E se eu quiser gostar de rosa?

por Julia Zordan

Dia desses eu estava navegando pela internet e me deparei com um texto da revista Time¹ que me chamou muito atenção. Muito disso pelo título – “I Don’t Want My Daughter To Hate Pink” (“Não Quero Que Minha Filha Odeie Rosa”, em tradução livre). Nesse texto, a autora relata uma situação vivida por ela que a fez refletir a respeito da feminilidade. Mãe de uma bebê recém-nascida, ela decidiu, pela primeira vez, colocar um laço no cabelo da filha. Achou bonitinho, fotografou e mandou a foto para uma amiga. Essa amiga respondeu então “Que bom que você colocou um laço na cabeça dela. Assim dá pra saber que ela é uma menina”.

Ela conta no texto que essa amiga dela a conhece bem e sabe que as coisas que ela comprou para a filha dela não são especificamente ligadas a nenhum gênero. Fala que inclusive da última vez que elas tinham se encontrado, a bebê estava usando uma roupinha do Capitão América, mas que também tem roupinha da Mulher-Maravilha. Ela diz que sabia que a amiga tinha feito uma piada, mas que a piada teve um grande efeito nela: ela se sentiu envergonhada por ter colocado um laço na cabeça da filha. Ela sentiu como se todas as suas crenças e lutas pela causa do feminismo tivessem ido para o ralo pelo simples fato de ela ter colocado um laço na cabeça da filha. Ela percebeu que se sentia envergonhada por que tinha colocado algo feminino na filha, e algo feminino era algo bobo e fútil. E não era ok ela se sentir assim por causa disso.

Ela coloca que:

“Forget that. Femininity is not less than masculinity. It is a different kind of strength, but it is powerful and wonderful and deserves our respect. And that respect is way, way overdue. Why do we associate weakness with wearing lipstick? Didn’t lipstick-wearing women do the tough task of giving birth to and raising many of us? Weren’t suffragettes rocking high heels when they fought for, and won, our right to vote? Wasn’t Rosa Parks in a skirt when she became the catalyst for a civil rights movement? There is nothing fragile about feminine Power”.

“Esqueça isso. A feminilidade não é menos que a masculinidade. É uma forma diferente de força, mas é poderosa e maravilhosa e merece respeito. E esse respeito está em falta há muito, muito tempo. Por que associamos fraqueza com usar batom? As mulheres que usam batom não fizeram a difícil tarefa de dar à luz e criar muitos de nós? As sufragistas não estavam usando batom e arrasando em saltos altos quando elas lutaram, e ganharam, pelo nosso direito de voto? Rosa Parks não estava usando uma saia quando ela tornou-se a catalisadora do movimento pelos direitos civis? Não há nada frágil sobre o Poder feminino” (Tradução livre).

Acho que a parte mais importante do texto é quando ela fala que quer que a filha dela possa viver em um mundo de “E”, não em um mundo de ‘OU”. Ou seja, num mundo em que ela possa gostar de moda E de esportes. Não é que as outras partes do texto não tenham me impactado. E muito. Mas essa que eu mencionei por último me impactou especialmente. Percebi que, caramba, esse também é o mundo que eu quero! Pra mim e pros filhos que eu vier a ter. Eu gosto de futebol E de fazer as unhas. O mundo que eu quero é um mundo em que eu tenha a liberdade de usar, pensar, falar e gostar do que eu quiser, e seja respeitada por isso, e não em que as minhas possibilidades sejam limitadas por serem malvistas para uma mulher, ou que as possibilidades dos meus amigos homens sejam limitadas por serem malvistas para um homem. Não quero um mundo em que o patriarcalismo limite as possibilidades das pessoas, e também não quero um mundo em que o feminismo seja levado a um extremo que também limite as possibilidades das pessoas. O que me chamou atenção aqui foi a contradição que vemos do que é o feminismo: a opressão da feminilidade em nome da luta pelo feminismo, que é uma luta justamente contra qualquer tipo de opressão.

Tentei aplicar esse tipo de reflexão às mais diversas áreas. É fácil ver exemplos de pessoas (independentemente de sexo, gênero ou sexualidade – sim, são três coisas diferentes, não se esqueçam) que deixam de ter suas reflexões e contribuições profissionais levadas a sério por conta da forma como se vestem ou por preferências pessoais. Mas ideologicamente isso também acontece. Será que um homem não pode ter muito a contribuir para o movimento feminista, por exemplo? Será que por ser feminista uma mulher precisa deixar de se depilar, usar roupas “neutras de gênero”, ou até mesmo masculinas, etc, etc?

Deixo aqui então essa reflexão e essas perguntas, para saber a opinião de vocês sobre isso. No próximo post d’O Furor, a Louise vai complementar essa discussão e vai relatar uma experiência pela qual ela passou e da qual ela se lembrou quando eu mandei esse texto da Amanda Deibert pra ela.

 Referência Bibliográfica: 

1. DEIDBERT, Amanda. Time Magazine. Los Angeles. 13 de março de 2015. Disponível em: http://time.com/3744549/tomboys-tiaras-pink/. Acesso em 15 de março de 2015.

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5 comentários sobre “E se eu quiser gostar de rosa?

  1. Pingback: A Saga do Suéter Rosa | O Furor

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