Jogando Petróleo no Ventilador Parte 2

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

12345Minha vez. Vou me focar em outras regiões, principalmente as consequências para o Irã, Síria, Estado Islâmico (EI ou ISIS, sigla em inglês para Islamic State of Iraq and Syria), Rússia, China e Japão. Vou começar pelo mais complicado, pelo Oriente Médio. Acho importante fazer um pequeno resumo do ator que nós tanto falamos, a Arábia Saudita. O Reino da Arábia Saudita se consolidou como país em 1932, mas só descobriu petróleo em 1938. Hoje, ele é o maior produtor de petróleo do mundo (16% da produção mundial), uma das maiores reservas existentes, 266 bilhões de barris[1], e líder político da OPEP. O maior aliado árabe do Ocidente é uma monarquia regida pela religião sunita wahabista (vertente ultraconservadora do islamismo sunita), sua constituição é a sharia (lei islâmica baseada no Alcorão), todo o poder está concentrado nas mãos do Rei, não existem partidos políticos e as minorias são perseguidas/marginalizadas (como prevê o wahabismo). Essas características ajudam a explicar algumas das nossas suposições para o país manter o preço do petróleo baixo. O barril custando US$ 50,92 (hoje dia 25/03) afeta negativamente todos os países que vendem essa commodity, uma vez que a seis meses atrás ela custava US$ 82,48 (no dia 24/10/2014) [2], ou seja, grande parte dos países do Oriente Médio e do Norte da África. Percebemos que essa ação pode ter como intenção prejudicar os Estados que são governados por xiitas, como o Irã, a Síria e o Azerbaijão e/ou os inimigos dos EUA.

12345O Irã é o mais fácil de entender o porquê. O país é claramente governado pelos xiitas, tendo como Líder Supremo desde 1989 um clérigo xiita, o Aiatolá Khamenei. Além de possuir a quarta maior reserva de petróleo do mundo[3], ele é também o país com mais sanções econômicas (mais que Síria e mais que Coréia do Norte) por conta de violações de direitos humanos e o seu considerado suspeito programa nuclear. Isso faz com que qualquer barril de petróleo que ele consiga vender seja lucro. Com isso, a baixa no preço da commodity pode ter o intuito de tentar abalar o governo e, principalmente, força-lo a sentar com o P5+1 (EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha), negociar o status do seu programa nuclear e aceitar com menos resiliência as condições do Ocidente para que o país nunca possa desenvolver armas nucleares, visando a suspensão das sanções e, assim, voltar a prosperar economicamente.

12345No caso dos outros governos, o motivo seria mais o religioso. Para os sunitas wahabitas, os xiitas são como hereges, por isso fazem de tudo para prejudica-los. Atualmente no mundo, os únicos países governados por xiitas são: o Irã, a Síria, o Azerbaijão e o Iraque (sendo que o últimos é aliado dos EUA). A Síria, inimiga saudita desde a assunção de Hafez al-Assad na década de 60, não só é xiita como a maior parte da sua população é sunita e o país está em guerra civil desde 2011. Desde o seu início, a Arábia Saudita critica o governo do Assad e dá suporte financeiro a grupos sunitas e contra o governo no país[4]. Porém, ao fazer isso, o país acabou ajudando a fortalecer o ISIS, grupo sunita que é contra o governo sírio.

12345Até outubro de 2014, o ISIS ganhava em torno de 1 milhão de dólares por dia vendendo petróleo dos campos capturados no Iraque[5] e esse óleo estaria sendo vendido no mercado negro por 30 dólares[6], o que era muito atrativo para outras organizações e países quando o preço do barril estava em 100 dólares como no ano passado. Logo, eu acredito que a Arábia Saudita percebeu o ISIS como uma ameaça difícil de derrotar militarmente (o que é verdade) e estaria tentando enforca-lo economicamente, acabando com o seu mercado consumidor. Ao colocar o preço a US$ 50,00 por barril, a diferença entre o preço oficial e no mercado negro diminui consideravelmente, fazendo com que as organizações que antes compravam com o ISIS tendem a comprar com a voltar a comprar com a OPEP, por conta do alto risco pessoal, financeiro e internacional que se tornou ao se comercializar e, consequentemente, financiar um grupo terrorista.

12345Bom, e os outros países da Ásia? A Rússia é a segunda maior produtora de óleo no mundo (atrás apenas da Arábia Saudita) e a venda de petróleo e gás representavam 50% do orçamento federal do país[7]. Vale lembrar que o país, que outrora fora a poderosa URSS, está tentando reassumir o status de superpotência e a atual crise na Ucrânia é uma consequência disso. O atual embate entre OTAN e Rússia na Europa provavelmente será afetado pelo preço determinado pela OPEP. Com os preços árabes mais baratos, os russos terão que adaptar os seus preços aos internacionais. A consequência direta disso é uma diminuição da receita do país, que já está com inflação alta e crescimento baixo, e isso implicará em uma redução dos investimentos internos e, com isso, a sua projeção militar e econômica internacional vai diminuir consideravelmente. Não me surpreenderia se a queda dos preços pela Arábia Saudita tivesse alguma intenção de atingir economicamente a Rússia como uma forma de suporte aos EUA.

12345A questão para a China, por outro lado, não é de todo ruim. O país é o quarto maior produtor de óleo, mas também é o segundo maior importador e consumidor da commodity no mundo[8]. Ou seja, a baixa do preço do petróleo internacionalmente trás vantagens para o país que depende da sua importação. A crise russa está tendo sérias consequências na Ásia Central e a fome chinesa por óleo pode ser um salva-vidas para essas republicas. Com a saída da Rússia, a China aparece como um novo e gigantesco mercado consumidor e, ao mesmo tempo, alternativa para a influência do urso na região[9]. Por fim, o Japão, terceira maior economia do mundo e terceiro maior importador de petróleo e seus derivados[10]. A queda do preço da commodity teve um efeito mais que positivo para o país que é uma ilha e depende da sua importação para uma série de atividades. Apesar de ele ser pioneiro na utilização de energias renováveis (como a nuclear, solar, eólica, geotérmica e biomassa), desde o terremoto de 2011 e o acidente em Fukushima o governo japonês teve que gastar aproximadamente US$ 270 bilhões na importação de combustíveis fósseis para poder sobreviver sem o seu sistema nuclear 100% operante (que representava 27% da produção energética no país) [11]. Logo, com a atual decisão da OPEP, o país se beneficia para poder se recuperar econômica e energeticamente do que aconteceu 4 anos atrás.

12345Eu e o Felipe tentamos mostrar nesses dois post as possíveis motivações para a OPEP, mais especificamente a Arábia Saudita, ter decidido baixar o preço do petróleo e as suas consequências para as várias regiões do mundo. Acho plausível dizer que aqueles países que dependiam da venda da commodity, como Rússia, Irã, Venezuela, Nigéria e Brasil, vão passar por um ano difícil com as suas balanças comerciais. Por outro lado, aqueles que dependem da sua importação, como EUA, China, países da Europa e Japão, se beneficiaram dessa decisão. E do lado dos sauditas, as suas enormes reservas conseguem segurar a economia de forma que nenhum nacional ou pessoal do governo sofra. Além disso, essa decisão fez com que eles reafirmassem a sua parceria com os EUA e a sua influência no mundo e mostraram que a OPEP não está morta, que ela continua capaz de destruir ou melhorar a economia do mundo com apenas uma simples reunião, isso não acabou em 1979.

CLIQUE AQUI PARA VER A PARTE 1.

Referências:

[1] U.S. ENERGY INFORMATIONS ADMINISTRATION (EIA). Saudi Arabia. Washington D.C., 10 set. 2014. EIA website. Disponível em: <http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=JA>. Acesso em: 23 mar. 2015.

[2] OPEC. OPEC Basket Price. Viena, s.d. OPEC website. Disponível em: <http://www.opec.org/opec_web/en/data_graphs/40.htm>. Acesso em: 25 mar. 2015.

[3] U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION (EIA). Iran. Washington D.C., 22 jul. 2014. EIA website. Disponível em: <http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=IR>. Acesso em: 23 mar. 2015.

[4] BLACK, Ian. Syria crisis: Saudi Arabia to spend millions to train new rebel force. The Gardian, Londres, 7 nov. 2013. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2013/nov/07/syria-crisis-saudi-arabia-spend-millions-new-rebel-force>. Acesso em: 25 mar. 2015.

[5] SOLOMON, Jay. ISIS’s Oil Revenue Is Falling, Administration Says. The Wall Street Journal, Nova York, 15 dez. 2014. Disponível em: <http://blogs.wsj.com/washwire/2014/12/15/isiss-oil-revenue-is-falling-administration-says/>. Acesso em: 25 mar. 2015.

[6] LEIGH, Karen. ISIS Makes Up To $3 Million a Day Selling Oil, Say Analysts. ABC News, Nova York, 2 ago. 2014. Disponível em: <http://abcnews.go.com/International/isis-makes-million-day-selling-oil-analysts/story?id=24814359>. Acesso em: 25 mar. 2015.

[7] U.S. ENERGY INFORMATIONS ADMINISTRATION (EIA). Russia. Washington D.C., 12 mar. 2014. EIA website. Disponível em: <http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=RS>. Acesso em: 23 mar. 2015.

[8] ______. China. Washington D.C., 4 fev. 2014. EIA website. Disponível em: <http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=CH>. Acesso em: 23 mar. 2015.

[9] JOHNSON, Keith. Central Asia’s Cheap Oil Double Whammy: Lower oil prices and a tottering Russian… Foreign Policy, Arlington, 3 mar. 2015. Disponível em: <http://foreignpolicy.com/2015/03/03/central-asias-cheap-oil-double-whammy-russia-china-silk-road/>. Acesso em: 25 mar. 2015.

[10] U.S. ENERGY INFORMATIONS ADMINISTRATION (EIA). Japan. Washington D.C., 30 jan. 2015. EIA website. Disponível em: <http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=JA>. Acesso em: 23 mar. 2015.

[11] Id. Ibid.

Anúncios

3 comentários sobre “Jogando Petróleo no Ventilador Parte 2

  1. Pingback: Jogando Petróleo no Ventilador Parte 1 | O Furor

    • Você tem razão Henrique, ouvi algumas pessoas esperançosas com a COP 20 de que algumas coisas poderiam ser resolvidas ou acordadas, mas infelizmente isso não aconteceu.
      Mas você tocou em um assunto que nós não mencionamos, o impacto para o meio-ambiente. Manter o preço do petróleo baixo implica em continuar a sua exploração e refino em grandes quantidades, além de desestimular o desenvolvimento de energias renováveis que buscam “fugir” da dependência desse óleo.
      Muito obrigado por apontar essa questão também muito importante.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s