Furor indica: 24/7, de Jonathan Crary

por Franco Alencastro

São precisamente meia-noite e 51 minutos quando começo à escrever esse texto; o terminarei em algo próximo das 2 horas da manhã, sem dúvida. A grande ironia? Estou aqui para defender um sono saudável de nove horas.

Bem, mais ou menos. Estou aqui para falar do livro 24/7 de Jonathan Crary, ensaísta americano mais conhecido por seu trabalho como crítico de arte.

24/7, é claro, não é o título completo do livro – depois de dois pontos, ele ganha o subtítulo O Capitalismo Tardio e o fim do sono. 24/7, nos diz Crary, é mais do que um conjunto de números, mais do que um sinal que vemos às vezes em luzes de néon à frente de uma loja. 24/7 é toda uma filosofia; é a próxima etapa do capitalismo.

O processo que Crary descreve neste livro é familiar para todo mundo que precisou desesperadamente comprar alguma coisa de madrugada, por algum motivo qualquer (eu não julgo). De onde, pergunta ele, saem tantos estabelecimentos comerciais funcionando constantemente, sem nunca fechar as portas? Mais do que um evento anódino, esta proliferação do “24/7” – 24 horas por dia, sete dias por semana – representa para Crary o futuro do capitalismo. Com a queda do comunismo, o capitalismo atingiu sua máxima expansão geográfica, penetrando em todos os países do mundo. A expansão global do capitalismo, que se iniciara com a colonização da Ásia e da África no Século XIX, alcançara, parecia, o auge, e não haveria mais espaço de crescimento – o mundo logo se saturaria.

Ou será que não? Haveria um espaço ainda não colonizado – o tempo. Especificamente, um período de tempo, possuído por todos os seres humanos, que não seria dedicado nem a trabalhar nem a consumir – a transformação de recursos em mercadorias e a venda dessas mercadorias sendo os dois pilares do capital. Como você pode imaginar, falo do sono. Ao contrário de outras funções corporais, como a alimentação, o sono sempre resistiu à comoditização. Sua aparente inutilidade e incrível persistência na era do utilitarismo a todo custo, do “viva sua vida como se ela fosse acabar hoje”, parecia uma aberração. E talvez seja: Crary mostra que a ofensiva já começou. A erosão dos direitos trabalhistas nos seus EUA natais serviram de propulsão à abertura de comércios 24 horas; Enquanto isso, multiplicam-se o número de pessoas trabalhando em casa, e quem trabalha em casa e está lendo esse texto sabe o paradoxo desse tipo de profissão: Se, em teoria, trabalhar em casa libera o trabalhador para escolher suas horas de trabalho em função de suas preferências, na prática, a distinção entre a vida privada e o trabalho acaba, e as horas de trabalho podem inclusive acabar estendidas em comparação com a rotina tradicional. Emails de madrugada do chefe e outras intrusões na vida privada exploram uma zona cinzenta da legislação trabalhista – embora tentativas de regulação comecem a aparecer – já que fica difícil quantificar o trabalho em casa em termos de horas, não tendo ele nem um começo nem fim delimitado. O resultado disso já começa à aparecer: Ao mesmo tempo em que a cultura dos smartphones e a internet estimulam uma conectividade 24 horas, e o “Medo de perder alguma coisa” se espalha na necessidade de sempre ter acesso à mais informações, a venda de remédios para a insônia disparam nos EUA, representando, enfim, a comoditização e artificialização do sono tão sonhada pelo capital.

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)

Algumas outras dimensões interessantes analisadas por Crary incluem a evolução social do sono – que esteve longe de ser um conceito fixo e monolítico ao longo da história, tomando muitas formas – até as aplicações de tecnologia anti-sono, como nos Marines americanos, que passam ás vezes várias noites seguidas sem dormir – Crary levanta esse ponto para lembrar que, da energia nuclear até a o velcro, muitas das tecnologias que ganharam o mundo foram primeiro testadas pelo exército. “Eu sou você amanhã”, poderia dizer um Marine, no seu quarto dia sem dormir.

Crary começa seu manifesto descrevendo a iniciativa que, nos anos 1990, se propunha à iluminar, por meio de satélites refletindo a luz do sol, áreas de mineração no Círculo Polar Ártico que estavam submetidas à longas noites durante o Inverno – e inverter esta balança em favor do dia, com iluminação 24 horas. A iniciativa logo se estendeu para iluminar áreas metropolitanas na Europa, criando um dia eterno. A iniciativa foi rechaçada pela população e eventualmente abandonada por problemas técnicos, mas esta passagem serve quase como uma metáfora para o estilo de escrita de Crary: grandiloquente, por vezes poético, com ares de ficção-científica, e dado à proposições que parecem saídas do Livro do Apocalipse – E o sol brilhará sobre a Terra por Sete dias Completos. Esta, não vou mentir, é parte da graça do livro: seu estilo idiossincrático lembra um pouco o de Slavoj Zizek, inspirando-se livremente em sua incisiva análise do espírito de nossa época e tendências de esquerda (embora não de suas elucubrações teóricas).  Pode, no entanto, decepcionar quem estiver à procura de uma obra mais teórica ou técnica, já que ela é basicamente um longo ensaio(embora, com 140 páginas em minha edição, seu tamanho seja até modesto – eu o li em uma noite. Sim, perdi o sono). A argumentação apocalíptica e algumas piruetas lógicas que Crary faz para conectar os pontos de seus argumentos, no entanto, podem fazer com que alguns leitores revirem os olhos e prefiram ir dormir. O ar profético que assume pode, inclusive, dar um certo ar de inevitabilidade às declarações de Crary – o que, imagino, é bem distante de sua intenção. No entanto, é difícil discordar do cenário que Crary apresenta – em alguns aspectos, ele já é uma realidade, embora a versão que ele ofereça no livro pareça mais um tipo ideal ou uma distopia de ficção científica – como ele diz (parafraseio), um mundo desencantado, desbotado, comercializado e dominado pelas luzes dos shopping centers, povoado por seres humanos em constante agitação e ansiedade, um mundo que é a negação do mistério e da solidão que representa a noite – um mundo que parece apenas consigo mesmo, e, portanto, não lembra nada. Mais do que qualquer coisa, o livro de Crary é um aviso.

Pois bem. São 2h13, e eu acho que vou fazer minha parte na luta contra o capitalismo e tirar uma boa noite de sono.

Tenham bons sonhos, leitores do Furor.

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