Mulher, voz, corpo e poder

por Marina Sertã

Eu fui criada para ser uma mulher forte, inteligente e independente. E eu diria que meus pais fizeram um trabalho muito bom.

Meus pais me criaram num ambiente um tanto cego às construções de gênero que as meninas fizeram referência essa semana, com azuis e rosas, “de menina” ou “de menino” tão marcados, quase intransponíveis. Eu fui uma criança que brincou na terra, quebrou cabos de vassoura em duelos, subiu em árvores e cuidou das suas bonecas. Talvez por isso as discussões feministas tenham demorado tanto a fazer sentido pra mim, eu me sentia em uma bolha em que era permitida qualquer roupa, brincadeira e cor. Eu só me deparava com esse tipo de restrição vez ou outra de umx tix chatx dizendo que determinada brincadeira não era “coisa que mocinha faça”, o que me irritava, mas era prontamente ignorado tanto por mim quanto pelos meus pais.

Eu fui criada para ser uma mulher forte, inteligente e independente. E demorou algum tempo para eu perceber que nisso há uma questão de gênero inerente. Muito embora ambos meus pais sempre tivessem trabalhado, quem “sustenta a casa” e quem a mantém limpa e arrumada sempre foi muito claro, o apelo à última instância sempre foi “vou chamar o seu pai” e embora a parceria e complementariedade do relacionamento dos meus pais fosse visível, sempre esteve clara também quem era a autoridade.

Isso fez com que as minhas imagens de força, inteligência e independência fossem todas permeadas por masculinidade.

Por muito tempo eu não “usei rosa”. Por muito tempo eu rejeitei as principais referências (tradicionalmente associadas) a feminilidade. Isso é algo que deixou marcas na minha voz e no meu corpo com as quais com o qual eu venho lidando.

Minha voz, já naturalmente grave, tentava imitar a firmeza, autoridade e seriedade do meu pai. Isso fez com que eu fizesse força demais falando e cantando, com que eu usasse minha voz de maneiras que “pesam”, exaurem meus músculos e muitas vezes machucam minhas cordas. Isso fez com que eu tivesse medo de explorar lugares da minha voz que seriam “bonitos”, porque eu não tinha sido criada para ter uma voz bonita, mas uma voz forte e imponente. Meu corpo rejeitava qualquer possibilidade de leveza, delicadeza ou sensualidade. Eu sou bruta, espalhafatosa e desastrada. E mesmo quando eu comecei a usar maquiagem na adolescência, foi para marcar meus olhos, deixá-los fortes, nunca para “ficar mais bonita”. Aliás, “bonita” ou sensual não era só algo que eu não era confiante para ser (afinal, “o quão ridícula eu tenho que ser pra me achar bonita ou sensual?”), mas que eu achava idiota, frívolo, fraco. Beleza era pra agradar meninos, e eu não tinha sido criada para isso.

Eu fui criada para ser uma mulher forte, inteligente e independente. Mas, no processo de buscar a força, a inteligência e a independência numa sociedade patriarcal, que nunca possivelmente associaria essas características às mulheres, que as reservava para um universo intrinsecamente masculino, eu perdi o ser “mulher”.

Hoje minha principal dificuldade nas aulas de canto são as notas mais agudas, os timbres mais leves. Há uns bons cinco anos eu venho lutando com isso e é uma questão que eu só venho conseguindo lidar há alguns meses, com uma terapia de choque da minha mais recente professora, que vem me colocando pra fazer personagens caricatamente “femininas”, como a Roxy Hart do Chicago. Agora eu consigo cantar músicas que me exigem leveza (voz de cabeça) ou notas mais agudas. Há pouco tempo descobri no ballet, uma dança tão cheia dos rituais e disciplinamentos, a libertação na leveza que há tanto tempo eu venho rejeitando. E embora eu ainda seja um desastre, me divirto. Hoje consigo usar blush, rímel, um batom rosa, pra ficar bonita, colocar um vestido florido e rodado e não me sentir menos poderosa por isso.

Hoje, em alguns momentos, eu me sinto uma mulher forte, inteligente e independente. Mas aos poucos vou abrindo o espaço para ter a confiança para talvez também ser sensual, “bonita”, leve e delicada. E, talvez, a medida que o meu mundo vai se tornando mais feminino & masculino, forte & leve, autoritário & sensual, sério & frívolo, bruto & delicado, eu encontre um pouco de equilíbrio e alguma(s) mulher(es) em meio a tudo lutando dentro de mim.

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