Digitalreal

por Julia Zordan

Na semana passada eu decidi dividir um táxi com uma grande amiga minha, que mora perto de minha casa, já que ela estava com um problema nos pés e não conseguiria enfrentar um metrô ou um ônibus lotado naquelas condições. Era a oportunidade perfeita para botar o papo (e a fofoca também, é claro) em dia. Foi quando ela sacou o celular da bolsa, mexeu um pouco na tela e falou ao motorista: “Moço, vai pelo Rebouças. Está melhor do que pelo Jardim Botânico”. Ela me mostrou que tinha visto a informação em um aplicativo de trânsito, me explicou como que o tal aplicativo funcionava, etc. etc.

A partir daí, a conversa mudou de rumo. “Nossa, veja só você que coisa: até para voltar para a casa nós hoje usamos a internet. A gente usa esse troço pra tudo! Não conseguimos ficar cinco minutos sem!”. E é isso mesmo. A gente vê o melhor caminho, vê o horário do ônibus, as mensagens dos amigos, as mensagens do trabalho, posta fotos, tem notícias daqueles parentes que moram em outro estado, outro país, lê notícias… passamos o dia todo conectados! Desde que comecei a faculdade, uma das frases que mais ouço minha avó falar para as amigas e para os parentes é “Ah, mas ela faz tudo naquele computador. Até as notas dela os professores mandam lá no computador dela!”. Alguém aí consegue passar um dia que seja sem fazer ao menos uma pesquisa no Google? Eu parei para analisar isso e percebi que faço pelo menos uma pesquisa por dia. Pelo menos.

Se teve uma coisa que eu aprendi nesses últimos tempos – e que passei a prestar mais atenção – é que as mudanças pequenas no nosso dia-a-dia, nos hábitos e nas vidas das pessoas têm um impacto grande no nível macro, como nas políticas públicas, por exemplo. Então eu parei pra pensar em como que a internet mudou os nossos hábitos de uns anos pra cá. Eu percebi várias pequenas mudanças no meu dia-a-dia que me moldaram.

Percebi que a minha fonte principal de notícias mudou do telejornal para o Twitter, para o Facebook. Percebi que quando fui marcar com meus amigos de ir ao cinema com eles no sábado agora, eu não fui falar pessoalmente com cada um deles, e nem precisei telefonar para cada um. Eu mandei uma única mensagem, que chegou até todos eles. Foi através de mensagem também que minha amiga me avisou que já tinha chegado no lugar marcado e que estava comprando um suco enquanto me esperava.

Percebi que dois dos movimentos políticos mais importantes ocorridos no país nos últimos dois anos – a se citar: as eleições presidenciais do ano passado e as manifestações ocorridas em junho de 2013 – foram amplamente (e não acho que eu possa frisar este “amplamente” o suficiente) influenciados pelas postagens na internet. Percebi que uma das maiores polêmicas enfrentadas no mundo nos últimos anos – a questão da espionagem por parte da NSA, denunciada por Edward Snowden – passa de forma central pelo uso da internet.

A questão que eu quero levantar aqui é a de que o uso corriqueiro da internet mudou a minha forma de ver o mundo. Mudou a forma com que eu organizo meu dia-a-dia. Mudou a forma como que as pessoas, tanto como indivíduos quanto como sociedade, se organizam em torno de um objetivo comum – seja ele ideológico, político ou até mesmo de solidariedade em tempos difíceis [1]. Mudou também a forma de comunicação entre as pessoas, bem como entre as pessoas e as instituições – e o exemplo mais emblemático disso acho que é a página no Facebook da Prefeitura de Curitiba, a querida “prefs” [2]. Mudou a forma como os governos ouvem e também a forma como respondem às demandas de seus cidadãos. Basta dizer que o novo Hino Nacional da Suíça está sendo escolhido através de uma votação online [3], da qual qualquer pessoa que tenha um número de telefone suíço – independentemente de ser nacional suíço ou não – pode participar.

Mais do que isso, a presença tão forte da internet em cada segundo do nosso dia mudou também a nossa forma de consumir. Seja o consumo de produtos, o consumo de informações ou o consumo de opiniões. E as empresas estão tendo que se adaptar a esta nova realidade virtual. Há um forte investimento em propaganda nas redes sociais (os anúncios do youtube e os posts patrocinados no Facebook e no Twitter, por exemplo), ou em propagandas que remetam ao mundo digital (como propagandas ilustradas por emojis ou então filmes publicitários com continuação exclusiva no site da empresa). Também em termos de publicidade, vemos empresas que apostam em parcerias com as blogueiras ou com “celebridades da internet” – formadoras de opinião e influenciadoras do estilo de vida e das propensões de consumo do público que atingem – o que se dá tanto na forma de propaganda nos posts em blogs e redes sociais ou na forma de associação do nome e da imagem da blogueira ou celebridade com o produto ou empresa que se quer anunciar.

Todos esses exemplos e usos dos meios digitais refletem uma tendência de maior pessoalidade no tratamento entre as pessoas, bem como no entre as pessoas e as empresas. As pessoas e as empresas passam a estar a apenas um clique de distância umas das outras, para o bem e para o mal. Algumas pessoas passam a trabalhar via internet, de casa, reduzindo gastos com transporte, com alimentação, os gastos da empresa com infraestrutura, melhorando a qualidade de vida do empregado ao reduzir também o stress; mas algumas empresas também passam a demandar uma disponibilidade profissional muito maior. Eu mesma já recebi e enviei muitos e-mails nos finais de semana, por exemplo. Essa, aliás, foi uma questão muito debatida na França, onde foi criada uma lei que proíbe a troca de e-mails de trabalho após as 18h [4].

 As empresas precisaram se adaptar não só a novos hábitos de consumo de informações, mas também de produtos, na forma dos e-commerces (as vendas pela internet, lojas online). Mais do que isso, tiveram que se adaptar também às novas formas de atendimento ao cliente. Muitas empresas agora realizam o atendimento ao cliente por meio das redes sociais, e-mail ou site. O atendimento ao cliente, aliás, é algo que toma uma importância muito maior nessa Era Digital. O cliente tem o poder de reclamar de uma empresa para todos os seus amigos numa rede social, ou para quem quiser ver, em sites especializados em receber reclamações de clientes insatisfeitos, funcionando como uma propaganda negativa de grande alcance para a empresa. Assim, elas passam a ter uma preocupação ainda maior com a sua imagem.

Não só as empresas, mas também as pessoas passam a ter esta preocupação. Ao mesmo tempo em que a imagem passada para os amigos, parentes e seguidores, e seu número de “likes”, passa a ser um fator cada vez mais influente na auto-estima pessoal, a imagem passada pelas pessoas para as empresas, por meio das fotos e textos colocados em redes sociais, também passa a ser cada vez mais levada em conta, muitas vezes resultando em demissão [5].

O ponto da minha reflexão neste post foi o de que cada vez mais as nossas vidas estão sendo influenciadas e modificadas pela internet, e que isso se reflete no plano pessoal, no plano do dia-a-dia, no plano nacional, no plano global e também no plano empresarial. Isso se reflete na maneira como consumimos e na maneira em que vivemos a nossa vida, para o bem ou para o mal, sendo a internet é uma ferramenta que facilitou incrivelmente a nossa vida – resolvemos qualquer pendência, fazemos qualquer pesquisa, compramos e vendemos coisas, falamos e vemos nossos amigos, nos informamos através de muito mais pontos de vista, ganhamos muito tempo, etc. – mas que, ao mesmo tempo, ainda é um ambiente muito novo, onde não há regulação suficiente e de onde crimes ainda saem impunes.  O que eu me pergunto é: até que ponto devemos levar essa integração da vida real com a vida digital, que tanto nos facilita, mas que tanto nos ameaça? Essa separação deve acontecer? Se sim, de que forma podemos fazer isso? Até que ponto temos espaço para manter esta divisão em um mundo tão integrado como o que vivemos?

Referências:

[1] http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2015/04/facebook-inicia-arrecadacao-de-doacao-para-vitimas-do-nepal.html

[2] https://www.facebook.com/PrefsCuritiba?fref=ts

[3] http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130802_suica_hino_competicao_lgb

[4] http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2014/04/franca-manda-empregado-ignorar-e-mail-do-patrao-apos-expediente.html

[5] http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/02/10/adolescente-perde-emprego-antes-mesmo-de-comecar-por-comentario-no-twitter.htm

Anúncios

2 comentários sobre “Digitalreal

  1. Pingback: Como a tecnologia afeta nossa saúde? | O Furor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s