A Saga do Suéter Rosa

por Louise Marie Hurel

“I believe in pink. I believe that laughing is the best calorie burner. I believe in kissing, kissing a lot. I believe in being strong when everything seems to be going wrong. I believe that happy girls are the prettiest girls.” – Audrey Hepburn

(Eu acredito no rosa. Eu acredito que sorrir é a melhor forma de queimar calorias. Eu acredito em beijar, beijar muito. Eu acredito em ser forte quando tudo parece estar dando errado. Eu acredito que meninas felizes são as mais bonitas. - tradução livre)

Dilemas como os de Amanda Deibert (abordado no texto de Julia Zordan) tocam em um ponto crucial: eles fazem parte do nosso dia a dia. Somos constantemente guiados pelo nosso julgamento, ele nos indica o certo/errado, possível/impossível, agradável/desagradável, feminino/masculino. O julgamento faz parte de uma construção social complexa que nos envolve, influencia e determina nossas ações.

(Diva ruiva) Joan Holloway (série Mad Men) é a primeira imagem que vem a minha cabeça.

Quando nasci, minha mãe decidiu pintar meu quarto de azul. Cheio de coelhos e blocos numerados, nasci e cresci dentro do questionamento “rosa ou azul”? (assim como muitas outras meninas e meninos). Minha cor preferida sempre foi azul… mas o que isso quer dizer? Nada! É uma cor como qualquer outra, contudo, nós resignificamos tons, atitudes e assessórios com o nosso olhar dicotômico: feminino OU masculino. Chegamos em um momento que essa divisão virou campo de batalha marcado por historias e experiências pessoais, muitas mulheres começaram a se restringir de usar rosa, saias, maquiagem e entre outros, pois assumir a sua feminilidade e beleza significava “ser menos”. Muitas de nós, principalmente no âmbito de trabalho, começavam a fugir da ideia de “secretária boazuda à lá 50s” dotada de um sex-appeal inerente e um batom vermelho “built-in”(introjetado/intrinsico artifcial) desde nascença (pois queríamos ser levadas à sério) para isso, lançaram fora o “feminino” de certas (ou todas) as áreas de suas vidas.

Nós Podemos!

Há pouco tempo, estive em uma conferência internacional sobre RI, lá tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, realmente incríveis. Um dia estava eu almoçando com um grupo de colegas, quando começamos a conversar sobre a relação da mulher e a cor rosa. No dia anterior, tinha ido a uma loja de “fast-fashion” (H&M, C&A, Forever21) e avistado um suéter maravilhoso rosa pink “frufru” (como minha amiga diz: parece que tem uma áurea rosa em volta dele). Ao olhar para aquele pompom rosa fiquei me sentindo culpada de ter gostado de algo tão “girly”. Estranhei o mix de sentimentos que “purpurinavam” entre os extremos estereótipos de Legalmente Loira e a garota propaganda do cartaz “We Can Do It”. Por um momento, enquanto eu olhava fixamente para a peça (agora pendurada no meu braço) me questionei sobre o que aquele suéter representava. Senti os arrepios do feminismo contestando o rosa cintilante, quando pensei “isso não tem nada a ver com feminismo, mas sim com a minha feminilidade”. Não tenho que me envergonhar de usar um suéter frufru com uma “áurea rosa” ! Chutei o balde do estereótipo construído e reforçado na minha cabeça. Resultado? Comprei! Deletei meu instantâneo preconceito com o suéter e me rendi à sua beleza (mas essa história não é só sobre o suéter, então, prossigamos com o desenrolar dos acontecimentos…).  

[Corta. De volta para o almoço] Agora, estava eu sentada a mesa debatendo fervorosamente sobre como aquela experiência do suéter me levara a repensar algumas coisas. Uma colega, nesse momento, me contava como ela restringiu seu guarda roupa devido a visão masculinizada que a mulher deveria ter para ser levada em consideração, deixara de lado as saias, batons fortes e cores em prol de um meio que falava mais alto do que sua vontade pessoal.

Falar acaba sendo fácil mas, na prática, é muito desafiador não se deixar levar pela associação direta (e relativamente pejorativa) de beleza-sensualidade que permeia, em especial, o ambiente profissional, tanto pela batalha interna da mulher (busca pela independência e conhecimento), quanto pela batalha em meio às construções sociais (patriarcalismo, sensualização exacerbada da mulher).

Ontem, ao chegar na universidade, parei para comprar um misto quente em uma barraquinha. Esfomeada e na corrida cotidiana contra o tempo (e o atraso na aula das 7 horas da manhã), buscava pelo dinheiro rapidamente enquanto a mulher (dona da barraca) preparava o misto na chapa. Quando fui entregar o dinheiro, percebi que ao lado dela estava sua filha, (devia ter por volta de 10-11 anos de idade) fazendo o trabalho de casa e contando com a ajuda de uma das alunas da universidade. Atentando para a situação, admirada, observei cautelosamente a cena: uma mãe que dera seu jeito, investira em um quiosque, e agora contava com a presença de sua filha que, diferente da mãe, tinha a oportunidade de estudar em prol de seu futuro. Do nada ela (filha) me olha e fala: “Sabe, eu vou ser advogada!”, mas antes que eu pudesse responder ela continuou “mas também vou ser médica e estilista”. Finalmente respondi: “Que máximo! Você já começou o caminho, agora é só continuar”.

Ao sair daquela experiência “Humans of New York” (página que tira fotos de pessoas aleatórias que compartilham algo sobre a sua vida), percebi algo importante: aquela menina sonha e visa galgar posições como aquelas porque ela nasceu em uma sociedade que a permitiu pensar assim (mesmo em meio as tensões e lutas que continuamos enfrentando).

Tendo em vista que a academia de RI já é uma área muito marcada pelo título – “você é relevante internacionalmente à partir do momento que tens um doutorado” – , determinei que (mesmo não concordando com a hierarquização de opiniões), quando obtivesse meu Doutorado/PHDs (ao infinito e além), usaria um suéter rosa com toda a confiança (o que não quer dizer que eu não o use hoje). Afinal, é uma cor como outra qualquer, e não devemos nos envergonhar de usá-la só por medo de não sermos levad@s a sério… Se temos conteúdo (comprovado e certificado pelo seu “hard-earned” [duramente conquistado] Doutorado e PHD), “there is nothing to fear but fear itself” (não há nada a temer do que o temor em si – tradução livre). Encerrando de forma otimista (e para algumas/alguns até ingenuamente), a resistência vem desde pequenas mudanças de atitude e visão, até medidas estruturais/macro (ex: políticas públicas).

Xoxo,

Louise Marie

Anúncios

2 comentários sobre “A Saga do Suéter Rosa

    • Obrigada pelo comentário Victor!
      Acredito que muitas práticas (e o nosso próprio entendimento sobre elas) estruturais são reforçadas pela não-resistência do cotidiano, e é justamente essa passividade no olhar que faz com que “incômodos” passem desapercebidos. Como você falou, isso faz parte da “Politics of Everyday Life”.
      Usemos, portanto, a linguagem como ato de resistência (como um agir comunicativo habermasiano).

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s