A Nação Cordial (?)

por Kayo Moura

“Já disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será a cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial” [1]. Uma das características mais difundidas a respeito do povo brasileiro – se é que se pode afirmar a existência de apenas um povo brasileiro e não de uma multiplicidade de indivíduos, comunidades e povos marcados por continuidades e contradições que formam essa comunidade política– é sem dúvida sua cordialidade. Esse discurso, apesar de um tanto quanto mistificado, não deve ser considerado uma farsa total. Pois, afinal ele é constante na fala de estrangeiros que visitam o país, mas também nas práticas e narrativas da população que de certo modo reforçam essa ideia.

A citação que inicia esse post é um trecho do livro “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda, um dos livros clássicos do pensamento sociológico brasileiro no qual a ideia da excepcionalidade brasileira pautada no seu caráter cordial é apresentada. A cordialidade é entendida pelo autor, não como sinônimo de civilidade, ou de “educação”, mas sim, como “expressão legítima de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante” [1] que se manifestam através da hospitalidade, generosidade e da franqueza no trato. A cordialidade brasileira é uma espontaneidade nacional, um componente da identidade do povo, que é carregado de informalidade, intimidade e afetividade que acabam por incidir de diferentes maneiras na política do país.

Seja na forma como os católicos brasileiros tratavam e tratam seus santos, com uma intimidade digna de nota. Seja no costume de chamar as pessoas apenas pelo primeiro nome, diferente, por exemplo, dos EUA [1]. Ou ainda no tão célebre carnaval brasileiro. Essa cordialidade influência e trás marcar em nossa sociedade, como a problemática separação entre o público e o privado, o que leva a problemas relacionados, entre outras coisas, a corrupção [1]. Ou mesmo incidindo sobre o caráter despótico, ou mais democrático, do governo, como argumenta Sérgio Buarque “ O Estado, entre nós, não precisa e não deve ser despótico – o despotismo condiz mal com a doçura de nosso gênio”[1].

Portanto, mais do que tratar do homem cordial em si, quero ressaltar a relação entre esse homem e o seu coletivo, a nação. Passar do homem cordial para pensar “uma Nação Cordial”, não significa dizer que uma sociedade é apenas a soma de seus indivíduos. Mas sim configura-se como uma tentativa de buscar compreender como os indivíduos impactam o caráter do seu coletivo, a nação. Como o próprio Gilberto Freyre argumenta em Sobrados e Mucambos, a respeito das pessoas de região com maior miscigenação: “uma sabedoria contemporânea, um senso de oportunidade, um equilíbrio que faz deles os melhores pacificadores, os melhores bispos, os mais sofisticados diplomatas, os mais eficientes políticos” (tradução minha) [2]. Ou seja, os indivíduos ao possuírem determinada peculiaridade, ainda mais quando se trata de uma característica nacional, como Buarque e Freyre argumentam, vão imprimi-la, em alguma medida, no exercício de suas funções. Seja como políticos, bispos ou diplomatas.

A partir do momento que me deparei com essas afirmações só conseguia pensar nos discursos da política externa brasileira referente ao seu passado pacífico. Parece-me haver uma  relação entre o discurso do homem cordial e o discurso que constrói a política externa brasileira como tradicionalmente e inerentemente “pacifista”. É evidente que ambos estão pautados em uma excepcionalidade brasileira, uma excepcionalidade ligada ao saber se relacionar de maneira cordial o que é de extremamente importância para a vida em sociedade (intra ou entre as nações/Estados). Assim, como Sérgio Buarque e de certo modo Gilberto Freyre, o Itamaraty construiu e continua construindo uma narrativa sobre a cordialidade internacional brasileira.

Na formação dos nossos diplomatas, nos discursos dos ministros e em quase todas as Organizações Internacionais, sinalizamos orgulhosamente que o país, apesar de sua enorme fronteira, compartilhada com dez vizinhos, vive em paz com eles há 150 anos. Exaltamos sempre o fato de termos estabelecido nossas fronteiras pacificamente e ainda que presamos pela disputa pacífica de controvérsias, estimulando a diplomacia em detrimento da guerra. Sempre mencionando que somos um dos poucos países que mantem relações diplomáticas com todos os países da ONU.

Embora o discurso do Itamaraty não cite o termo “cordial” a sua narrativa estabelece uma história de cordialidade. A frase de Sérgio Buarque “um país que não ambiciona o prestígio do conquistador, mas antes detesta as soluções violentas” seria extremamente cabível e compatível, para não dizer idêntico, ao discurso do Itamaraty. Em Raízes do Brasil, essa “cordialidade”/passividade com os vizinhos deriva da cordialidade dos homens, pois os mesmos nunca viram as guerras estrangeiras como método políticos, mas sim como importunas e até criminosas [1]. E ainda segundo Sérgio “Desejamos ser o povo mais brando e o mais comportado do mundo” [1]. Assim sendo, quando falamos de política externa brasileira observo o mesmo tom de Sérgio Buarque nos discursos do Itamaraty. Um discurso que trás a cordialidade brasileira como A contribuição brasileira, para a civilização – segundo Freyre – e para o sistema internacional – segundo nosso respeitado ministério.

Entretanto, cabe a nós e a história problematizar essas questões, basta lembrar a Guerra da Cisplatina, das intervenções no Uruguai, da Guerra do Paraguai, da Guiana Francesa, entre outros. O grande desafio parece ser procurar trabalhar no meio termo, sem cair no essencialismo, argumentando que somos um país por natureza pacífico, mas mantendo um olhar atento as especificidades que aqui podem ser encontradas.

[1] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Caps.1, 5 e 7.

[2] FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos: Decadência do Patriarcado Rural e Desenvolvimento do Urbano. 7.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985. Prefácio à 3a edição e Prefácio à 1a edição, p.xxxiii-li.

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