Perdida nas manifestações insanas

por Thaís Queiroz

Eu sei. Eu sei que o bom senso sumiu faz tempo. Aliás! Que há lugares em que ele nunca existiu. O problema é que às vezes eu me esqueço disso. Ou então que sou ingênua demais para compreender, com tão pouca idade e experiências, os gênios do pensamento político que povoam as esferas privilegiadas do Brasil. Porque sinceramente estou perdida. Minha repetida reação é a incredulidade.

Refiro-me às manifestações verbais escritas em redes sociais (mais especificamente Facebook e tumblrs) e páginas da internet sobre política e sociedade (incluindo jornais, agências de notícias e blogs) a respeito das passeatas de 15 de março e 12 de abril realizadas em múltiplas cidades do Brasil. Principalmente a deste domingo agora, 12 de abril de 2015. Aquela que está ficando conhecida nestes meios pelos pedidos de impeachment da Dilma, intervenção militar e deliberadas requisições de maior opressão aos cidadãos brasileiros de baixa renda.

Fonte: Página do Facebook - Humans of Protesto

Fonte: Página do Facebook – Humans of Protesto

Sinceramente? Estou absolutamente perdida. O que eu enxergo é uma polarização extrema – extremíssima – que não faz o mínimo sentido para mim, com de um lado a “intitulada direita” e do outro a “intitulada esquerda”. E neste momento a minha maior (porque está gigante com ambos) incredulidade é – por incrível que pareça – com a “intitulada esquerda” (mesmo que eu discorde intensamente destes títulos). Por uma coisa chamada hipocrisia. Em um ponto bem específico.

Em junho de 2013, mais de um milhão de pessoas foi às ruas em mais de quatrocentas cidades brasileiras e quase trinta cidades no exterior. As “Manifestações dos 20 centavos”, que decididamente não eram só por este motivo, tiveram grande repercussão e inclusive assustaram o Governo Federal, que chegou a se pronunciar a respeito e praticamente nada fez. A indignação era generalizada: com a bandalheira e literalmente bagunça dos diversos níveis governamentais, as péssimas, horríveis, medonhas condições de serviços públicos diversos e direitos inerentes aos seres humanos sendo negligenciados – e os políticos enchendo seus bolsos às custas dos desgastes da população.

Em março e abril de 2015, também pra lá de um milhão de pessoas foram às ruas, indignadas com este absurdo que é o nosso sistema: empresas lucrando a taxas astronômicas enquanto prestam serviços precários e ultrapassados, pagando misérias aos funcionários, nos mais diversos setores públicos, devido a licitações sem cabimento; deputados, senadores, vereadores etc votando os próprios salários, aumentos, abonos e auxílios;  enquanto isso, mais de 40% do salário do trabalhador da classe média é pago em imposto. Sinceramente? Imposto tem mais é que ser cobrado! Um governo não funciona sem imposto (como protestou na reunião da CEPAL nosso excelentíssimo presidente Lula), o que não dá é para pagar mais 40% de imposto e, se precisar de atendimento médico, ter que dar um jeito (que ninguém quer saber qual é) de pagar um atendimento particular – ou se danar. Trabalhar mais de cinco meses do ano exclusivamente para pagar cifras ao governo em formato de impostos e, se quiser dar oportunidades para seu filho e prover-lhe uma educação com uma mínima qualidade ter que dar um jeito (que novamente ninguém está nem aí) de pagar uma escola particular – ou submeter seu filho à excelente qualidade das escolas públicas. Pagar mais de 40% de imposto e ter que ainda ver professor tendo que fazer greve devidos aos salários ridículos que recebem e os meios insalubres enfrentados para tentar dar aula – e continuarem eternamente sem serem atendidos – , pagar imposto para ter boas estradas e ter que pagar pedágio na hora de se locomover e continuar com estradas terríveis, pagar R$6,80 de passagem de ônibus todo dia por um péssimo serviço, mais isso e mais aquele outro, aquele outro lá etc etc etc – ou se danar mesmo, se não tiver em condições privilegiadas de dar o tal jeito, já que o cidadão brasileiro já está acostumado.

Há, sim, legitimidade em ir pra rua protestar contra esta corrupção nojenta,

http://noticias.uol.com.br/album/2015/03/15/veja-imagens-de-cartazes-carregados-pelos-manifestantes-pelo-pais.htm#fotoNav=48

Fonte: UOL Notícias

Fonte: UOL Notícias

Fonte: UOL Notícias

contra este sistema insano, contra esta bagunça!

A questão é… sim, infelizmente é uma verdade… no meio de pautas muito legítimas e também defendidas por aqueles da suposta esquerda (porque não acredito que um “”esquerdista”” seja a favor de corrupção – pelo menos na suposta ideologia não deveria ser) existem pessoas M A L U C A S de pedra que clamam pelo retorno dos porões da ditadura militar brasileira,

Fonte: Página Facebook - Humans of Protesto

Legenda da foto: “Eu prefiro ver meu povo morrer por opressão militar do que nos hospitais públicos! CHEGA! {Look do Dia!!! Vc não tem camiseta do BR, mas o namorado tem! […]” Fonte: Página Facebook – Humans of Protesto

Fonte: Página Facebook - Humans of Protesto

Fonte: Página Facebook – Humans of Protesto

que são corruptas,

Fonte: Página Facebook - Humans of Protesto

Fonte: Página Facebook – Humans of Protesto

que verdadeiramente creem que o Brasil tá como a Venezuela ou Cuba

"Nós não seremos outra Venezuela" Fonte: UOL Notícias.

“Nós não seremos outra Venezuela”
Fonte: UOL Notícias.

e que fazem piadas ao bom estilo de #firstworldproblems (1).

Fonte: Página Facebook - Humans of Protesto

Fonte: Página Facebook – Humans of Protesto

Não estou defendendo as pessoas que efetivamente têm pensamentos assim. Não mesmo! Reconheço que tem gente sem menor capacidade de se colocar no lugar do outro ou que teve péssimas aulas de histórias (juro que não sei dar nenhuma outra explicação) pra dizer que prefere morrer sob tortura do que em um hospital público. Sim, gente ignorante existe. O que me dá uma agonia sem tamanho é ver tantas, mas tantas, manifestações nestes meios anteriormente citados que querem ridicularizar completamente e deslegitimar absolutamente mais de um milhão de pessoas  indignadas POR ALGUMAS DÚZIAS DE CARTAZES E GENTE SEM NOÇÃO.

Espere aí. É sério isso? É sério que todos aqueles seres estudiosos que defendiam tão firmemente que devemos buscar as fontes, que devemos relativizar um pouco antes de dar certezas, que devemos buscar entender as bases… e principalmente aqueles que “exerceram um voto crítico no 2º turno”, que votaram contra a volta dos privilégios aos ricos e não a favor do PT, mas que depois iam, sim, voltar a criticar o governo… simplesmente ridicularizam, deslegitimam, é tudo um bando de idiota e é isso aí?! Estão agora simplesmente compartilhando e noticiando repetidamente as mesmas imagens querendo deslegitimar a indignação contra o governo? (Também não passa pela cabeça de ninguém que isso pode ser gente querendo justamente irritar os “””esquerdistas””” ou até – pra aproveitarmos discursos conspiratórios, porque eles sempre têm algo de legal – “””esquerdistas””” querendo ridicularizar o movimento e saindo com cartazes assim?)

Sim, eu compreendo que o meu meio é apenas um, que existem diversas outras pessoas que estão fazendo este movimento crítico, algumas que não foram para a rua com medo de legitimar pedidos de intervenção militar e impeachment, que até apoiam, mas “preferiram não correr o risco”. Mas a mandar calar a boca deste jeito? E ridicularizar assim? Eu simplesmente não me conformo. Eu simplesmente não compreendo.

Ah, não. É verdade. Já compreendi. São um milhão de pessoas que não conhecem de história, que são burras, que não acreditam em direitos humanos, que não sabem se colocar no lugar do outro, que querem que os pobres morram, que querem voltar com a escravidão, que acreditam que preto tem mais é que trabalhar pra branco, que acham que tudo se conquista só com esforço próprio, que não querem que o filho da sua empregada tenha um telefone igual ao do seu filho, que querem se mudar pra Miami, que não sabem refletir e que são egoístas. É isso aí. Gente branca, riquinha nojenta que não sabe reconhecer o quanto o PT melhorou o Brasil e que quem faz coisa boas e benéficas necessariamente fará um número irrisório de ações anti-éticas e prejudiciais. Que acham que bolsa família  sustenta malandro e que cota é absurdo desmedido. Isso. Mais de um milhão de pessoas.

Porque eu não posso agradecer ao fato de a mortalidade infantil ter diminuído devido a auxílio do bolsa família, mas ser contra familiares de ex-presidentes e outros diversos laranjas (e nem sei mais o que tudo) ficarem recebendo salários sem explicação por um cargo que não exercem de verdade. Porque eu não posso entender que as cotas são necessárias como medida de solução imediata diante do preconceito enraizado na nossa sociedade e das oportunidades negadas por este motivo, mas defender também que a valorização dos professores de ensino fundamental já deveria ter acontecido há muito tempo, que já se foram 12 anos de governo em que as escolas e o sistema de ensino podiam ter passado por uma reforma imensa  e de longo prazo para melhorar a qualidade em vez de ficar eternamente no sistema de cotas e continuar dando oportunidade para poucos. Porque eu não posso defender a melhora das condições do nosso sistema carcerário, mas defender também que políticos sejam julgados e condenados por seus crimes e cumpram suas penas como qualquer outro cidadão. Porque não posso saber que há uma generalização do “nordestino burro que não sabe votar” que é errônea e bizarra e sem noção e absurda, mas também saber que o voto de cabresto não foi extinto na Era do Café com Leite.

É verdade. Eu devo mesmo ter ficado louca. Devo ter esquecido alguma coisa no meio do caminho. Ou então sou mesmo ingênua demais para compreender, com tão pouca idade e experiências, os gênios do pensamento político que povoam as esferas privilegiadas do Brasil e acreditam que ou é 8, ou é 80. Que se creen donos da verdade, que não enxergam nada além de si. É verdade, tenho que escolher um lado extremo, não posso defender mais de uma coisa ao mesmo tempo. A bipolaridade deve reinar eternamente no mundo. E a reflexão só deve existir quando é o outro que fala besteiras sobre mim. É. Deve ser. Porque sinceramente estou perdida.

este post foi uma reação indignada da autora às posições extremas que esta vê diversas pessoas ao seu redor tomarem. Ela entende que isto é uma situação e não representa o todo, mas este tipo de posicionamento irrita e frustra.  Hipocrisia me deixa perdida às vezes. E a esperança está pequena. 

– também gostaria de chamar a atenção para o fato de este tipo de posicionamento muitas vezes ser adotado em situações das relações internacionais: esquecer de relativizar, esquecer de se colocar no lugar do outro, adotar extremismos ou só enxergar o lado extremo. Isto é bem perigoso. E como tudo: olhemos pra nossa casa primeiro.

(1) #firstworldproblems é uma hashtag utilizada nas mídias sociais quando se faz referência a problemas que não são realmente problemas se forem vistos com uma perspectiva global. Traduzido como “Problemas de Primeiro Mundo”, faz referência ao fato de no “terceiro mundo” existirem problemas bem piores, mas que “isto aqui” inda é um problema e por isso, podemos reclamar a respeito.

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4 comentários sobre “Perdida nas manifestações insanas

  1. Parabéns pela reflexão, Thaís!
    Realmente, o que está faltando no Brasil hoje é bom senso. Falta grandeza para admitir o acerto dos adversários e humildade para reconhecer os próprios erros.
    Vejo uma diferença astronômica entre as manifestações de 2013 e as que vêm ocorrendo esse ano. Em 2013, as pessoas decidiram sair “espontaneamente” de casa, reinvindicando melhoras na Mobilidade Urbana, na Saúde, na Educação, contra a corrupção, etc. Ao mesmo tempo que faltavam lideranças e os pedidos da população não tinham uma linha definida, a força das manifestações vinha da união das pessoas em prol de um país melhor, sem bandeiras partidárias. Me parecia um movimento mais sensato, menos polarizado.
    Vejo os movimentos desse ano com duas frentes: os que defendem o Governo com unhas e dentes (“esquerdistas”) e os que rejeitam o Governo incondicionalmente (“direitistas”). Esse segundo grupo surgiu como uma ferida (que não cicatriza) das últimas eleições e trouxeram líderes como Aécio, Bolsonaro, Lobão, Sheherazade e Kim batendo, cada vez mais forte, na tecla do impeachment (como se entregar de vez o poder para o PMDB fosse resolver todos os problemas do país). Por outro lado, Lula, Jean Wyllys, MST e CUT tem que inflamar extremistas à esquerda para defender o Governo. Assim, essas lideranças, que hoje existem, acabam polarizando as manifestações e o bom senso (dos sensatos que insistem em ir às ruas) fica perdido entre elas.
    Infelizmente, cada vez mais as pessoas são rotuladas “petista/corrupto/comunista” ou “coxinha/fascista/reaça”, polarizando as discussões. Ao invés de se discutir o caminho a ser seguido, prefere-se apontar os erros do passado e negar as outras contrárias.

    Curtido por 1 pessoa

    • Muitíssimo obrigada pelo comentário, Fabrício!! Realmente enxergo isto que falaste: em vez de doscutir o caminho a ser seguido, prefere-se apontar os defeitos dos outros. Sinto-me absurdamente impotente perante isto, sem saber, literalmente, como agir em prol de mudança.
      Fico triste.

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    • Eu sabia! 😉
      Também fico triste com a situação, mas não acho que sair gritando “For(ç)a Dilma!” vai ajudar. Sou a favor de manifestações, mas de manifestações propositivas.
      Vejo muita gente “discutindo” política porque viu algum vídeo da Sheherazade no Facebook, porque lê o site Pragmatismo Político ou porque segue Fulano ou Beltrano no Facebook/Twitter.
      Penso que o caminho pra mudar é acabar com a máxima de que política não se discute. É dialogando, discutindo e tendo abertura para ouvir. É tentando entender porque o outro pensa diferente e colocando à prova os argumentos que se tem para sustentar a ideia.

      Curtido por 1 pessoa

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