A esquizofrenia da política internacional: caso da Alemanha.

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

            Em junho de 2013 o mundo ficou estarrecido quando Edward Snowden revelou o esquema de espionagem mundial que os Estados Unidos desenvolveram através da sua Agência Nacional de Segurança (NSA, da sigla em inglês National Security Agency). A partir desse momento, toda semana ficávamos mais surpresos com a capacidade tecnológica dos EUA e os seus alvos, ou seja, quem eles estavam espionando, o que dura até hoje. Vimos a nossa presidente, a Petrobras, o governo da França, da Alemanha, a própria OTAN e a União Europeia (UE) sendo espionados. Ou seja, aliados declarados e não aliados. Isso levou a diversas reações de protesto. A Presidente Dilma cancelou uma visita de Estado aos EUA e a Chanceler alemã Angela Merkel expulsou o mais alto representante da Agência Central de Inteligência (CIA, da sigla em inglês Central Intelligence Agency) do seu país[1]. Porém, nesta semana, essa mesma Chanceler foi acusada de estar espionando a França e a UE e passando essas informações para os EUA. Ironia, não acham? Deixem-me falar um pouco mais sobre essa esquizofrenia.

Tirado de O GLOBO COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS em "Revelação de que Alemanha espionou França e europeus a pedido da NSA causa mal-estar."

Obama e Merkel brindam em encontro de 2013 – Michael Sohn/Reuters.

            Desde que o escândalo estourou em 2013, as relações entre EUA e a grande maioria dos países do mundo foi abalada (bom, pelo menos a retórica usada foi de abalo), e o caso da Alemanha não foi diferente. A NSA não só espionou o governo alemão e a sua agência de inteligência, o BND, como também grampeou o telefone da Chanceler desde 2002, o que o Presidente OBAMA negou ter  conhecimento[2] (podemos fazer muitos paralelos entre o acontecido com a Alemanha e com o Brasil). Isso levou a um ambiente antiespionagem no país e a uma série de medidas contra essa situação, como a expulsão do funcionário da CIA de Berlin. Além disso, a Alemanha e o Brasil propuseram uma resolução na Terceira Comissão da Assembleia-Geral da ONU que tinha como objetivo garantir o direito à privacidade, a qual foi aprovada em novembro do ano passado[3].

            Entretanto, depois de toda retórica e de atos condizentes, a Alemanha foi exposta esta semana com a notícia de que a BND estaria espionando, pelo menos desde 2008, o governo francês, a UE e empresas privadas, como a Airbus, e que essas informações estariam sendo passadas para a NSA[4]. Eu acho isso uma ironia enorme. Depois de um ano e meio dando demonstrações de insatisfação com a política de inteligência norte-americana, os alemães são pegos fazendo a mesma coisa e, pior (em minha opinião), cooperando com a mesma política que eles tanto criticavam.

            Acho isso tudo uma contradição entre o que é dito e feito, para não dizer hipocrisia. Mas, é claro que eu sei que não é só a Alemanha quem faz isso, todos os Estados o fazem. Essa questão puramente política está presente em todos os governos. No momento da fala, ou seja, de se comunicar com a sua população, os governantes fazem shows, “gritam” e “esperneiam”, mas no momento de agir eles podem ser hipócritas e continuam a fazer a mesma coisa ou a ser coniventes com o que estão criticando. O caso que eu descrevi da Alemanha é só um deles. Vamos a mais alguns: a Venezuela critica os EUA por tudo de ruim que acontece em seu país, trata mal todo o corpo diplomático americano e chama o país de “Satã”; mas um dos principais mercados para quem eles vendem são os EUA (o que só recentemente eles estão tentando mudar), assim como grande parte dos produtos nos mercados venezuelanos são americanos[5]. Uma contradição? A meu ver, sim. Errado? Nesse caso, não sei, diria arriscado porque se os EUA realmente quiserem eles destroem a economia venezuelana em um estalar de dedos, mas o governo da situação está conseguindo ser reeleito ano após ano sob essa plataforma política, então está dando certo. Outro exemplo: quando a Rússia anexou a Crimeia, o discurso europeu foi de total critica, mas demoram a ceder às pressões dos EUA e adotar sanções econômicas, uma vez que economicamente parar de comprar gás barato não era tão bom.

            Esses são só alguns exemplos como o da Alemanha, mas é claro que existem muitos outros. Isso mostra como o que um governante fala (o que eu vou chamar de interesse político) pode não estar relacionado com o que ele realmente faz (o que eu vou chamar de interesse real). Normalmente, o interesse político de um presidente ou primeiro-ministro, em democracias, é ganhar eleições, ou seja, se manter no poder, assim como o seu partido. Para isso ele pode tentar ser populista, falar o que a sua população quer ouvir ou seguir o que é considerado ético, moral e “apropriado” por todos, mesmo que seguir isso na realidade signifique uma grande perda econômica ou diplomática que pode afetar o país negativamente no longo prazo. Os interesses reais de um governo podem ser desenvolver economicamente o país tomando medidas “impopulares”, ter relações econômicas/diplomáticas/políticas/militares/de inteligência com um suposto “inimigo” ou “desafeto” declarado, ajudar a espionar terceiros, trocar informações para ter cooperação de todos os tipos ou roubar dinheiro dos cofres públicos e enriquecer a elite politica (sim, não vamos ser ingênuos e “esquecer” isso).

12345Se essa esquizofrenia política é ética ou não, são outros 500. Mas ela pode ser necessária para uma série de decisões que mantem o país funcionando, como é o caso da Venezuela e de a Europa de comprar gás para se manter no inverno. O caso da Alemanha, o qual comecei esse post, também é um exemplo dessa contradição. O interesse político da Merkel era atender as demandas internas e “dar satisfação” à sua população depois de estourar o escândalo da espionagem, mas o interesse real nunca fora romper com os EUA, um dos seus maiores aliados. Assim, Berlin criticava Washington na frente das câmaras, enquanto que por detrás cooperava como se nada tivesse acontecido. No mundo da política internacional, às vezes, vale mais a pena varrer algo ruim para debaixo do tapete (como o caso da espionagem) que estragar/danificar as relações diplomáticas entre dois países. Em minha opinião, essa esquizofrenia entre o interesse político e o real tem um nome mais bonito, realismo político. Muitos líderes se utilizam (e precisam se utilizar) dele para atingir os seus interesses, como manter boas relações com aliados e/ou impedir situações que prejudicariam a economia e a sociedade de um país, assim como pode também ser usado para benefício próprio. Analisando o caso da Alemanha e pensando do ponto de vista alemão, a política da Chanceler pode ser considerada boa, já que continuava cooperando com os EUA e ganhando suporte da população. Já do ponto de vista brasileiro, foi prejudicial, já que esvaziou a resolução da Assembleia-Geral de novembro. Logo, o uso do realismo político pode ser perigoso diplomaticamente e os seus efeitos são diferentes para as partes envolvidas direta e indiretamente. Pessoalmente, não acho que esse realismo político seja algo totalmente ruim. É claro que ele precisa de limites, a questão é que eu acredito que eles variam de acordo com os valores éticos e morais de cada um, o que dificulta muito uma análise e o que seria assunto para outro post.

Referências e notas:

[1] THOMAS, Andrea. U.S. Spying on Germany Unacceptable, Says Merkel. The Wall Street Journal, Nova York, 12 jul. 2014. Disponível em: <http://www.wsj.com/articles/u-s-spying-on-germany-unacceptable-says-merkel-1405174452>. Acesso em: 3 maio 2015.

[2] COHEN, Tom. Top senator: Obama didn’t know of U.S. spying on Germany’s leader. CNN, Atlanta, 29 out. 2013. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2013/10/28/politics/white-house-stopped-wiretaps/>. Acesso em: 3 maio 2015.

[3] VALLONE, Giuliana. ONU aprova resolução proposta por Brasil e Alemanha contra espionagem. Folha de S. Paulo, São Paulo, 26 nov. 2014. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/11/1553381-onu-aprova-resolucao-proposta-por-brasil-e-alemanha-contra-espionagem.shtml?cmpid=newsfolha>. Acesso em: 3 maio 2015.

[4] AGÊNCIAS INTERNACIONAIS. Revelação de que Alemanha espionou França e europeus a pedido da NSA causa mal-estar. O Globo, Rio de Janeiro, 30 abr. 2015. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/mundo/revelacao-de-que-alemanha-espionou-franca-europeus-pedido-da-nsa-causa-mal-estar-16020144>. Acesso em: 3 maio 2015.

[5] Eu morei na Venezuela por um pequeno período de tempo. Muito disso reflete a minha experiência e as histórias que eu ouvi no país.

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