde criança eu tinha problemas com aquelas personagens femininas, seja em filmes com pessoas reais seja em animações, que só sabiam chorar e esperar serem resgatadas pelo seu príncipe encantado. Não tinha paciência pra todo esse drama, lamentações e inação.

Qual não era o meu prazer, então, quando surgiam personagens femininas fortes e inteligentes, que realmente faziam alguma coisa para atingir o que queriam ou para sair de uma situação indesejada! Vou apresentar aqui, então, uma pequena seleção de desenhos que eu via quando era criança e que mostram uma protagonista forte e que, pode parecer exagero, me ajudaram a crescer e me tornar muito mais aberta aos pensamentos feministas.

A primeira vez que eu me lembro de ter visto esse tipo de personagem foi no anime (desenho animado de origem japonesa) Sailor Moon. Nesse anime, uma princesa de um reino situado na Lua reencarna na Terra para poder encontrar e ficar com o seu único e verdadeiro amor. Até aí nada de mais, segue um roteiro clássico de filmes românticos. A parte interessante é que, além de princesa, ela e suas quatro amigas são também guerreiras que protegem o seu reino. E lutam de verdade, com combates corpo a corpo ou com poderes especiais.

Revendo o anime recentemente – uma nova versão está sendo exibida na internet bimensalmente (legalmente e com legendas em português) – o que mais me tocou foi o sentimento de sororidade entre as personagens. Todas elas têm um poder diferente e personalidades muito distintas. Não é aquela visão unidimensional da mulher que tanto se via/vê na mídia. Elas são fortes, inteligentes, meigas, sarcásticas, tímidas, extrovertidas, implicantes… E não uma coisa de cada vez, como muitas vezes em que há uma que é inteligente, uma que é engraçada, uma que é popular. Elas não seguem o estereótipo do que é ser mulher, do que é estritamente feminino. E por mais que elas sejam completamente diferentes há entre elas um laço que vai além da amizade. Essa é uma mensagem bastante importante quando se é criança, ainda mais em um contexto como o nosso em que a competição e a inveja são estimulados entre as mulheres: seja a mais bonita da festa, tenha o sapato mais bonito, conquiste o marido mais rico, mande beijinho no ombro para as inimigas recalcadas etc.

Outro ponto interessante é como o anime aborda a sexualidade das suas personagens. Na segunda temporada surge uma nova sailor, do planeta Urano (sim, cada uma estava relacionada a um planeta, na época em que Plutão não havia sido rebaixado ainda).Sailor_Uranus_in_the_manga

Porém, como todo super-herói, ela tem uma identidade civil, que, para confusão de muitos (até da protagonista) se identificava como homem.mangá

Isso, obviamente, gerou muita controvérsia quando o mangá foi adaptado para a animação, e em muitos países a história foi alterada para esconder a relação homoafetiva entre as sailors Urano e Netuno, passando a tratá-las como primas ou apenas amigas.

Outro anime que gerou certa controvérsia por suspeitas que também havia relações homossexuais e que eu também assistia bastante era Sakura Card Captor. Porém, o que eu quero salientar nesse anime, assim como no anterior, é como a mulher tem o protagonismo, como ela recebe responsabilidades do nada e consegue se adaptar e vencer esses obstáculos por si própria – Sakura, com 10 anos de idade, tem a tarefa de salvar o mundo e lhe são dados poderes mágicos para tal. Nos Estados Unidos, o anime foi completamente reestruturado de forma a diminuir o protagonismo de Sakura, cortando vários episódios, mudando o nome e a abertura.

card-captor-sakura-03Acho interessante mencionar que o mangá de Sakura Card Captor foi criado pela companhia CLAMP, constituída apenas por artistas mulheres. É delas também o Guerreiras Mágicas de Rayearth, que segue o mesmo estilo de Sailor Moon, mas que eu não cheguei a ver.

meninas-superpoderosas-24

Sim, Ele era divo demais e por isso merece um gif!

Vindo mais pro ocidente, temos As Meninas Super Poderosas. Acho que o próprio título já deixa bastante explícito que quem tem o protagonismo na série são as meninas. Elas têm poderes, lutam contra “as forças do mal”, fazem parte de uma família não tradicional e não se deixam intimidar por nada, nem por ninguém. E se isso não é empoderar as meninas desde cedo, eu não sei o que é. Quem ainda tiver dúvidas pode olhar esse artigo (originalmente publicado no Buzzfeed) que rodou a internet dizendo como As Meninas Super Poderosas abordam várias questões de gênero.

O objetivo desse post foi, além de trazer um pouco de nostalgia para os que eram crianças na década de 90, mostrar como as questões de gênero estão presentes nos programas destinados a crianças, de maneira mais ou menos sutil. E dizer que esses programas que passaram na tv aberta no Brasil e na tv a cabo, por mais que pudessem ser considerados desenhos “de menina”, eram vistos por muitos meninos também. Não é porque um programa tem como protagonista uma menina/mulher que ele não vai ser aceito pelo público em geral.

A partir disso, eu pergunto, por que não há mais desenhos desse tipo? Acho que a questão da audiência não é desculpa para que a maioria das personagens em desenhos infantis seja do sexo masculino ou para que as personagens femininas sejam fragilizadas ou super sexualizadas. Por que mesmo com os exemplos nos longas de animação (Mulan, Valente, Frozen), a única personagem feminina de desenhos animados que eu ouço falar ultimamente é a Peppa Pig?

Se alguém souber de algum desenho atual ou se lembrarem de algum outro desenho da infância com pelo menos um pouquinho desse espírito feminista, deixe nos comentários!

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2 comentários sobre “Nostalgia “de menina”

  1. Nos EUA, Sakura Card Captors foi totalmente adaptado pra que o protagonista fosse o Shoran.
    Faltou alguém chegar lá e gritar “liberte-se!”

    Ah, faltou falar de Três Espiãs Demais, outro desenho que tem protagonistas mulheres 🙂

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  2. Por mais que eu adore Três Espiãs Demais, elas sempre me pareceram fúteis demais; acho que não tem um episódio em que elas não falem sobre ou desejem um menino. A competição entre elas e a Mandy também não é legal, justamente o que eu critiquei no texto. Além disso, por mais que elas lutem e tal ainda assim elas estão sob o comando do Jerry.
    Mas muito obrigada pelo comentário, me fez lembrar de Kim Possible! Não vi tanto quanto os outros, e não lembro o suficiente pra fazer uma crítica com propriedade, segue a linha espiã com vida dupla e eu gostava bastante!
    Amanda

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