Lá vem Hillary de novo. E, por quê não?

por Guilherme France

Hillary Clinton anunciou, nesse domingo, que está concorrendo à nomeação do Partido Democrata para a Presidência dos Estados Unidos. Sim, de novo.

Como assim? Essa mulher não desiste nunca? Ela realmente faria qualquer coisa para ganhar o poder, não é? Será que ela só pensa nela e na Casa Branca? São grandes as chances de você ter se questionado essas e outras perguntas mais quando soube do anúncio. Minha vez de fazer uma pergunta: você teria se perguntado essas coisas se ela fosse um homem?!

Mas calma, talvez esteja me adiantando. Voltamos a esse ponto em algumas linhas. Antes, quem é Hillary Rodham Clinton?

Nascida nos subúrbios de Chicago, Hillary se formou em Wellesley e em Yale. Advogada, ela trabalhou no Fundo de Defesa das Crianças e no comitê de impeachment que investigou Nixon na década de 70. Deixou, no entanto, essa promissora carreira para se mudar, com Bill, de volta para Arkansas, onde ele pretendia entrar para a política. Bom, não deixou completamente de lado: enquanto o marido concorria (e ganhava) algumas eleições, inclusive para Governador, Hillary trabalhava como advogada em um escritório de advocacia local, tornando-se (a primeira) sócia.

Ela só parou de trabalhar em 1992, quando Bill concorreu à Presidência. Mas ser primeira-dama não é um emprego em tempo integral? Acho que podemos parar aqui para refletir, ainda que brevemente, sobre primeiras-damas.

Para isso, House of Cards, Scandal e todos os seriados sobre política são particularmente esclarecedores. Atualmente, é praticamente impossível se eleger Presidente nos EUA sem estar casado. Só aconteceu duas vez, em mais de 200 anos de democracia. Sem o apoio integral do cônjuge, não há campanha. A carreira de um político é, necessariamente, um projeto conjunto da família. Sacrifícios são exigidos e pouco é dado em troca. Primeiras-damas não recebem salário ou detêm qualquer tipo de poder formal. Acabam recebendo um portfolio de assuntos neutros, politicamente seguros para discutir e trabalhar com o público – o de Michelle Obama, por exemplo, é a obesidade infantil.

Então, voltando à Hillary, por que ela havia aberto mão de tanto para apoiar a carreira de Bill? Parece evidente que aquela era sua carreira também, aquele era seu projeto também. E o que de errado nisso? O próprio Bill reconhecia os sacrifícios feitos e vendia a sua candidatura como uma promoção: o país ganharia dois, pelo preço de um. Ninguém foi enganado sobre o poder e influência que seriam exercidos por Hillary na Casa Branca. Ainda sim, todos ficaram chocados, como se ela estivesse agindo fora dos limites, além do seu “papel”.

Dessa forma, Hillary participou de forma intensa da administração de seu marido entre 1993 e 2000. Foi uma de suas principais conselheiras. Liderou uma polêmica iniciativa para rever o sistema de saúde pública nos Estados Unidos. A iniciativa fracassou, mas se mostrou fundamental, como experiência, para a bem-sucedida implementação do “Obamacare”, quase 20 anos depois. Foi à Pequim, onde, como líder da delegação norte-americana, anunciou para o mundo que os “direitos das mulheres são direitos humanos”.

Chegando o fim do mandato do marido, foi, finalmente, hora de alçar vôo sozinha. Concorreu ao Senado pelo estado de Nova York e sagrou-se vitoriosa, conquistando dois mandatos, em 2000 e 2006. Lá, superou expectativas: evitou os holofotes, trabalhou com republicanos e produziu conquistas legislativas palpáveis, principalmente relacionadas à recuperação de Nova York após os atentados de 11 de Setembro. O último mandato, no entanto, foi interrompido por um vôo ainda mais alto. Concorreu à Presidência. Favorita, acabou derrotada por Obama, mais jovem, mais liberal e mais ousado.

Poderia e, de fato, planejava retornar ao Senado. Chamada para servir, todavia, aceitou o desafio mais difícil de sua vida: ser Secretária de Estado do homem que havia a derrotado. E com distinção serviu.

Fundada na concepção do smart power, defendeu minorias, avançou os direitos das mulheres, promovendo o empoderamento econômico delas e recuperou a imagem dos EUA no mundo. Colaborou para o fim das guerras no Iraque e Afeganistão, organizou a coalizão internacional que derrubou Gaddafi na Líbia e promoveu a democracia em cantos distantes do mundo como Myanmar. De manchas em seu currículo, ficaram os atentados em Benghazi e o fracasso em resolver a crise síria.

De qualquer maneira, já me alonguei demais no seu currículo. Volto à minha ideia inicial: qual o problema de uma mulher ser ambiciosa? O problema é que ambição é relacionada a uma caixinha de características tidas como masculinas, assim como força, coragem e determinação. Para as mulheres, sobra a delicadeza, o carinho, a compreensão.

Ela que já quebrou diversos tetos de vidros, alcançou inúmeros feitos únicos, continua presa naquela caixinha. Difícil que é aceitar uma mulher ambiciosa. Pergunto, portanto, por que ela não poderia concorrer à Presidência novamente? Experiência, tem de sobra – Primeira-dama, Senadora, Secretária de Estado – são mais de 20 anos aprendendo e fazendo o governo funcionar. Visão de mundo, não lhe falta. Capacidade para alcançar acordos bipartidários e apresentar soluções sensatas para problemas urgentes, já demonstrou.

Se ela vai ganhar ou não, só o tempo vai dizer. Mas direito a concorrer, a lutar pela chance de apresentar o seu projeto para o país, isso ninguém pode negá-la. Lutadora. Guerreira. Subestimem-a a seu próprio risco e azar. Porque ela já mostrou que não desiste nunca.

Guilherme é advogado e internacionalista. Fundador do Movimento+Mulheres, está seriamente considerando vender todas as suas posses para financiar sua ida aos EUA, onde ficaria seguindo Hillary durante a campanha, na esperança de um autógrafo e um emprego na Casa Branca (nessa ordem).
Anúncios

2 comentários sobre “Lá vem Hillary de novo. E, por quê não?

  1. Pingback: Entendendo as (complicadas) eleições americanas e as propostas de cada candidato | O Furor

  2. Pingback: O Próximo Presidente dos EUA: Donald J. Trump. E Agora? | O Furor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s